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103 Milhões de Ocupados: O Desafio da Produtividade

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PESQUISA PNAD: 103 MILHÕES DE OCUPADOS, MAS O DESAFIO CONTINUA SENDO A PRODUTIVIDADE, RENDA E FORMALIZAÇÃO 

 

Os dados mais recentes da PNAD Contínua, divulgados pelo IBGE, mostram um cenário aparentemente muito positivo do mercado de trabalho brasileiro. No trimestre encerrado em julho de 2026, o Brasil alcançou 103,3 milhões de pessoas ocupadas, enquanto a taxa de desocupação caiu para 5,3%. À primeira vista, os números poderiam indicar um mercado de trabalho bastante favorável. Entretanto, uma análise mais cuidadosa mostra que é necessário olhar não apenas para a quantidade de pessoas ocupadas, mas também para a qualidade dessas ocupações, a formalização, a produtividade e a renda gerada pelo trabalho.

O que significa estar “ocupado”?

A PNAD considera ocupada a pessoa que, na semana de referência da pesquisa, exerceu pelo menos uma hora de trabalho remunerado ou trabalhou sem remuneração em ajuda a membro da família em determinada atividade econômica. Portanto, estar “ocupado” não significa necessariamente ter emprego formal, carteira assinada, estabilidade, elevada renda ou alta produtividade. Esse conceito é fundamental para interpretar corretamente os números.

Entre os 103,3 milhões de ocupados estão empregados formais e informais, trabalhadores por conta própria, empregados domésticos, servidores públicos, empregadores e trabalhadores familiares, entre outras categorias.

A própria PNAD demonstra, portanto, que ocupação e emprego formal não são sinônimos.

A composição do mercado de trabalho – Os dados mais recentes mostram:

Os números mostram um aspecto que merece muita atenção. Dos 103,3 milhões de ocupados, cerca de 39,4 milhões são empregados do setor privado com carteira assinada, excluídos os trabalhadores domésticos. Portanto, não se pode interpretar os 103,3 milhões como equivalentes a empregos formais.

Há uma parcela expressiva de trabalhadores em outras formas de ocupação: empregados sem carteira, trabalhadores por conta própria, trabalhadores domésticos, empregadores, servidores públicos e outras categorias.

A taxa de informalidade ficou em 37,5%; em abril, a informalidade era de 37,2%, correspondendo a aproximadamente 38,8 milhões de trabalhadores; em abril, 38,1 milhões. Ou seja, mesmo com o recorde de ocupação, mais de um terço dos trabalhadores ocupados ainda está na informalidade.

É o chamado “subemprego”? É importante fazer uma correção conceitual. O IBGE não utiliza oficialmente a expressão “subemprego” como uma categoria estatística. O indicador técnico é a subutilização da força de trabalho.

No trimestre encerrado em julho, a taxa de subutilização foi de 13,0%, correspondendo a aproximadamente 14,9 milhões de pessoas. Esse indicador inclui pessoas desocupadas, pessoas que trabalham menos horas do que poderiam ou gostariam e pessoas disponíveis para trabalhar, mas que não estão procurando trabalho nas condições consideradas pela metodologia.

Além disso, havia aproximadamente 4,2 milhões de pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas. Por isso, é inadequado afirmar que todos os trabalhadores informais ou todos os trabalhadores por conta própria são “subempregados”.

Um médico que trabalha por conta própria, um advogado autônomo, um empresário individual ou um profissional especializado podem estar nessa categoria estatística e, evidentemente, não podem ser automaticamente classificados como trabalhadores em situação precária.

O que os números permitem afirmar é que existe uma parcela significativa do mercado de trabalho brasileiro caracterizada por informalidade, insuficiência de horas trabalhadas, baixa proteção social ou menor capacidade de geração de renda.

O grande equívoco da divulgação

Quando se noticia simplesmente que o Brasil possui “103 milhões de pessoas ocupadas”, muitas pessoas podem imaginar que estamos falando de 103 milhões de empregos formais. Não é isso que a PNAD mede.

O número é importante e representa um recorde de ocupação, mas precisa ser analisado conjuntamente com outros indicadores. A pergunta econômica mais importante não deveria ser apenas: Quantas pessoas estão trabalhando?

Deveríamos perguntar também: Em que condições estão trabalhando? Quanto ganham? Quantas horas trabalham? Qual é a produtividade? Quanto contribuem para a Previdência? Qual é a estabilidade dessas ocupações? Essas perguntas produzem uma visão muito mais completa do mercado de trabalho.

Outro dado relevante da PNAD é o rendimento médio real habitual e, no trimestre encerrado em julho de 2026, o rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.762, com crescimento de 3,3% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior.

Esse crescimento anual é positivo e mostra que o mercado de trabalho não apresenta apenas expansão quantitativa. Entretanto, o rendimento médio real recuou 0,7% em relação ao trimestre móvel anterior, o que recomenda cautela na interpretação da evolução mais recente da renda.

Esse crescimento é positivo e mostra que o mercado de trabalho não apresenta apenas expansão quantitativa. Entretanto, a renda média não revela toda a realidade.

A média pode esconder diferenças muito grandes entre trabalhadores de alta renda e trabalhadores de baixa renda. Por isso, para uma avaliação mais profunda, também seria importante acompanhar a distribuição da renda, a renda mediana, a jornada efetivamente trabalhada e a produtividade.

O problema central: produtividade

É aqui que a análise do mercado de trabalho encontra uma questão estrutural da economia brasileira. O Brasil pode aumentar o número de pessoas ocupadas e, ainda assim, apresentar crescimento econômico limitado se a produtividade do trabalho permanecer baixa.

Produtividade significa, de forma simplificada, quanto valor econômico é produzido por unidade de trabalho. O indicador internacionalmente utilizado é o PIB produzido por hora trabalhada.

A produtividade não depende apenas do trabalhador. Ela depende também de:

  • máquinas e equipamentos;
  • tecnologia;
  • qualificação profissional;
  • infraestrutura;
  • logística;
  • acesso ao crédito;
  • qualidade da gestão;
  • pesquisa e desenvolvimento;
  • ambiente regulatório;
  • escala das empresas;
  • inovação;
  • automação e inteligência artificial.

Portanto, comparar simplesmente trabalhadores de países diferentes pode levar a uma conclusão equivocada. Um trabalhador brasileiro utilizando equipamentos antigos, enfrentando infraestrutura deficiente e trabalhando em uma empresa pouco capitalizada pode produzir muito menos do que um trabalhador de outro país que dispõe de tecnologia avançada, máquinas modernas, melhor infraestrutura e processos de gestão mais eficientes.

Isso não significa necessariamente que um trabalhador seja mais competente do que o outro.

O paradoxo brasileiro

O Brasil apresenta um contingente elevado de pessoas ocupadas, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar esse enorme contingente de mão de obra em maior produção e renda. Temos aproximadamente 103 milhões de pessoas ocupadas, mas a economia brasileira ainda apresenta uma produtividade do trabalho significativamente inferior à dos países desenvolvidos.

Esse é um dos grandes desafios estruturais do país. Não basta aumentar o número de pessoas trabalhando. É preciso aumentar o valor produzido por cada hora trabalhada. Isso é fundamental para permitir:

  • crescimento sustentável dos salários;
  • aumento da competitividade das empresas;
  • redução dos custos de produção;
  • aumento da arrecadação sem elevação excessiva da carga tributária;
  • melhoria do padrão de vida;
  • maior capacidade de investimento;
  • crescimento sustentado do PIB.

O que a PNAD realmente está mostrando?

Os dados atuais permitem uma conclusão mais equilibrada. De um lado, o mercado de trabalho brasileiro apresenta resultados quantitativos razoáveis: 103,3 milhões de ocupados, menor desocupação e crescimento real dos rendimentos.

De outro, permanecem desafios importantes: 37,5% de informalidade, 14,9 milhões de pessoas subutilizadas e uma parcela expressiva de trabalhadores fora do emprego formal privado.

Portanto, o número de ocupados é um indicador importante, mas não pode ser utilizado isoladamente para afirmar que o mercado de trabalho brasileiro resolveu seus problemas estruturais. O Brasil avançou na ocupação, mas ainda precisa avançar muito na qualidade, produtividade e capacidade de geração de renda do trabalho.

Conclusão

Os números mais recentes da PNAD mostram um Brasil com recorde de pessoas ocupadas e taxa de desemprego historicamente baixa. Mas também é necessário evitar uma interpretação simplista. Ter 103 milhões de pessoas ocupadas não significa ter 103 milhões de empregos formais ou de alta produtividade. O país continua convivendo com aproximadamente 38,8 milhões de trabalhadores em situação de informalidade e 14,9 milhões de pessoas na condição de subutilização da força de trabalho.

Portanto, o grande desafio brasileiro não é apenas criar mais ocupações. É criar condições para que cada trabalhador possa produzir mais, receber melhor e trabalhar em condições de maior segurança e proteção social.

O verdadeiro salto econômico do Brasil não virá apenas de mais pessoas trabalhando, mas de uma economia capaz de fazer cada hora trabalhada gerar mais riqueza.

Essa é a questão central que os números da PNAD, quando analisados além da manchete, colocam diante do país.

 

 

Roberto Vertamatti é Vice-presidente de Economia da ADVB, Conselheiro da ANEFAC, PhD em Administração pela FCU – Florida Christian University

 


Observação: Dados extraídos da pesquisa PNAD de julho de 2026 do IBGE.

 


As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, o posicionamento da ADVB. Para publicar um artigo ou matéria no Portal ADVB, envie o material para o e-mail redacao@advb.org, sujeito à aprovação editorial. 



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