BELO HORIZONTE (MG)* — “Ainda estamos no finalzinho da noite longa das commodities, mas a claridade já está no horizonte.” Foi assim que André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult, resumiu o cenário atual de preços para os grãos e para o algodão durante congresso realizado pela Abrapa (Associação Brasileira de Produtores de Algodão), nesta quarta-feira.
A justificativa para os preços mais elevados, no caso da pluma, está profundamente ligada aos fundamentos. O Brasil caminha na contramão do mercado internacional, aumentando a oferta num ano em que os principais produtores devem reduzi-la.
Na safra 2026/27, pela segunda vez consecutiva, o Mato Grosso deve ultrapassar os Estados Unidos em volume, com uma produção de 2,99 milhões de toneladas, número 7% maior do que o dos EUA. A Bahia, ao mesmo tempo, está empatada com a Austrália, em cerca de 100 mil toneladas.
Somando os principais países produtores (China, Índia, Brasil, EUA, Paquistão e Austrália), a Agroconsult estima uma produção de 26 milhões de toneladas de pluma, um déficit de 600 mil toneladas em relação ao consumo.
É esse cenário, somado à alta do petróleo, que tem possibilitado uma inversão nos preços ao longo dos últimos meses. A expectativa do mercado, citou Pessôa, era conviver com algo na faixa dos 70 centavos por libra-peso. Hoje, os contratos negociam perto dos 85 centavos por libra-peso.
Essa alta de preços pode ter algum reflexo na demanda, especialmente em países como Bangladesh, admite o executivo, de olho nos problemas estruturais de falta de gás no país para abastecer residências e empresas (o que tende a afetar também a indústria têxtil local e, consequentemente, a demanda por algodão).
“O preço futuro está refletindo um prêmio de risco significativo em relação a todas essas incertezas, que vão desinflando esse prêmio conforme se dissipam. Na tendência, a gente acha que o mercado está precificando bem o que tem pela frente em termos de algodão”, afirmou Pessôa, a jornalistas.
Aumento de área
Nos patamares atuais, o preço do algodão foi suficiente para melhorar a relação de troca para o produtor brasileiro, mesmo com custos mais altos de produção. No algodão safrinha no médio norte do Mato Grosso, o custo é estimado em R$ 14,6 mil por hectare na safra 2026/27, ante R$ 14,3 mil em 2025/26.
“Em termos relativos, a gente está numa posição melhor do que estava na safra passada”, disse Pessôa.
Esse cenário mais benigno deve motivar aumentos de área, estima a Agroconsult. A consultoria espera que, na próxima safra, o crescimento fique na casa de 7%, levando a área de algodão para o patamar de duas safras atrás, de 2,2 milhões de hectares.
O crescimento deve vir principalmente do Mato Grosso (aumento de 8,5%), passando de 1,5 milhão de hectares de novo. Além disso, deve entrar também um crescimento na Bahia, em cima dos 400 mil hectares do estado.
“Tem uma questão muito importante ainda presente, que é o crédito. A disponibilidade de recursos para fazer ampliação é muito importante. Mas, certamente, a gente vai ter crescimento de área novamente no Brasil este ano no algodão”, disse Pessôa.
*A jornalista viajou a convite da Bayer.





