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Depois das canetas, “kit Mounjaro” começa a ganhar espaço nas farmácias

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As canetas emagrecedoras chegaram às farmácias pelas geladeiras, mas seus efeitos sobre o consumo já se espalham pelos corredores. Suplementos, fibras e dermocosméticos compõem o chamado “kit Mounjaro”, voltado às necessidades que podem surgir com o tratamento e a perda rápida de peso.

Na Drogaria Araujo, as vendas de whey e outros suplementos proteicos cresceram 53% entre janeiro e agosto de 2026, na comparação anual. Produtos ligados à firmeza, hidratação e elasticidade da pele avançaram 35%; os voltados à queda e ao fortalecimento capilar, 24%.

Com clientes que compram mais, as redes investem em atendimento para fidelizá-los. A indústria acompanha o movimento com lançamentos de suplementos e linhas de cuidados capilares.

Mas o que funciona como estratégia comercial não é uma receita universal. Médicos ouvidos pelo NeoFeed alertam que não há indicação de suplementos ou cosméticos para todos. A segunda onda das canetas chegou às prateleiras; o que entra na cesta deve ser decidido no consultório.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Quando as canetas emagrecedoras começaram a chegar ao Brasil, ocupavam um espaço relativamente pequeno nas farmácias: as geladeiras. Mas hoje o fenômeno de consumo que desencadearam já se espalha por quase todos os corredores.

De suplementos alimentares a dermocosméticos, uma nova cesta de produtos ganha força para atender às necessidades que podem surgir tanto dos efeitos colaterais dos medicamentos quanto da perda rápida de peso. É o que o varejo chama informalmente de “kit Mounjaro”.

Embora o foco seja a perda de peso, as canetas reprogramam a comunicação química entre diversos circuitos nervosos e hormonais. E, com isso, acabam por impactar diferentes sistemas do organismo— o que ajuda a explicar a variedade de produtos do “kit”.

Ao imitar a ação de hormônios associados à regulação do apetite e da saciedade, o GLP-1 e o GIP, além de retardar o esvaziamento gástrico, fazem com que os pacientes se satisfaçam com menos comida. E, como reduzem drasticamente a ingestão calórica, podem deixar de ingerir as quantidades necessárias de vitaminas, minerais, fibras e proteínas.

O processo elimina gordura, mas traz risco de perda de massa muscular e queda de cabelo, entre outras consequências.

Por isso, aumenta a procura por suplementação nutricional. Na Drogaria Araújo, as vendas de whey e outros suplementos proteicos cresceram 53% entre janeiro e agosto de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior. As de creatina avançaram 40%, e as de vitaminas, 20%. Todas essas categorias cresceram acima da média da rede.

Já na Drogaria Iguatemi, as vendas de suplementos aumentaram 25% no primeiro semestre de 2026, na comparação anual. Mais revelador, porém, é o peso da categoria no faturamento da companhia: de 8,87% em 2024 para 15,25% agora. A Panvel também identifica esses produtos entre os que mais crescem, com avanço acima da média registrada pela rede.

As canetas também alteram os movimentos responsáveis por conduzir os alimentos pelo sistema digestivo – o que pode desencadear mudanças no funcionamento intestinal e provocar constipação ou diarreia, sobretudo no início do tratamento.

Não por acaso, as farmácias registram também um aumento nas vendas de produtos focados na saúde intestinal, como compostos à base de fibras e probióticos. Na Araújo, por exemplo, em um ano, o crescimento da categoria foi de 20%.

Um outro efeito comum dos medicamentos é que, ao comer menos, alguns pacientes reduzem  a quantidade de água obtida pelos alimentos, o que exige atenção à hidratação. Já a perda acentuada de peso pode deixar a pele mais flácida, enquanto o emagrecimento acelerado e eventuais carências nutricionais podem favorecer a queda de cabelo.

Na Araujo, as vendas de dermocosméticos ligados à firmeza, hidratação e elasticidade da pele cresceram 35% entre janeiro e agosto de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior. As de produtos contra queda e para fortalecimento capilar avançaram 24%.

Disputa pelo consumidor e aposta da indústria

Com mais compradores e mais itens por compra, os usuários das canetas deixam mais dinheiro no caixa. Na Drogaria Venancio, do Rio de Janeiro, o tíquete médio desses consumidores supera o dos demais clientes — tanto pelo preço dos próprios medicamentos quanto pelo maior número de produtos adquiridos para mitigar os efeitos dos remédios, afirma Rodrigo Ahmed, sócio-diretor da empresa, em entrevista ao NeoFeed.

“O consumidor que inicia uma jornada de cuidado mais estruturada passa a olhar para a saúde de forma mais ampla”, diz ao Milena Rocha, gerente comercial do Grupo DPSP.

De olho nesses clientes, as redes passaram a investir em atendimento para fidelizá-los. A Venancio está desenvolvendo um programa de treinamento das equipes de loja. A proposta é preparar os atendentes para entender suas dúvidas e orientar sobre produtos complementares quando adequado, respeitando as atribuições de médicos e farmacêuticos.

Na Iguatemi, a aposta na fidelização ganhou até nome: Da4You. O serviço funciona como uma espécie de concierge, que ajuda a esclarecer questões sobre receitas, tratamentos e necessidades adjuntas, além de organizar a entrega dos medicamentos onde e quando o cliente precisar.

Como explica Leonardo Diniz, CEO da companhia, o acompanhamento pode incluir o contato com o médico para esclarecer questões sobre a prescrição e a continuidade do tratamento.

A demanda que movimenta os corredores das farmácias também orienta lançamentos e estratégias da indústria. Em setembro, a Hypera Pharma lançou o Semavy, da Mantecorp, entrando no mercado de GLP-1. Em paralelo, criou o Semavy Nutri, inicialmente com dois produtos: Nutri-Proteína e Nutri-Fibras.

Na Pierre Fabre, dona de Avène, Darrow e Ducray, o segmento capilar está entre os que mais crescem em dermocosméticos. Em entrevista ao NeoFeed, Danielle Bibas, CEO da companhia no país, aponta dois fatores que ganharam força ao mesmo tempo: a popularização dos medicamentos para emagrecimento e o avanço dos transplantes capilares.

Como resposta ao aumento da procura por produtos voltados ao couro cabeludo, afinamento, queda e fortalecimento capilar, a Truss relançou a linha Equilibrium Scalp, ampliando sua proposta de cuidado do couro cabeludo.

Não é para todo mundo

Se o “kit Mounjaro” faz sentido como estratégia comercial, do ponto de vista médico, seu conteúdo depende de cada paciente.

“Eu não usaria a ideia de uma cesta ou um combo de suplementos padrão para todos os pacientes”, diz Kiraz Karraz, médico pós-graduado em endocrinologia.

A dermatologista Marcela Andrade faz a mesma advertência sobre os cuidados capilares. Uma das possíveis causas da queda após o emagrecimento acelerado é o eflúvio telógeno, condição em que um estresse metabólico leva mais folículos a entrar precocemente na fase de repouso.

A queda costuma aparecer dois ou três meses depois do evento que a desencadeou e, na maior parte dos casos, é reversível.

“Na minha prática clínica, tenho percebido um aumento expressivo de pacientes que procuram o consultório com queixas de queda capilar durante o uso de medicamentos análogos de GLP-1”, conta. “Mas não existe indicação de utilizar vitaminas, colágeno ou produtos tópicos indiscriminadamente como prevenção.”

A segunda onda das canetas já chegou às prateleiras, mas quanto dessa oferta deve entrar na cesta de cada paciente é uma decisão que começa no consultório.



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