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Paraguai, Chile, Uruguai e Peru têm, mas o Brasil não. Por que o grau de investimento saiu da agenda?

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O Brasil carrega uma dívida bruta equivalente a 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB), acumula uma conta de juros de 8,48% do PIB em 12 meses e chegou a oferecer nos títulos públicos uma remuneração de IPCA mais 7% ou 8%. Ainda assim, recuperar o grau de investimento praticamente desapareceu da agenda econômica do País.

Enquanto o Brasil convive há mais de uma década com o grau especulativo, Chile, Uruguai, México e Peru têm o selo de bons pagadores nas três grandes agências de classificação de risco.

O Paraguai, que também estava fora desse grupo, avançou na direção oposta à brasileira e conquistou o grau de investimento da Moody’s em 2024 e da S&P no fim de 2025. Na Fitch, está a apenas um degrau do selo, com perspectiva positiva.

O NeoFeed ouviu economistas e especialistas para entender se o Brasil desistiu de perseguir o grau de investimento e quanto o País paga por deixar esse objetivo fora das prioridades.

“O Brasil pode, perfeitamente, em três ou quatro anos, ser grau de investimento, se quiser. Não é uma agenda completamente difícil”, afirmou Alexandre Bettamio, co-head de investimento global do Bank of America, durante evento recente da Endeavor.

“Enquanto nós não formos vistos como uma moeda forte, que começa com um selo de qualidade, não tem como ter, no longo prazo, a capacidade de atrair capital”, complementou.

Hoje, o Brasil está um degrau abaixo do selo na Moody’s e dois na S&P Global e na Fitch. Todas mantêm perspectiva estável, o que significa que não há sinal de uma promoção próxima. Mais do que um objetivo distante, o grau de investimento deixou de funcionar como uma meta capaz de organizar as decisões fiscais do País.

“A nossa maior preocupação é a dívida não ser equilibrada e nós cairmos de nota, e não subirmos”, diz Caio Megale, economista-chefe da XP, ao NeoFeed. “As agências de rating vêm para cá para ver se é o caso de rebaixar, não de subir a classificação, por causa da dívida e dos juros altos.”

A comparação com 2008 mostra o tamanho da mudança. Naquele ano, quando o Brasil recebeu pela primeira vez o grau de investimento, o setor público produziu superávit primário de 3,7% do PIB, a dívida líquida encerrou o período em 36% e a economia cresceu 5,1%.

Mesmo com juros tradicionalmente elevados, havia uma combinação de crescimento forte, resultado fiscal positivo e dívida em queda.

Em maio de 2026, o setor público acumulava déficit primário de 1,14% do PIB em 12 meses, a dívida líquida havia alcançado 67,9%. O déficit nominal, que reúne o resultado primário e os juros, chegava a 9,62% do PIB.

Pela metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI), que é mais abrangente que a do Banco Central, a dívida bruta brasileira deve subir de 93,3% do PIB em 2025 para 96,5% em 2026 e 105,5% em 2030.

Nos países latino-americanos, a direção é oposta. O FMI projeta para 2030 dívida de 32,1% do PIB no Peru; 36,9% no Paraguai; 48,1% no Chile; 63,4% no México; e 67,6% no Uruguai. Com exceção do Chile, que parte de uma base muito menor, são trajetórias próximas da estabilidade ou de queda.

O Uruguai ajuda a mostrar que não existe um número mágico para a relação entre dívida e PIB. Sua dívida projetada para 2026, de 66,8% do PIB, não é baixa para uma economia emergente.

No outro extremo está o Paraguai. Para 2026, o FMI projeta dívida de 37,8% do PIB, déficit fiscal de 1,3% e crescimento econômico de 4,2%. Ao reafirmar o rating paraguaio em julho deste ano, a Moody’s destacou o crescimento robusto, a dívida relativamente baixa e a continuidade do marco de responsabilidade fiscal.

Mas Megale diz que o rating soberano não mede o tamanho, a diversificação ou a qualidade geral de uma economia. Ele avalia, sobretudo, a capacidade e a disposição de um governo para pagar sua dívida integralmente e no prazo.

“A economia brasileira é muito mais forte, sólida, diversificada e relevante que a do Paraguai. Mas, neste requisito, que é a capacidade de honrar os pagamentos da dívida ao longo do tempo, o Paraguai está na nossa frente”, afirma o economista-chefe da XP.

Conta do grau especulativo

A diferença aparece primeiro no custo de financiamento do governo. Quanto maior a percepção de risco, maior o prêmio exigido pelos investidores para comprar os títulos do País.

Como a taxa soberana funciona como referência para o restante da economia, o custo se espalha pelas captações de bancos e empresas e, em seguida, pelo crédito destinado a investimentos, capital de giro, imóveis e consumo.

Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime, chama a atenção para uma divergência observada no mercado brasileiro. A bolsa avançou e o real se valorizou em determinados momentos, mas os juros médios e longos permaneceram elevados, com títulos públicos chegando a pagar IPCA mais 7% ou 8%.

“O custo do não ajuste fiscal acaba recaindo sobre os juros. Os países parecidos com o Brasil que têm grau de investimento e estabilidade fiscal maior conseguem se financiar a taxas menores. Isso se traduz em financiamento mais barato para todo mundo”, diz Kawauti.

Há também uma barreira direta aos fluxos financeiros. Fundos de pensão, seguradoras e outros investidores institucionais possuem mandatos ou restrições regulatórias que permitem aplicações somente em países com grau de investimento.

O Brasil continua acessível a hedge funds, fundos especializados em emergentes e investidores sem essa limitação, mas fica fora do alcance de uma parcela potencialmente mais estável do capital internacional.

“Existe a liga dos países que têm grau de investimento e a liga dos que não têm. Tem uma grande quantidade de dinheiro que não acessamos porque não estamos nessa liga”, afirma Michel Frankfurt, head da corretora do Scotiabank Brasil.

Devido a essas mecânicas, explica, uma eventual reconquista do selo geraria a entrada automática de fundos estrangeiros. “É uma avalanche de dinheiro que naturalmente teria que vir para o país”, diz Frankfurt.

O efeito é conhecido e já foi testado no Brasil. Os grandes provedores de índices de renda fixa classificam os papéis pela média das notas das três principais agências. Na prática, isso exige que duas delas rebaixem o país para que seus títulos sejam excluídos de um índice de grau de investimento.

Foi o que aconteceu em setembro de 2015. Dois dias após a S&P se tornar a primeira agência a rebaixar a nota, o BBVA Research chegou a prever em relatório que a próxima queda de rating poderia reduzir a participação de estrangeiros na dívida nacional.

Na época, os estrangeiros correspondiam a cerca de 20%, e os analistas projetavam uma queda para próximo a 16% ou 17% – tendo como referência o que ocorreu quando a Rússia perdeu o grau de investimento. A participação dos estrangeiros na dívida nacional, no entanto, não parou nos 16% ou 17% projetados e está, hoje, ao redor de 10%, segundo o Tesouro Nacional.

Na bolsa, o efeito do selo chega por outras vias, como o menor custo de captação das empresas e a maior perspectiva de crescimento. Frederico Sampaio, vice-presidente sênior e CIO de ações da Franklin Templeton, avalia que, na renda variável, o fluxo não espera o carimbo da agência: quando o filme é bom, o dinheiro chega antes.

“Os mercados antecipam. O fluxo viria até mesmo antes de esse selo chegar. Quando o Brasil atingiu o grau de investimento, em 2008, o dinheiro já estava entrando”, diz Sampaio.

O histórico do Brasil no MSCI Emerging Markets, principal índice de ações de países emergentes, ilustra essa relação indireta. Em dezembro de 2015, três meses depois do corte da S&P, o Brasil, que chegou a ocupar 16,2%, em 2010, havia recuado para cerca de 5%.

Mas o movimento não acompanhou o calendário das agências. Em 2016, já sem o grau de investimento em nenhuma das três, o peso do país voltou a subir e chegou perto de 8% no ano seguinte, embalado pelo rali da bolsa brasileira. Hoje, o Brasil responde por 3,94% do índice.

Não foi só o Brasil que perdeu relevância, e sim toda a América Latina. O bloco das Américas, que inclui também México, Chile, Peru e Colômbia, respondia por 23,9% do MSCI Emerging Markets em 2009 e caiu para 7,3% em dezembro de 2025. No mesmo período, a Ásia-Pacífico saltou de 55,7% para 80,6%.

“A Ásia cresce mais, tem empresas com uma economia mais vibrante. No fim das contas, o nosso mercado não é tão ativo”, afirma o CIO de ações da Franklin Templeton.

Quantificar isoladamente a conta da ausência do grau de investimento é uma tarefa difícil. Ratings, juros e fluxo de capital respondem aos mesmos fundamentos econômicos, e o mercado costuma antecipar a melhora ou a piora antes de as agências alterarem formalmente a nota.

Um estudo do FMI com 35 economias emergentes entre 1997 e 2010 estimou que a passagem para o grau de investimento reduziu os spreads soberanos em 36%, além do que seria explicado pelos fundamentos macroeconômicos.

O número funciona como referência sobre a importância de atravessar essa fronteira, mas não pode ser aplicado mecanicamente ao Brasil de 2026.

O Banco Central fornece outra medida da sensibilidade da dívida aos juros. Pelos dados de maio, uma redução de um ponto percentual na Selic mantida por 12 meses diminuiria a dívida bruta em R$ 59,3 bilhões, ou 0,45 ponto percentual do PIB.

O cálculo não representa quanto o Brasil economizaria ao recuperar o grau de investimento, mas dá a dimensão de como juros elevados alimentam a própria dívida – é o chamado custo silencioso que aparece no crescimento.

“A diferença entre um PIB potencial de 2% e de 1,7% ou 1,5% significa pouco no curto prazo. Mas, se continuar, vai se acumulando ao longo do tempo e fica mais perceptível para os analistas e para os mercados”, diz Benjamin Mandel, sócio e chefe de pesquisa da Jubarte Capital e ex-economista do Federal Reserve dos Estados Unidos.

Na visão dele, não há mistério na permanência do Brasil abaixo do grau de investimento. O País recebeu o selo em 2008 e o perdeu durante a crise fiscal de 2014 e 2015. Desde então, não conseguiu demonstrar que deixou definitivamente aquela zona de risco.

“Surgiu de novo esse ambiente de taxa de juros alta, com um pé no acelerador e outro no freio entre política fiscal e política monetária. Os analistas continuam preocupados com a sustentabilidade da dívida e dominância fiscal”, afirma Mandel.

Preço da volta

O Brasil não desistiu do grau de investimento. O selo ainda aparece como uma ambição entre economistas, empresários e integrantes de diferentes grupos políticos.

O que desapareceu foi uma estratégia, com metas intermediárias e medidas suficientes para tornar sua recuperação provável.

A dificuldade está no descasamento entre o custo e o benefício. O ajuste fiscal produz efeitos imediatos, inclusive sobre o crescimento, enquanto a queda do risco, dos juros e do custo de capital aparece gradualmente. O governo que paga a conta política pode não ser o mesmo que colherá o resultado.

“Existe um custo de curto prazo que depois se paga lá na frente. Quando se faz o enxugamento fiscal, há um crescimento menor no prazo mais curto. Depois, vêm inflação menor, expectativas mais ancoradas, estabilidade institucional e ganhos mais perenes”, diz Kawauti, da Lifetime.

Pelos cálculos da economista, o Brasil precisaria sair do déficit e produzir superávits primários recorrentes entre 1,5% e 2% do PIB para estabilizar a dívida nas condições atuais. A mudança dificilmente viria de novas elevações de receita, dependentes do ciclo econômico e cada vez mais limitadas pela carga tributária.

O caminho passaria por reformas capazes de alterar não apenas quanto o governo gasta, mas como gasta. Mais de 90% das despesas federais são obrigatórias, muitas delas indexadas ou corrigidas automaticamente.

Sem enfrentar essa rigidez e sem uma regra fiscal com poucas exceções, uma melhora pontual do resultado primário não seria suficiente para recuperar a credibilidade.

O selo provavelmente viria apenas no fim do processo. Antes da promoção formal, uma política fiscal crível já poderia reduzir prêmios de risco, valorizar ativos e baratear o financiamento. Da mesma forma, conquistar a nota sem preservar os fundamentos não garantiria seus benefícios por muito tempo.

Para Mandel, da Jubarte Capital, o fato de Paraguai, Chile e Uruguai terem alcançado ou preservado o grau de investimento mostra que a barreira também pode ser superada pelo Brasil. “Impossível não é”, diz. “É uma questão de entrar em uma trajetória fiscal estruturalmente melhor.”

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