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Vozinha defendeu Cabo Verde. Agora, tenta defender a própria liberdade

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Vozinha esperou a vida inteira por aquele momento. Na estreia da seleção de Cabo Verde em Copas do Mundo, o goleiro de 40 anos fez sete defesas espetaculares contra o bombardeio espanhol.

No histórico empate por 0 a 0 contra a Espanha, foi eleito o melhor em campo. E, poucas horas depois do jogo, os 56 mil seguidores no Instagram já eram um milhão. Mas aquele 15 de junho de 2026, em Atlanta, era apenas o começo.

Vieram o Uruguai e a Arábia Saudita. E, de novo, a atuação (e o carisma) do goleiro ajudaram a levar os Tubarões Azuis ao mata-mata. Mesmo na eliminação para a Argentina, ele brilhou. Oito defesas memoráveis em duelos diretos com Lionel Messi.

Vozinha voltou para casa como o herói mais improvável do torneio. De uma hora para outra, tornou-se uma estrela de alcance planetário. Quase 30 milhões de seguidores — uma audiência 49.900% maior em apenas 109 dias.

Ele ganhou uma rua com seu nome em Cabo Verde. E, no Chile, onde agora joga pelo Colo-Colo, foi recebido de madrugada, no aeroporto de Santiago, por uma multidão ensandecida. Gritos, correria, aplausos e cartazes: “Vozinha, te amo”.

Fora de campo, porém, Josimar Dias encontrou uma pressão contra a qual não havia defesa ensaiada.

“Para ser sincero, se me oferecessem a vida que tenho ou a vida que eu tinha antes, eu escolheria a que tinha antes”, diz, em entrevista ao jornal britânico The Observer. “Perdi minha paz e minha tranquilidade.”

Agora, quando sai, sempre há alguém querendo tirar uma foto, pedindo um autógrafo — “Ou, pior, me filmando”, reclama.

É… a fama tem seus paradoxos. O reconhecimento que abre portas pode comprometer a liberdade de atravessá-las e o direito de fechá-las. Afinal, há uma grande diferença entre desejar ser reconhecido pelo que se faz e aceitar ser observado em tudo o que se faz.

“Muita gente quer ser famosa… mas só vê o lado positivo de ter uma imagem pública”, afirma o goleiro.

Intimidade à distância

O reconhecimento trouxe um efeito colateral: o desgaste emocional de uma exposição sobre a qual Vozinha não tem domínio. “E acho que não há nada que eu possa fazer a respeito”, lamenta o indicado ao Troféu Yashin, que premia o melhor goleiro do ano na cerimônia da Bola de Ouro.

“Os artistas, atletas e comunicadores querem controlar a atenção. Querem que o foco esteja no seu desempenho profissional e não na sua vida pessoal”, diz o pesquisador britânico David Giles, professor da Universidade de Winchester, um dos pioneiros nos estudos da psicologia da fama, ao NeoFeed . “Mas não funciona assim.”

Ao desabafo de Vozinha se seguiu uma saraivada de críticas nas mídias sociais: “É só se aposentar e voltar a ser anônimo”, “Está cuspindo no prato que comeu” ou “Encheu o bolso de dinheiro e agora vem reclamar?”.

É como se o goleiro, ao aceitar o bônus de milhões de seguidores, tivesse assinado um contrato de gratidão incondicional e dado aos fãs o direito de acesso irrestrito à sua privacidade.

A cobrança se apoia em uma ilusão de proximidade com os ídolos muito anterior à internet. Na década de 1950, à medida que a televisão se popularizava, o antropólogo Donald Horton e o sociólogo Richard Wohl, da Universidade de Chicago, estranharam o comportamento de muitos telespectadores.

Eles se referiam aos apresentadores com uma familiaridade normalmente reservada aos amigos.

O tom informal dos comunicadores e o olhar direcionado para a câmera criavam a sensação de convivência. Em 1956, Horton e Wohl apresentaram o conceito de “interação parassocial” — uma “intimidade à distância” na qual o indivíduo se sente conectado a alguém que sequer suspeita de sua existência.

Da esquerda para a direita, Vozinha com a camisa do Homem-Aranha em campanha da Sony Pictures, no copo de edição limitada do McDonald’s de Portugal e como garoto-propaganda da Nike: a fama em campo abriu espaço para as marcas

Cartaz de boas-vindas a Vozinha no Chile: o goleiro de Cabo Verde teve uma recepção digna de superstar (Foto: Reprodução Youtube)

Uma das sete defesas de Vozinha contra a Espanha: entre bolas rasteiras e cabeçadas à queima-roupa, o goleiro garantiu o empate histórico de Cabo Verde por 0 a 0 na estreia da seleção em Copas do Mundo (Foto: FIFA)

O goleiro celebra o empate com a Espanha na estreia de Cabo Verde em Copas do Mundo: a emoção de realizar o sonho de uma vida (Foto: FIFA)

Com maestria nas defesas e carisma fora de campo, Vozinha foi um dos protagonistas da classificação de Cabo Verde para o mata-mata da Copa do Mundo de 2026 (Foto: FIFA)

Décadas depois, com as plataformas digitais, o sentimento de conexão se tornaria ainda mais intenso e onipresente. Os fãs passaram a acompanhar o dia a dia de seus ídolos sem depender de um horário na programação.

Nunca como agora se viram tão próximos. Os ídolos estão ali, a um toque de distância, em nossas bolsas e bolsos.

“O volume de informações, verdadeiras ou não, é tão grande que tendemos a achar que ‘conhecemos’ figuras da mídia da mesma forma que conhecemos qualquer outra pessoa… e às vezes até melhor”, diz Giles. “Portanto, não parece irracional que os fãs sintam que as celebridades ‘lhes devem’ atenção.”

A tal intimidade à distância está tão presente no nosso cotidiano que “parassocial” foi eleita a palavra de 2025 pelo Dicionário de Cambridge.

Economia da atenção

A escolha não é casual. Escancara como a era digital ampliou o valor comercial da fama. O reconhecimento público é explorado como um ativo financeiro, capaz de gerar receita por meio de publicidade, parcerias e patrocínios.

Um estudo publicado em 2021 na Frontiers in Psychology mostrou, em quatro experimentos, que tanto celebridades tradicionais quanto personalidades da internet aumentavam a intenção de compra dos consumidores.

Nessa lógica, não basta ser conhecido: é preciso atrair e mobilizar a audiência. Quanto maior o sequestro de atenção,  mais valiosa é a notoriedade.

Os ganhos de Vozinha dão uma medida do potencial de retorno financeiro da fama. Antes do torneio, seu salário mensal no GD Chaves, time português da segunda divisão, era de pouco mais de US$ 9 mil. No Colo-Colo, praticamente triplicou.

Fora de campo, ele estrelou uma campanha da Sony Pictures para o filme Homem-Aranha: Um Novo Dia, estampou copos do McDonald’s e se tornou garoto-propaganda da Nike. Nas estimativas da Modash, plataforma de marketing de influência, um único post do goleiro no Instagram pode valer cerca de US$ 30 mil.

A atenção já era percebida como um recurso escasso muito antes da popularização da internet. Em 1971, os computadores ampliavam a produção de dados nas empresas, a televisão disputava o tempo livre das famílias e os satélites aceleravam a circulação de notícias pelo mundo.

Foi nesse contexto que o pesquisador americano Herbert Simon, Nobel de Economia de 1978, identificou um paradoxo: quanto mais informação disponível, menor nossa capacidade de absorvê-la. Sua formulação fundamentou a economia da atenção.

Sociedade do espetáculo

Na disputa pela curiosidade dos usuários, as plataformas lucram ao prolongar nossa permanência diante da tela. E a sensação de proximidade com os famosos alimenta esse ciclo. Acompanhamos a rotina, os dramas e as conquistas das celebridades como quem segue os capítulos de uma novela. E a intimidade vira receita.

O retorno financeiro, porém, não elimina os custos emocionais da exposição. Um dos primeiros estudos a investigar a fama pelo ponto de vista dos próprios famosos revelou o sofrimento por trás do reconhecimento. Publicado em 2009 no Journal of Phenomenological Psychology, o trabalho foi conduzido pela psicóloga Donna Rockwell e por Giles.

Os pesquisadores ouviram 15 celebridades americanas, para quem dinheiro e privilégios conviviam com perda de privacidade, isolamento e desconfiança sobre as intenções alheias. “Nenhum dos entrevistados disse se arrepender da experiência da fama”, lembra o professor de Winchester. “Por mais desconfortável que a tenham achado em alguns momentos.”

Em 1967, em meio à consolidação da televisão e da publicidade de massa, o filósofo francês Guy Debord descreveu uma sociedade em que as relações entre as pessoas eram mediadas por imagens, e a representação ganhava primazia sobre a experiência direta. Era o que ele chamava de “sociedade do espetáculo”.

Na era das mídias digitais, o princípio ganhou novos meios de se expandir. Somos, ao mesmo tempo, diretores e espectadores das vidas exibidas na tela, Basta um celular para transformar a existência alheia em conteúdo, mesmo contra a vontade de quem está sendo fotografado ou filmado.

Não apenas consumimos a intimidade dos outros transformada em mercadoria como também expomos a nossa em busca de validação, engajamento e conexão. Nós nos espetacularizamos.

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