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Queda de preços estimula o consumo de café, diz Abic

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A queda vertiginosa no preço cobrado pelo café no varejo refletiu em um aumento no consumo da bebida no Brasil, segundo a Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café).

Se o ritmo for mantido, o setor pode voltar a ter um ano de alta no consumo, após a queda de 2,2% registrada em 2025. Mas os potenciais efeitos do El Niño sobre a disponibilidade de café para a indústria nacional preocupam.

Os dados e as impressões foram compartilhados pela Abic nesta terça-feira. Segundo a entidade, no segundo quadrimestre do ano, ou seja, entre maio e agosto, o consumo de café no Brasil cresceu 4,65% na comparação com o mesmo período de 2025.

Todos os meses tiveram crescimento, com destaque para julho, quando o consumo aumentou 13,94% na base anual.

No primeiro quadrimestre, o resultado já havia sido positivo em 2,44% ano a ano. Agora, considerando o ritmo do acumulado dos primeiros oito meses de 2026, o presidente da Abic, Pavel Cardoso, prevê uma alta no cômputo geral de 2026 de cerca de 2,5% — a projeção é pessoal, e não uma estimativa formal da entidade.

Isso significaria adicionar cerca de 500 mil sacas ao saldo de 2025, totalizando 21,9 milhões de sacas consumidas no mercado interno neste ano.

“Mas isso é expectativa, tudo depende do El Niño, da manutenção da lateralidade de preços pela indústria e do varejo continuar ofertando o café ‘promocionado’ ou a preços convidativos para o consumidor.”

A deflação do café

Segundo Celírio Inácio, diretor-executivo da Abic, a principal razão do aumento do consumo neste ano tem sido a diminuição do preço cobrado pelo café no varejo.

Segundo o IBGE, a inflação acumulada do café nos últimos 12 meses até agosto foi negativa em 17,2%. No detalhe, a diminuição se espalhou por todas as categorias, segundo a Abic, tendo sido maior no tradicional/extraforte (-21,22%) e menor nas cápsulas (-1,39%). O café especial teve queda de 10,34%, e o solúvel, de 19,31%.

Essas reduções, ainda no raciocínio de Inácio, estão ligadas à queda no preço pago pela indústria — por sua vez conectado à cotação internacional da commodity.

“Uma pesquisa que fizemos em âmbito nacional demonstrou a relação direta entre o preço ofertado na matéria-prima para as indústrias e o oferecido aos supermercados, o que possibilitou promoções e aqueceu o segmento.”

Dados do Cepea/Esalq confirmam a percepção. Comparando o último fechamento de agosto em 2025 e em 2026, o preço do arábica no mercado interno, referência para as indústrias, caiu 32,8%, enquanto no robusta a diminuição foi ainda maior, de 50%.

Segundo Cardoso, a volatilidade que marcou os últimos anos do mercado reduziu a cobertura de estoque das empresas, algo que tende a elevar o preço em alguns momentos, mas, por outro lado, permite ajustes mais rápidos em fases de queda, como a atual.

“Há cinco ou seis anos, as empresas mantinham de 8 a 12 semanas de estoque. Com a volatilidade a partir da geada de 2021, a briga interna nas indústrias entre a área de supply (suprimentos) e o CFO se tornou realidade, porque dinheiro parado em estoque é custo. Por isso, as coberturas foram reduzidas, evitando erros no preço de compra.”

Segundo ele, não é possível saber exatamente o saldo atual, porque “a estratégia de compra e recomposição de estoque é propriedade de cada companhia”, mas há indicativos de que a margem tenha sido diminuída para algo entre 4 e 7 semanas.

El Niño preocupa, cold brew empolga

Na contabilidade do consumo brasileiro de café, existe uma variável impactante: os potenciais efeitos do El Niño sobre a disponibilidade — e, portanto, o preço pago pela indústria.

Em particular, o que preocupa, de acordo com Cardoso, é a possibilidade de temperaturas altas e estiagem causarem danos em fases estruturais da próxima safra.

“A indústria olha isso com atenção, pois tende a ser ruim para a planta. Principalmente em novembro e dezembro, quando tem pegamento do chumbinho, e em janeiro e fevereiro, quando vêm a pegação e o enchimento que dão tamanho à safra”, disse Cardoso.

Por outro lado, um fator de empolgação para a indústria é a ascensão de novos produtos à base de café e de novas formas geladas de consumir a bebida — na maior parte dos casos, inovações nascidas nos Estados Unidos e em crescimento em outros mercados, como Europa, Japão e China.

Tanto em formulações mistas, o chamado ready to drink, quanto no cold brew, um preparo com água fria, passando pelas inserções do café em produtos como barras de proteínas.

“Aqui, um país tropical, de temperaturas elevadas, veremos muito em breve nossas prateleiras enchendo com esses cafés gelados, em contraposição com o consumo um pouco menor da bebida quente no verão. Isso já é parte do comportamento do consumidor fora do lar, e trazer isso para dentro de casa vai tracionar o volume.”

Mais robusta no blend em 2027

A Abic prevê ainda que o blend — a média da mistura nacional entre arábica e canéfora (das variedades robusta e conilon) no café ofertado no varejo — migre ainda mais em direção ao robusta em 2027, aprofundando tendência observada nos últimos anos, ao encontro da fisiologia do cafezal.

“Tivemos uma safra muito positiva no arábica e um pouco abaixo do esperado no conilon. Em 2027, pela bienalidade da planta, teremos safra menor de arábica, mas o conilon seguirá vigorosamente. Inclusive, alguns operadores veem o Brasil com área plantada suficiente para superar o volume do Vietnã até 2030, e estimam que isso já esteja precificado. Naturalmente haverá pressão de preço menor para o conilon”, conclui Cardoso.



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