A distância entre o primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, e o atual, Donald Trump, vai além do tempo. Mais profunda do que os séculos que os separam, a diferença é de princípios. O contraste fica explícito na mensagem de despedida de Washington da presidência em 17 de setembro de 1796.
Um dos textos mais importantes da história americana, o documento ajudou a estabelecer valores essenciais à cultura política do país. Nele, aos 64 anos, o líder da república recém-criada recusa concorrer ao terceiro mandato — para o qual seria certamente eleito
Com isso, Washington deu início à tradição de alternância de poder. A regra que limita o presidente americano a dois mandatos só seria incorporada à Constituição em 1951, mais de um século e meio depois de ele estabelecer o precedente. Para muitos analistas, esse foi seu grande legado.
A defesa das instituições, a tolerância e a convivência pacífica se fizeram presentes ao longo de toda a sua trajetória. Defendia a “boa-fé e a justiça nas relações com todas as nações”. Garantiu que o governo dos Estados Unidos não respaldaria o “fanatismo nem oferecia auxílio à perseguição”. E, constantemente, reafirmou seu compromisso com a Constituição.
Conhecer a biografia de Washington, neste momento, é um exercício particularmente revelador. E é o que propõe o historiador H.W. Brands em seu mais recente livro, American Patriarch: The Life of George Washington (Patriarca Americano: A Vida de George Washington, em tradução livre ), ainda inédito no Brasil.
Professor da Universidade do Texas, o autor é reconhecido por reavaliar o legado de grandes líderes e mergulhar na vida pessoal de seus biografados para entender como suas experiências moldaram suas decisões políticas.
Em American Patriarch , o leitor acompanha Washington da juventude na elite agrária da Virgínia à ascensão como comandante do Exército Continental na Guerra de Independência dos Estados Unidos. Brands mostra como ele se tornou símbolo da Revolução Americana e chegou à presidência 13 anos depois.
Um dos argumentos centrais da obra é que a influência de Washington veio de um traço raro entre os políticos: a capacidade de limitar voluntariamente o próprio poder.
Diferente dos retratos idealizados, o autor mostra como fracassos, infortúnios e contradições — algumas morais — influenciaram a criação do ídolo americano.
Brands reconstrói o ambiente social da Virgínia colonial, a formação de Washington fora do ensino formal, sua experiência como agrimensor e sua participação como jovem oficial na Guerra Franco-Indígena.
Em meados do século XVIII, britânicos e franceses disputavam o controle de territórios da América do Norte. Em 1754, aos 22 anos, Washington foi enviado pela Virgínia para impedir o avanço da França sobre o Vale do Ohio. Ordenou um ataque a um grupo inimigo e matou um oficial. O militar, segundo a França, estava em missão diplomática. Mas, Washington sustentou que sua tropa fora atacada.
A controvérsia transformou um conflito territorial em crise internacional e foi um dos estopins para a guerra, que se estenderia até 1763. Meses depois, Washington foi derrotado em Fort Necessity e teve de se render.
Para Brands, experiências como essa contribuíram para formar seu senso de disciplina, dever e perseverança. Para o historiador, a grandeza do primeiro presidente não estava em uma personalidade extraordinariamente carismática, mas na capacidade de exercer a autoridade com moderação.
Ao renunciar ao comando do Exército Continental, em 1783, e à corrida presidencial alguns anos mais tarde, Washington demonstrou que desapego ao poder político era uma virtude republicana essencial — colocando a estabilidade das instituições americanas acima da vaidade e da ambição.
Moderação, porém, nunca significou fraqueza. Em 1794, durante a Revolta do Whiskey, Washington não titubeou em formar e liderar uma tropa para sufocar o protesto violento contra o aumento dos impostos do destilado. Uma demonstração de que a república exigia o estrito cumprimento da lei.
Washington, diz o historiador, tinha consciência de que suas decisões estabeleceriam modelos para seus sucessores. Assim, muitas de suas escolhas eram orientadas menos pelo interesse imediato do que pela preocupação com a estabilidade institucional da nova nação.
É nesse contexto que ganha sentido o conceito de “patriarca” do título do livro. Mais do que “pai da pátria”, Brands vê em Washington uma autoridade paterna para a nova república. Alguém que orientava, estabelecia limites e proteção, cuja principal força era o respeito que sua experiência e seu julgamento inspiravam.
Sua confiança e seu exemplo ajudaram a dar legitimidade e estabilidade a instituições ainda frágeis. A biografia também explora como essa reputação se transformou, depois de sua morte, em um ideal de integridade pública.
O retrato, porém, não ignora suas contradições. Mostra, por exemplo, a tensão entre suas declarações privadas sobre a abolição gradual e sua atuação prática.
Em 1796, enquanto os Washington estavam na Filadélfia, Oney, mulher escravizada que trabalhava para Martha Washington, fugiu para New Hampshire. Furioso, George Washington contratou capangas para localizá-la e tentou recuperá-la.
A fuga ocorreu em meio às manobras de Washington para impedir que os escravizados sob seu controle conquistassem a liberdade. Como a sede do governo ficava na Filadélfia, eles estavam sujeitos à legislação da Pensilvânia, que previa a emancipação após determinado período de residência. Para evitar que completassem esse prazo, Washington os enviava temporariamente para fora do estado.
Assim, American Patriarch se destaca menos pelas novas descobertas do que por oferecer uma reinterpretação do papel histórico de seu personagem — na vida privada e na pública.
O uso de fontes primárias ao longo de todo o livro dá mais realismo e credibilidade à biografia. A incorporação de cartas, diários, discursos e documentos da época permite que Washington e seus contemporâneos “falem” no decorrer da história de sua vida.
O primeiro presidente dos Estados Unidos morreu aos 67 anos, em 1799. Estava na propriedade Mount Vernon, na Virgínia, o lugar que considerava seu verdadeiro lar, onde era mais feliz: “Prefiro ficar em minha fazenda do que ser o imperador do mundo”.





