Dois caminhões, milhares de caixas de vinho e uma operação que parece ter sido planejada por quem conhece bem o mercado de bebidas de luxo.
A italiana Antinori, uma das vinícolas mais tradicionais do mundo, foi alvo do que é considerado o maior roubo de vinhos da história, com prejuízo estimado em cerca de € 5 milhões.
O caso foi revelado pelo Financial Times (FT). Segundo a reportagem, na noite de sábado, 3 de outubro, sete homens mascarados invadiram um depósito da companhia em Cortona, na Toscana, desativaram o sistema de alarme e fugiram com milhares de caixas de alguns de seus rótulos mais valiosos.
Entre os produtos roubados estão garrafas de Tignanello, Solaia e Guado al Tasso, três dos tintos mais conhecidos da vinícola. Os preços de varejo desses rótulos costumam variar entre € 150 e € 500 por garrafa.
O desaparecimento só foi percebido na manhã de segunda-feira, 5 de outubro, quando os funcionários chegaram ao depósito. A Antinori afirma ter imagens das câmeras de segurança que registraram a ação. A polícia investiga o caso, mas ainda não havia realizado prisões até o momento.
A empresa não divulgou o valor oficial do prejuízo, mas, segundo o FT, cerca de 30 mil garrafas foram roubadas. A ação aconteceu justamente quando a companhia se preparava para enviar uma grande remessa de vinhos a clientes no exterior.
Fundada em 1385, a companhia tem sede em Florença, exporta para 170 países e registrou receita de aproximadamente € 263 milhões no ano passado. Mais do que o prejuízo financeiro, porém, o episódio expõe um risco crescente para um mercado no qual a procedência e a reputação dos rótulos são parte fundamental do valor dos produtos.
“Dois caminhões não podem simplesmente desaparecer”, disse Renzo Cotarella, CEO da Antinori, ao FT. Segundo ele, a empresa espera que a divulgação do caso ajude a localizar as garrafas e mobilize conhecedores de vinho na Itália.
A preocupação também está no destino da carga. A vinícola quer alertar compradores para ofertas de origem suspeita, com preços tentadores demais para serem ignorados. A intenção é evitar que os produtos roubados sejam revendidos.
“Esses vinhos têm um grande valor, e não sei como conseguirão vender tudo isso pelo mundo sem serem vistos”, afirmou Cotarella. “Ainda temos esperança de recuperar os vinhos.”
Ladrões enólogos
O roubo na Antinori faz parte de uma sequência de ataques a alvos ligados ao mercado de vinhos na Itália, com indícios de que os criminosos conhecem o valor dos produtos que levam.
Antes, os roubos envolviam pequenos lotes de garrafas raras em restaurantes estrelados pelo guia Michelin ou cargas transportadas em caminhões. Já as ações recentes indicam uma atuação mais profissional, com criminosos mirando diretamente os estoques das produtoras.
Neste verão europeu, dois homens vestidos como trabalhadores, com capacetes e coletes de alta visibilidade, conseguiram abrir buracos nos vidros reforçados do restaurante de alta gastronomia Affinatore, em Milão. Eles levaram garrafas de Romanée-Conti avaliadas em € 280 mil no total.
Também neste verão, a histórica vinícola Banfi di Montalcino informou o roubo de 3 mil garrafas de seus melhores vinhos Alta Langa, armazenadas em um depósito no Piemonte. Na ocasião, a empresa destacou que os criminosos haviam selecionado cuidadosamente os rótulos, um indício de que conheciam os produtos que procuravam.
No mês passado, quatro ladrões levaram outras 3 mil garrafas, desta vez de vinhos Barolo, da produtora Conterno Fantino, também no Piemonte. A operação durou pouco menos de três horas e contou com o auxílio de uma empilhadeira para movimentar a carga dentro do depósito.
A sucessão de episódios sugere que o conhecimento sobre os rótulos e os estoques pode ser tão importante quanto a capacidade de executar a invasão. No caso da Antinori, a ação se destaca tanto pelo volume quanto pelo valor dos vinhos levados.
Cotarella afirmou que o impacto do episódio vai além do dinheiro. “Na vinícola, as pessoas estavam chorando”, disse. “Não é apenas o valor do vinho, é algo mais. Podemos sobreviver sem esse vinho, mas o que me deixa muito triste é o fato de isso poder acontecer conosco.”





