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Por que os EUA abriram a porta para a carne brasileira

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Nos sete primeiros meses do ano, o abate de bovinos nos Estados Unidos caiu para o menor volume desde 2002. Mas o dado que devemos olhar com mais atenção é a participação de fêmeas no abate. Esse indicador recuou pelo quarto ano seguido e está em 48,5%. Isso é o produtor segurando matriz, é reconstrução de plantel em pleno curso.

É bom para o consumidor norte-americano? É para quem pensa estrategicamente, considerando um prazo mais longo, em 2028, 2029. Mas para quem precisa de carne hoje, significa que essa escassez ainda tem mais alguns anos de permanência.

O rebanho americano, em 2025, confirma o menor patamar dos últimos 75 anos: 86,2 milhões de cabeças. E, com isso, os estoques de carne também bateram a mínima histórica.

O resultado chegou ao consumidor americano em forma de dor no bolso: carne moída a quase US$ 7 a libra-peso, praticamente empatada com o recorde de abril. No ano, o preço médio subiu 11%.

Foi tentando conter essa pressão que Washington reabriu, ainda que de forma limitada, a importação de gado vivo mexicano em agosto — suspensa desde maio de 2025 por causa da mosca-varejeira ou “bicheira do novo mundo”. Ajuda, mas não resolve. Rebanho não se reconstrói em um trimestre.

Nesse contexto de aperto real, o presidente Donald Trump assinou, em 26 de agosto, a proclamação que amplia em 300 mil toneladas o volume de aparas de carne bovina magra dentro da cota tarifária, entre setembro e novembro. O produto que pagaria 26,4% de tarifa passa a entrar, dentro desse volume extra, pagando os US$ 44 por tonelada da cota. Isso é uma diferença enorme de competitividade — para quem consegue ocupar o espaço.

E aqui está o detalhe que eu considero destaque, e que muita gente está lendo rápido demais: as 300 mil toneladas foram todas destinadas à linha “Other Countries”. Não mexeram nas cotas de Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai ou Japão. Não tocaram nos parceiros de livre comércio. Abriram espaço, especificamente, para o grupo em que o Brasil está — e no qual o Brasil é, disparado, o país com mais capacidade de resposta.

Não é a primeira vez que o Brasil esbarra nesse teto, aliás. Em janeiro, em apenas seis dias, o País já tinha esgotado, com os demais concorrentes da categoria, as 52 mil toneladas anuais da cota “Other Countries”. Desde então, estávamos pagando a tarifa cheia para continuar vendendo.

Ou seja: essa nova cota não cria um mercado que o Brasil desconhecia. Ela reduz, e muito, o custo de um mercado que já vínhamos ocupando com apetite crescente — 234 mil toneladas exportadas entre janeiro e julho, alta de 17% no ano, com a carne in natura crescendo quase 24%.

O que muda de verdade é o perfil do produto. Nos quatro códigos tarifários específicos contemplados até o anúncio, o Brasil só havia exportado 1,89 mil toneladas até julho — pouquíssimo perto do que Austrália (159,9 mil toneladas) ou Nova Zelândia (98,2 mil) mandaram para lá no mesmo período.

Nesse nicho específico das aparas magras, estávamos praticamente fora do jogo. Agora, com a barreira tarifária reduzida, isso pode — e eu acredito que vai — mudar rápido.

Além disso, o valor médio pago pelos EUA nas aparas brasileiras está entre os mais baixos da lista de fornecedores, o que ajuda a explicar por que a competição por esse espaço extra tende a ser disputada por preço, como o próprio governo americano fará questão de monitorar.

Com cerca de 50 plantas já habilitadas para exportar aos Estados Unidos, o Brasil tem estrutura de sobra para reagir com velocidade.

Pela nossa metodologia aqui na Agrifatto, projetamos que o País deva aproveitar essa janela para elevar em cerca de 114 mil TEC (toneladas em equivalente carcaça) as exportações entre setembro e novembro — um salto de 214% frente ao mesmo trimestre de 2025. No ano fechado, isso levaria as exportações brasileiras aos EUA a cerca de 578 mil TEC, crescimento de 44%.

São números grandes. E acho importante dizer com toda a transparência: o desempenho perante essa oportunidade depende de execução. Depende de frigorífico habilitado embarcando rápido, de exportador competindo por preço dentro da regra dos 25% abaixo do mercado que o governo americano vai monitorar, de logística funcionando. A cota é por ordem de chegada — quem sair na frente, come mais dela.

E quando a escassez acabar?

É importante notar que o eleitorado de Trump possui uma fatia importante composta pelos pecuaristas e, por esse motivo, quando a reconstrução do rebanho norte-americano voltar a ganhar pressão, o apetite pela nossa carne tenderá a reduzir.

Por enquanto, os Estados Unidos não estão desistindo de proteger sua pecuária. Estão administrando uma fortíssima escassez de carne enquanto reconstroem a própria oferta.

A prova está na Ranchers First Initiative, anunciada no mesmo pacote, e especialmente no programa BRAND — que oferece aos produtores americanos uma espécie de seguro para manter novilhas como matrizes por dois anos, tirando fêmeas do abate sem tanto risco financeiro para quem faz essa aposta.

De um lado, aliviam a demanda imediata com aumento de importações de carne para hambúrguer. De outro, fortalecem o movimento de retenção para que, em dois ou três anos, a oferta de carne comece a aliviar os estoques. É coerente — e é o que qualquer país racional faria.

É exatamente por isso que eu não trataria essa cota como uma vitória definitiva conquistada pelo Brasil — e sim como uma oportunidade concreta, com prazo de validade, que depende de nós para ser bem aproveitada.

Um ponto importante a se observar é que o Brasil também liquidou seu rebanho de fêmeas nos últimos anos. Nominalmente e de forma relativa, o abate de matrizes registrou suas máximas nos últimos anos, mas o último trimestre, cujos dados o IGBE acabou de divulgar, mostram uma primeira retração desde 2021.

Isso significa que o Brasil sentirá a fase de alta do ciclo pecuário nos próximos dois anos, enquanto os EUA começarão a reconstruir sua capacidade produtiva.

Que o Brasil vai continuar exportando enquanto o rebanho norte-americano não se recompõe está claro.

A pergunta que eu realmente acho que vale a pena fazer a essa altura é outra: onde e quando o preço dos Estados Unidos e do Brasil irão se cruzar? Enquanto a resposta continuar sendo “ainda não por certo tempo”, o Brasil segue com volume, preço e alto share exportado.

Lygia Pimentel é médica veterinária, economista e diretora da Agrifatto.



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