O ciclo pecuário está, oficialmente, virando. Essa é a conclusão do Bradesco BBI com base no relatório de abates do IBGE referente ao segundo trimestre de 2026, divulgado nesta terça-feira.
O volume de abate de bovinos no País cresceu 1% em relação ao segundo trimestre de 2025, um novo recorde para o período, atingindo 10,72 milhões de cabeças. Já o peso total das carcaças aumentou 3%, atingindo outra máxima histórica.
Mas o dado que o mercado mais aguardava é o de abate de fêmeas, que caiu 1,88% na base anual. Como proporção dos abates totais, o indicador recuou para 49% no trimestre.
“Isso levou a média móvel de 12 meses para 46,9% — nível ainda elevado, mas 10 pontos-base abaixo do registrado no primeiro trimestre de 2026”, escreveram os analistas Henrique Brustolin e Giovanni D’Ottaviano, do Bradesco BBI, em relatório nesta terça-feira.
Apesar de ainda estar bem acima da média histórica dos últimos 15 anos, de 42,5%, trata-se de uma reversão de cenário: é a primeira vez desde 2021 em que houve redução no abate de fêmeas no segundo trimestre, lembra Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto.
“É um forte indicador de que começamos a reverter a disponibilidade de carne”, disse Pimentel ao The AgriBiz.
“O abate de fêmeas vinha aumentando sua participação no total desde o final de 2021, e o segundo trimestre marcou o primeiro dado claro sugerindo que essa tendência está começando a se inverter”, complementou o Bradesco BBI.
O banco cita um sinal adicional da reversão do ciclo: a retenção de fêmeas se impôs à corrida para exportar carne bovina para a China e atender às cotas de importação. “Com essa fase de maior demanda imediata superada, esperamos que a retenção se intensifique daqui para a frente.”
Ainda segundo os analistas, a relação entre os preços do bezerro e do boi gordo está subindo 10% no ano, ao nível mais alto desde 2021. E esse é um vetor favorável à maior retenção de matrizes para reprodução, “reforçando o ciclo daqui em diante”.
Pimentel, da Agrifatto, ressalva que o dado deve ser analisado “em conjunto com a duração da liquidação e a alta participação de fêmeas no abate, pois não é isolado”. Segundo ela, o indicador de abates de fêmeas precisa permanecer se comportando em queda nos próximos meses para concretizar a reversão do ciclo pecuário.
Boi mais caro
No relatório, o Bradesco BBI antevê um período difícil para os frigoríficos.
Segundo o banco, os preços do gado “já refletem uma oferta mais restrita para o segundo semestre”, com o boi gordo subindo 9% no ano e 13% em 12 meses, “provavelmente já refletindo certa redução na disponibilidade de animais”.
Os analistas pontuam ainda que, como os preços do gado brasileiro permanecem abaixo dos praticados em outros grandes países produtores, “há amplo espaço para valorização à medida que a oferta se restringe”.
Como consequência, os resultados financeiros dos frigoríficos devem ficar mais pressionados. A menor oferta de gado implica preços mais elevados da arroba, exigindo mais capital de giro e potencialmente reduzindo as margens.
E isso se reflete em menor atratividade das ações das empresas do setor — o banco diz preferir a JBS, cujo segmento de carne bovina no Brasil representa cerca de 15% da receita, com recomendação neutra para MBRF (na qual a carne bovina no Brasil representa 12% da receita) e Minerva (com 56% da receita atrelada ao País).
Por outro lado, o Bradesco BBI ressalva que o peso médio de abate aumentou cerca de 1,6% na base anual, o que credita a “melhorias contínuas na alimentação do gado — incluindo o uso de DDG — que podem compensar parcialmente a menor disponibilidade de animais”.





