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Café especial é só arábica? Pense outra vez, responde o robusta

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Café especial é apenas o arábica. Certo?

Errado, a depender da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, da sigla em inglês).

A entidade caminha para reconhecer os pioneiros cafés especiais da espécie canéfora, que inclui as variedades robusta e conilon. A ideia é premiar uma seleção de canéforas no Brasil para, depois, submetê-los a avaliação no exterior.

Se bem-sucedida, a iniciativa vai confrontar uma presunção que perdura há décadas. Desde a popularização dos cafés premium, a partir dos anos 1990, da qual são sinais as cápsulas de expresso, a ideia de especial esteve sempre associada ao arábica.

Essa é a espécie da qual o Brasil é o maior produtor e exportador global, com lavoura concentrada em regiões como Sul, Triângulo e Cerrado mineiros e interior paulista. O arábica responde pela maior parte da produção, com cerca de 63% na safra 2025/26.

Nas exportações, a concentração foi ainda maior, de 76%, diz o Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil). É sinal do apelo junto a grandes consumidores, dos tradicionais Estados Unidos, Japão e Alemanha até novos mercados, como China e países na Ásia e Oriente Médio.

Exportar café especial gera mais receita. Em 2025, de acordo com o Cecafé, o prêmio foi de US$ 76 por saca, em média, 21% acima do preço médio dos convencionais.

Daí a disparada na produção no País. De 120 mil sacas, em 1999, chegou a 9,5 milhões de sacas em 2025, segundo a BSCA. Do total, cerca de 8,5 milhões foram para exportação, e 1 milhão ficou no mercado interno.

Reabilitação do canéfora

Nos últimos anos, dois movimentos vêm alterando o cenário de preponderância do arábica nos especiais brasileiros, diz Vinicius Estrela, diretor executivo da BSCA.

De um lado, produtores de canéfora concentrados em novas fronteiras, como Espírito Santo, Rondônia e Bahia, passaram a qualificar sua produção. Desde a lavoura, com práticas como a introdução de fertilizantes especiais e máquinas, até o beneficiamento.

Nessa etapa, práticas que afetavam a qualidade final do produto, como secagem inadequada e armazenamento com umidade, vêm sendo trocadas por manejos mais adequados. Como o movimento se repete, em maior ou menor intensidade, em outros produtores de canéfora, como o Vietnã, a qualificação ganhou dimensão global.

Em paralelo, o preço do canéfora melhorou nos últimos anos, com diminuição do diferencial frente ao arábica, que costumava ser de duas a quatro vezes mais caro. Mais que isso: entre agosto e setembro de 2024, em evento raríssimo, o preço do canéfora no mercado interno superou o do arábica.

A ordem logo se restituiu, mas a diferença nunca mais foi a mesma. E isso acelerou a revisão de práticas e estimulou aumentos de área. Somados à crescente curiosidade do público, esses fatores colaboram para a mudança de status.

“A BSCA nasceu com o olhar do arábica, mas desde 2015 assumimos que era possível atingir o padrão especial também no canéfora”, diz Estrela.

Segundo ele, o caminho para elevar os canéforas a especiais — o que vai elevar a demanda por parte das cafeterias, por exemplo — começa em um processo interno.

A entidade criou o concurso The Best of Canephora Brazil 2026 para selecionar as 25 melhores amostras no País na safra 2026/27. As finalistas foram divulgadas neste mês. Na próxima etapa, em novembro, serão reavaliadas por juízes internacionais; os vencedores serão os primeiros lotes a marcarem 83 pontos ou mais.

Depois, as escolhidas serão “ofertadas em leilão internacional”, em uma tentativa de disseminar os canéforas novatos.

Em defesa do especial

No mundo, a ideia de café especial surgiu nos anos 1970. Em 1982, foi criada a Specialty Coffee Association of America (SCAA; associação do café especial dos EUA, em inglês). Junto dela, nasceu o sistema de avaliação, com score de zero a cem. O objetivo era qualificar o café verde, pré-industrial.

Em 2017, a entidade se juntou com sua equivalente europeia para formar a Specialty Coffee Association (SCA).

Hoje, especial é o café com mais de 80 pontos. A avaliação segue critérios como aroma, sabor, acidez, travo (o sabor residual adstringente e desagradável) e equilíbrio.

A sustentabilidade do cultivo também entra na conta, explica Estrela: “O café especial vem fortalecendo a pauta de rastreabilidade e práticas sustentáveis e regenerativas”.

Abaixo de 75 pontos, o café é chamado “comercial”. Entre 75 e 79,99, é “gourmet”, mas ainda não especial. De 80 a 84,99, é muito bom — também chamado “especial de entrada”. Entre 85 e 89,99 pontos, o café é excelente. E, entre 90 e 100, é excepcional — feito a partir de grãos com notas exóticas e complexidade floral ou frutífera.

A definição está em constante revisão, diz Estrela. A última delas, em 2021, ampliou o conceito-base para incluir também experiências baseadas em café especial.

No Brasil, a BSCA nasceu em 1991 reunindo 12 produtores. Hoje, a entidade tem 560 associados, incluindo empresas de maquinário, cooperativas e tradings.

O movimento ganhou força nos anos 2000, quando surgiram as primeiras cafeterias artesanais e microtorrefações em capitais, como São Paulo e Curitiba. Em 2006, a Nespresso, que havia sido lançada 20 anos antes na Europa e no Japão, chegou ao País, ajudando a impulsionar o conceito de extração a partir de cápsulas.

Foi quando o paladar do brasileiro passou a ficar mais sofisticado, diz Estrela. “Se beber só para ficar bêbado, qualquer coisa serve. Para degustar, aí há preferências. E isso vale para o café especial.”

Segundo ele, a diversidade contempla distintos momentos de consumo. “Eu tomo um mais adocicado de manhã e um mais frutado à tarde. E essa variedade permite que cafeterias dividam bairros, às vezes até quarteirões, pois são cafés diferentes.”



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