A vida não está fácil nem para quem engarrafa Coca-Cola. Nesta semana, a Moody’s tirou o grau de investimento de uma série de títulos do Grupo José Alves, conglomerado goiano que fabrica e distribui os produtos da famosa marca de refrigerante nos estados de Goiás e Tocantins.
No mercado secundário, os CRAs da engarrafadora chegaram a negociar a IPCA+20% ao ano, em um sinal da aversão dos investidores com o papel. Originalmente, esse CRA foi emitido a IPCA+4,92%. Outro papel do grupo chegou a negociar a CDI+60%, tendo sido emitido a CDI+2,25% ao ano.
Dados de negociação dos papéis mostram que esses têm sido os preços para os quais vendedores têm tentado vender os CRAs — mas, mesmo nesse desconto, não têm aparecido compradores para fechar negócio.
Embora esteja razoavelmente distante da cadeia do agronegócio, o Grupo José Alves conseguiu fez três emissões de CRAs entre 2021 e 2024, quando as regras para enquadramento de lastro eram mais permissivas.
Posteriormente, o CMN (Conselho Monetário Nacional) fechou a porteira. Para se enquadrar nas emissões de CRAs vigentes até então, a engarrafadora goiana usava os recursos para honrar os contratos de compra do açúcar usado na fabricação de Coca-Cola.
Os títulos do Grupo José Alves fazem parte carteira de pelo menos um Fiagro. O VCRA11, gerido pela Vectis, possui R$ 2,5 milhões nos papéis da engarrafadora da Coca-Cola, o equivalente a 0,54% do patrimônio líquido do fundo.
Na decisão desta semana, a Moody’s tirou o grau de investimento de cinco emissões de debêntures, além de outras quatro notas comerciais emitidas por uma companhia do grupo, rebaixando a nota de crédito de BBB+ para BB-. Esses papéis faziam parte do lastro de três CRAs emitidos pela firma goiana.
Ao todo, o Grupo José Alves levantou mais de R$ 1,2 bilhão com a emissão de CRAs, que vencem entre 2029 e 2036.
As razões da derrocada
A dívida de mercado de capitais compõe grande parte dos empréstimos e financiamentos do grupo. Em dezembro de 2025, a companhia tinha uma dívida bruta ajustada de R$ 2,9 bilhões, segundo a Moody’s. Desse total, 86,9% era formado por CRAs e debêntures, seguidos por empréstimos e financiamentos (9,9%) e arrendamentos (0,5%).
Em dezembro, a alavancagem bruta ajustada (dívida bruta/Ebitda) da empresa alcançou 7,1 vezes, bem acima das 5,4 vezes em 2024. Neste ano, a deterioração do endividamento do grupo Grupo José Alves continua. Com base em dados gerenciais não auditados, a Moody’s aponta que, nos doze meses encerrados em junho de 2026, o indicador foi de 8,3 vezes, respectivamente.
Além disso, a cobertura de juros ficou mais estreita. Esse indicador (Ebit/despesa financeira) era de 1 vez em 2024, passou para 0,8 vez em 2025 e, nos doze meses encerrados em julho, está em 0,6 vez.
Segundo a Moody’s, a deterioração é o resultado de um ciclo rápido de expansão, calcado principalmente em dívida, que não trouxe o retorno esperado — e que se soma, ainda, a uma alta concentração de vencimentos em curto prazo.
“A concentração de vencimentos de dívida em 2027 e 2028 é de aproximadamente R$ 670 milhões a R$ 870 milhões anuais, frente a uma posição de caixa de R$ 720 milhões em junho de 2026 (dados gerenciais não auditados”, destacam os analistas.
Nesses vencimentos, está incluída uma série de amortizações de um dos CRAs emitidos pela empresa. Uma operação de R$ 300 milhões, feita em 2023, terá uma amortização de 33% do valor em junho de 2027, mais 33% em dezembro, além de outras duas amortizações em 2028.
Entre os investimentos feitos pelo Grupo José Alves, os analistas da agência de classificação de risco citam os R$ 100 milhões destinados às fábricas de refrigerantes, outros R$ 27 milhões para higiene e limpeza, R$ 7 milhões para o segmento farmacêutico, além de outros R$ 68 milhões alocados entre as demais empresas do grupo.
Isso fez com que houvesse uma piora na perspectiva de geração de caixa do grupo. Nos próximos 12 a 18 meses, as projeções atualizadas da Moody’s passaram a incorporar uma queima de caixa de R$ 250 milhões a R$ 280 milhões, um piora em relação às estimativas anteriores, que ficavam entre R$ 130 milhões e R$ 150 milhões.
Embora o negócio de refrigerantes gere caixa – cerca de R$ 450 milhões no ano passado –, ele parece insuficiente. “Entendemos que tal desempenho não tem sido suficiente para sustentar o Grupo diante do atual nível de endividamento consolidado”, escreveram os analistas Samy Kirszenworcel, Patricia Maniero e Leonardo Albuquerque, que assinam o relatório da Moody’s.
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Procurado, o Grupo José Alves não se pronunciou até à publicação desta matéria.





