A defesa das mulheres tem em Adriana Araújo uma voz firme — e frequentemente emocionada. Na bancada do Jornal da Band, na TV, e ao microfone do programa Entre Nós, na rádio BandNews FM, a jornalista de 54 anos cobra respeito, denuncia violências e condena toda ameaça aos direitos conquistados ao longo de décadas de luta.
Não foi diferente na segunda-feira, 5 de outubro. Com a fala por vezes embargada, reagiu às declarações de Eduarda Campopiano. A jovem de 23 anos, eleita deputada estadual por São Paulo com quase 2 milhões de votos, se proclama a “maior inimiga das feministas”, afirma que “feminicídio não existe” e diz que “um homem que não sabe ser agressivo quando precisa não é um grande exemplo de homem”.
Ao desatino da moça, Adriana se indignou com serenidade e delicadeza, em um comentário cujo vídeo soma até agora 260 mil curtidas e 37,5 mil respostas no Instagram:
“A Eduarda fala esses disparates sem sentir nenhuma dor. Mas eu gostaria que ela pudesse ter tempo de aprender, de preferência sem sentir dor, que as palavras que ela fala, que ela repete, são palavras que provocam profunda dor em muitas mulheres.”
A deputada é apenas a “mulher útil da vez”, diz a jornalista, em conversa com o NeoFeed. Ela compara Eduarda a um boneco de ventríloquo. Usada para endossar ideias que ameaçam sua própria segurança, será facilmente substituída quando não se fizer mais necessária. “Homens misóginos e machistas precisam de mulheres que referendem esse discurso de ódio”, afirma.
Eduarda foi convidada para uma entrevista online no Entre Nós. Ela confirmou, mas não apareceu. No mesmo horário, entrou em uma live com o youtuber Lucas Pavanato, seu colega de PL paulista — o segundo deputado federal mais votado do país, que tem como uma de suas principais bandeiras a proibição do uso dos banheiros femininos por mulheres trans.
Em uma de suas manifestações mais recentes, Adriana se insurgiu contra as “influenciadoras do retrocesso”: “Mulheres que do alto dos seus privilégios começam a gravar vídeos e espalhar a teoria de que mulher não deveria votar. Para que votar, né? Deixe os homens falarem por nós.”
A apresentadora conta que já vem acompanhando essas manifestações há algum tempo. Como a ideia é não “dar palco para maluco”, nunca havia se pronunciado.
“Mas agora que também dizem que feminicídio não existe, eu achei pertinente falar sobre esse assunto (…) No Afeganistão, a mulher não vota. No Afeganistão, para ir à casa da família, a mulher tem de pedir autorização para o marido (…) As mulheres entram nos hospitais no Afeganistão com o corpo inteiro machucado, espancado, com hematomas, com objetos perfurantes na cabeça e os casos são tratados como suicídio.”
Em pleno 2026, mulheres bradando aos quatro ventos da internet que não devem nada ao feminismo é assustador — no mínimo, um grave erro de interpretação histórica. É usar os direitos conquistados a duras penas para negar a importância das lutas que os tornaram possíveis.
Um olhar vigilante
Mas Adriana está atenta. Critica uma questão de concurso do Ministério Público paulista, elaborada por um procurador de Justiça, que apresentava o caso hipotético de uma mulher grávida assassinada pelo ex-companheiro por ciúme. O gabarito classificava o crime como homicídio por motivo fútil — e não feminicídio.
Cobra rigor na investigação de mortes ainda não esclarecidas, como a da jovem cearense Isabelle Caracristi, cujo namorado foi preso sob suspeita de ameaça e indução à automutilação ou ao suicídio. E comemora o benefício que garante renda a mulheres que precisam se afastar do trabalho para se proteger da violência doméstica.
Ela se dirige a “cada pai e a cada avô”. “Quando você abraçar as meninas que são os amores de sua vida, ensine a elas que elas têm o direito de crescer com liberdade, com segurança e com a vida sempre protegida.”
E alerta: uma das estratégias para desqualificar as pautas feministas é apresentar a defesa das mulheres como um ataque aos homens, quando deveria ser um compromisso de todos nós. “A responsabilidade, a ética e o respeito não têm lado”, completa.
Outra forma de desacreditar o movimento é explorar temas controversos, como a descriminalização do aborto, para levar quem se opõe à medida a rejeitar também as demais reivindicações.
A defesa da igualdade e da proteção, porém, não exige concordância em todos os assuntos. “Divergências são possíveis de resolver pelo diálogo”, diz ao NeoFeed a jornalista.
Adriana é pessoalmente contrária ao aborto e afirma que jamais faria um, mas defende o direito de interromper uma gestação que, por exemplo, coloque a vida da mulher em risco.
Essas discussões, entretanto, exigem seriedade e equilíbrio — condições que, para ela, se perdem na “baixaria eleitoral”, entre gritos, rótulos e ataques para conquistar votos.
Os gritos não esquecidos
Enquanto isso, crianças perdem suas mães e mães enterram suas filhas, diz. A cada seis horas, uma mulher é morta no Brasil por uma razão: ser mulher.
Quando Adriana noticia ou comenta casos de violência, vem-lhe sempre à mente a dor de mães enlutadas. “Muitos gritos nem são ouvidos, mas os que eu ouço, eu não esqueço”, conta.
Na segunda-feira, entrou no estúdio para comentar as falas de Eduarda Campopiano pensando em Janaína Benette Rodrigues.
Em dezembro de 2025, sua filha Júlia, de 22 anos, foi morta a facadas pelo ex-marido, no Rio de Janeiro. Na saída do cemitério, a mãe gritou “justiça” 18 vezes. “Se fosse com a minha filha, eu gritaria igual”, diz a jornalista.
Um silêncio, porém, a incomoda. “Todas as mulheres eleitas nesse país deveriam ter se pronunciado [contra as falas de Eduarda Campopiano]”, avalia Adriana. Silenciar diante do ódio equivale a compactuar com a barbárie: “Não dá para ficar calado”.
A ausência de uma reação ganha peso em uma eleição que ampliou a representação feminina no Poder Legislativo. O número de deputadas federais passou de 91 para 109, uma alta de 19,8%; o de estaduais e distritais, de 190 para 218, avanço de 14,7%. No Senado, foram eleitas 12 mulheres, ante quatro em 2022, embora o número de vagas em disputa tenha dobrado.
“A chegada de mais mulheres tem de ser celebrada”, afirma a jornalista. “As mulheres têm direito a ocupar a metade dos cargos públicos de comando desse país.”
Entre as eleitas para a próxima legislatura, a direita reúne a maioria das senadoras e 48% das deputadas federais. Para Adriana, porém, a defesa dos direitos femininos independe da orientação política. “É um debate de uma sociedade que precisa proteger a vida das mulheres”, afirma.
Tanto que parlamentares ligadas a partidos conservadores, lembra, também contribuíram para fortalecer as leis de combate à violência de gênero. É o caso das senadoras Margareth Buzetti, do PSD, e Soraya Thronicke, ex-União Brasil e hoje do PSB.
“Sou a Mãe Dela”
Mineira de Itabirito, formada, em 1993, pela PUC de Minas Gerais, Adriana encontrou no Grupo Bandeirantes pela primeira vez espaço para manifestar publicamente suas opiniões. Nos bastidores, porém, nunca se absteve de se posicionar.
Sua saída da Record, depois de 15 anos na emissora, é emblemática. No início de 2020, enquanto retroescavadeiras abriam valas para os mortos por Covid-19 em Manaus, ela apresentou uma reportagem sobre a alimentação de macacos em um parque de Goiânia.
Cumpriu as ordens e saiu da bancada aos prantos. Mas protestou internamente, mesmo sabendo que sua atitude poderia lhe trazer consequências profissionais.
A disposição de não se calar tem raízes nos ensinamentos dos pais. “Eu sou filha de uma feminista que nunca conheceu essa palavra”, diz Adriana.
Sua mãe, Efigênia, estudou até a quarta série em uma escola rural de Minas Gerais, mas ensinou às filhas a importância de uma profissão e da independência financeira. Com o marido, Carlos, que concluiu o ensino médio quando Adriana tinha 11 anos, lutou para que elas chegassem à universidade.
A independência defendida por Efigênia se sustentou no apoio de outras mulheres quando Adriana se tornou mãe de Giovanna, em 1997, aos 25 anos.
A filha nasceu com hemimelia fibular, malformação congênita rara em que a fíbula, um dos ossos da perna, é mais curta ou ausente — o que compromete a mobilidade. Ao longo de seus primeiros 15 anos, a menina passou por dez cirurgias, algumas extremamente complexas e dolorosas.
Adriana lutava para que Giovanna caminhasse com as próprias pernas e conquistasse autonomia, mas nunca viu na condição da filha um entrave para sua ascensão profissional. Quando foi transferida pela Globo para Brasília, em 2002, mudou-se apenas com a menina. Longe da mãe, das irmãs e da tia, construiu uma nova rede de apoio com as amigas.
Ao ser convidada pela Record para o posto de correspondente em Nova York, ela não titubeou e lá foram as duas para os Estados Unidos.
“Você olha para trás e tem uma corrente de mãos femininas dadas para você conseguir cruzar”, resume, em entrevista ao podcast Desculpa Alguma Coisa. “Eu sou certamente produto desse encontro.”
A história de Adriana e Giovanna está no livro Sou a Mãe Dela, lançado em 2020. Por sugestão do marido, o jornalista e publicitário Chico Zaidan Mendez, no ano passado, ela estreou o podcast de mesmo nome.
Os dois gostares
Adriana e Chico se conheceram na redação da Record em São Paulo. Ela tinha 33 anos e se encantou com a forma com que o namorado de 24 anos construía a relação com Giovanna. Algumas vezes chegou a se perguntar se gostava dele mesmo ou se gostava do tanto que ele gostava da filha dela. No fim, percebeu: os dois gostares eram indissociáveis.
Aos 29 anos, Giovanna é médica. E, a mãe faz questão de lembrá-la sempre: “Para você estar onde você está, houve muitas mulheres antes de você”.
É essa consciência que alimenta a indignação de Adriana diante da violência, dos discursos de ódio e das ameaças a direitos conquistados.
Ao pensar nos eleitores de Eduarda, a jornalista se pergunta se, entre eles, mães e pais de meninas perceberam a gravidade das ideias endossadas pelo voto.
Foi a eles que dirigiu o apelo ao encerrar seu comentário na rádio: “Muitas vezes a gente deseja a bondade, mas elege o ódio. Se você puder parar, respirar um instante e pensar sobre isso, talvez nas próximas eleições a gente vá além do videozinho, do TikTok e do Instagram e não eleja esse tipo de pensamento”.





