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De bebida rústica do campo a símbolo de sofisticação, a grappa ganhou outro lugar no mundo pelas mãos de Giannola e Benito Nonino. Em 1973, o casal italiano criou a Monovitigno Picolit, feita com bagaço de uma única variedade de uva. Depois, vieram a apresentação em cristal e a conquista de admiradores como Gianni Agnelli, da Fiat.
Giannola também aproximou a marca da intelectualidade. Em 1984, criou a seção internacional do Prêmio Nonino, cujo primeiro vencedor foi Jorge Amado. O escritor baiano se tornou amigo da família e frequentou a casa onde a matriarca, prestes a completar 88 anos, recebeu o NeoFeed.
Fundada em 1897, a destilaria é hoje administrada por Giannola e suas três filhas. A sexta geração já participa do negócio, representada por Francesca, conhecida nas redes como a “influenciadora da grappa”.
Com faturamento de cerca de € 17,5 milhões e exportações para 86 países, a Nonino agora mira o Brasil. Seus produtos chegarão ao país pela Aurora Fine Brands, segundo a família.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Percoto — Bastam apenas alguns momentos para perceber que Giannola, a matriarca da família Nonino, proprietária de uma das destilarias de grappa mais emblemáticas da Itália, tem muito fôlego. Recentemente, em uma tarde quentíssima em Percoto, na região de Friuli-Venezia Giulia, no nordeste do país, ela recebeu a reportagem do NeoFeed para um almoço em sua casa.
Móveis vintage com peças de design, mesa posta com louça colorida, recordações de viagens, jardins e muita comida: prosciutto D’Osvaldo, da cidade de Cormons, considerado o “Stradivarius dos presuntos”, spaghetti con pomodori, vitello tonnato, caponata e sorvete de… grappa.
Atenta a tudo ao seu redor, em apenas cinco minutos, a italiana que completa 88 anos agora em setembro chamou a atenção para a troca da água de um vaso de flores, pediu para colocar mais tomate na “pasta”, quis saber como estava o negócio da bebida ready to drink que a marca vai lançar e lembrou, efusivamente, do escritor Jorge Amado: “Nosso grande amigo, ele sentou aqui nessa mesa muitas vezes. Venha ver as fotos. Adoramos o Brasil!”.
Em 1984, a empresária foi visionária ao criar uma narrativa que transcende o comércio do destilado. Ela imaginou a marca como ponto de encontro de artistas e intelectuais, criando a Seção Internacional do Prêmio Nonino, cujo primeiro eleito foi o autor baiano.
Ele não gostava de andar de avião, mas isso não impediu o convite. Giannola ligou diretamente para o Brasil, falando sua língua materna misturada com português e espanhol. “Alô? La siora Amado? La mojér del sior Jorge Amado?” A resposta veio com a surpresa: “Son meza veneta anca mi”. Era Zélia Gattai, escritora e fotógrafa, filha de pai fiorentino e mãe vêneta.
A identificação entre as duas foi imediata. Zélia conseguiu convencer o marido a viajar para receber a láurea e levou os filhos Paloma e João.
Seis vencedores do Prêmio Nonino seriam agraciados depois com o Nobel — Rigoberta Menchú (Paz, 1992), V. S. Naipaul (Literatura, 2001), Tomas Tranströmer (Literatura, 2011), Mo Yan (Literatura, 2012), Peter Higgs (Física, 2013) e Giorgio Parisi (Física, 2021). Jorge Amado não levou, mas foi indicado.
Ao aproximar a Nonino de grandes nomes da intelectualidade global, Giannola não buscava apenas promover a marca, mas mudar o lugar que a grappa da família ocupava. E conseguiu.
Feita tradicionalmente com resíduos da produção de vinho, sobretudo cascas e sementes de uva, a bebida rústica associada ao campo ganhou sofisticação e reconhecimento internacional. Hoje, a Nonino exporta para 86 países e se prepara para chegar à terra do amigo Jorge Amado.
“Os produtos chegarão em breve ao país por meio da Aurora Fine Brands, que está cuidando de toda a parte burocrática”, revelou Antonella Nonino ao NeoFeed. A estreia ocorre em um momento de aproximação comercial entre Mercosul e União Europeia.
A história da empresa remonta a 1897, quando Orazio Nonino começou a vender a bebida em um alambique itinerante sobre rodas. Em 1928, Antonio, neto do fundador, transferiu a operação para Percoto. Casado com Silvia Milocco, ele morreu em 1940. A viúva então assumiu o negócio e se tornou a primeira mulher a produzir grappa na Itália.
Décadas mais tarde, em 1962, Benito, filho do casal, casou-se com Giannola Bulfoni. Juntos, o power couple decidiu mudar o destino da Nonino — e da grappa.
A primeira grande ruptura veio em 1973, quando criaram a Monovitigno Picolit, a primeira feita a partir das borras de uma única variedade de uva. Mas Giannola percebeu que era preciso ir além e mudar a imagem da empresa.
Durante anos, ela enviou pessoalmente a nova grappa a empresários e personalidades capazes de influenciar o mercado — muitas vezes com etiquetas escritas à mão. Para reforçar a sofisticação do produto, passou a apresentá-lo em peças de cristal.
A prova de que a estratégia estava funcionando veio de Gianni Agnelli, o poderoso presidente da Fiat. Impressionado com a Monovitigno, ele encomendou 100 garrafas e mandou um motorista buscá-las na destilaria. A grappa Nonino começava a conquistar a elite italiana.
Em 1984, Giannola e Benito voltaram a inovar com a criação da ÙE, l’Acquavite d’Uva, destilado obtido da uva inteira, incluindo casca, polpa e suco. A novidade exigiu uma regulamentação específica e inaugurou, na Itália, uma nova categoria de aguardentes.
Para destacar a exclusividade da bebida, a família lançou a Coleção Nonino ÙE Cru Monovitigno Picolit, em garrafas artesanais produzidas por fabricantes de vidro e cristal de altíssimo padrão, como a italiana Venini, a francesa Baccarat e a austríaca Riedel.
As peças logo adquiriram valor próprio. Desde 2010, estão no acervo permanente de Design Italiano da Triennale de Milão. E exemplares mais raros costumam atingir valores altos em leilões. Em 2000, por exemplo, uma garrafa da safra de 1990 foi arrematada na Christie’s, em Londres, por € 2.531 — o equivalente hoje a cerca de € 4.450.
A “influenciadora da grappa”
Giannola e Benito tiveram três filhas. Cristina, Antonella e Elisabetta cresceram dentro da destilaria e hoje dividem a gestão da companhia com a mãe — o patriarca morreu em 2024. Cristina, a mais velha, é responsável pela produção e pelo mercado italiano; Antonella cuida da comunicação institucional, do marketing e dos prêmios; e Elisabetta, CEO, lidera os mercados internacionais..
A sexta geração já começou a assumir seu lugar na empresa. Seu rosto mais conhecido é Francesca Bardelli Nonino, filha de Cristina.
Diretora de Comunicação Digital e embaixadora global da marca, ela ganhou projeção como a “influenciadora da grappa” nas redes sociais. Com certificação avançada da Wine & Spirit Education Trust, a jovem viaja pelo mundo para promover a bebida e capacitar bartenders.
Longe de ser uma gigante dos negócios, a Nonino fatura cerca de € 17,5 milhões. As exportações respondem por 59% das vendas. Alemanha, Áustria, Suíça e América do Norte estão entre os principais mercados.
As versões Monovitigno envelhecida e Riserva são a prata da casa, ao lado do Amaro Quintessentia, especialmente nos Estados Unidos e Canadá. Na Itália, uma garrafa custa, em média, € 35 a € 40, mas pode chegar a € 503.
O patrimônio construído pela família também está ligado ao território. No Borgo Nonino, os visitantes conhecem a destilaria e os armazéns de envelhecimento, participam de degustações por € 30 e podem se hospedar em um hotel-boutique instalado na propriedade de dez hectares.
Das etiquetas escritas à mão por Giannola às redes sociais da neta Francesca, mudaram as formas de apresentar a grappa ao mundo. Mas é de Percoto, onde a matriarca ainda reúne os amigos à mesa, que a família continua a escrever essa história.





