“Como se faz uma mulher desaparecer?” Essa pergunta dá início a um dos capítulos de A vida invisível da Sra. Orwell, da australiana Anna Funder, publicado recentemente no Brasil pela Companhia das Letras. A mulher em questão é Eileen O’Shaughnessy, escritora, poeta e primeira esposa de George Orwell, autor de A Revolução dos Bichos e 1984.
Pouco conhecida do grande público, Eileen teve participação decisiva na vida e na obra do escritor britânico. Em seu livro, Funder tenta reconstruir a trajetória dessa mulher ao mesmo tempo que expõe os mecanismos que a tiraram de cena. Um processo infelizmente comum, como explica a pesquisadora Maria de Lourdes Eleutério, autora de Vidas de Romance — As Mulheres e os Exercícios de Ler e Escrever no Entresséculos 1890-1930.
“Sendo ou não sendo uma profissional do mesmo métier, a mulher será sempre menorizada. Porque o trabalho doméstico é brutal”, afirma Eleutério em entrevista ao NeoFeed. “No caso de profissionais da arte, isso se torna muito mais complexo, porque essas pessoas precisam de um tempo de elaboração, como diria Oswald de Andrade, o ócio lúdico propício às artes. A mulher não tem esse tempo. Ela está sempre cuidando da casa, da comida, do marido e dos filhos.”
É esse trabalho invisível que Funder ilumina por trás da carreira de Orwell, ao enumerar tudo o que Eileen fazia para que o marido tivesse tempo para escrever.
“Trabalha de dia no ministério; cuida de todo o trabalho doméstico, faz as compras e cozinha; edita e datilografa o trabalho dele nas horas restantes. Não deixou nenhuma reclamação registrada”, escreve Funder. “Talvez até veja o que ele nunca dirá, isto é, que a produção dele exige o trabalho de duas pessoas.”
Ao investigar as sete biografias de Orwell — todas escritas por homens —, Funder percebe um padrão.
“Cada qual é brilhante, e cada qual conta uma história levemente diferente”, diz. “Mas todos eles minimizam a importância das mulheres na vida de Orwell. No final, as biografias começaram a parecer ficções de omissão.”
Voz passiva
O apagamento não ocorre apenas quando a mulher é simplesmente excluída da narrativa. Às vezes, ela continua presente, mas deixa de ser sujeito de qualquer ação. Um dos instrumentos mais eficazes para isso, observa a autora, é a voz passiva.
“Os manuscritos são datilografados sem datilógrafas, as circunstâncias idílicas existem sem criadoras, realiza-se uma fuga dos perseguidores stalinistas”, escreve Funder. Diante de expressões como “ficou combinado que”, ela estabelece seu método de leitura: “quem combinou?”, para tentar descobrir o sujeito da ação.
O próprio Orwell, segundo Funder, contribuiu para esse desaparecimento. Em Homenagem à Catalunha, Eileen aparece apenas como “minha mulher”, enquanto sua atuação na Guerra Cívil Espanha permanece apagada.
Ao cruzar notas de rodapé e documentos, Funder recupera sua presença em Barcelona. Ele trabalhou no Independent Labour Party, onde datilografava as anotações de Orwell e atuava em meio à perseguição stalinista. “Por fim, montei a guerra de Eileen”, escreve. “Ficou claro que salvara vidas.”
“As mulheres sempre foram sempre inviabilizadas e invisibilizadas. A mulher é uma coisa da casa, assim, como um objeto”, afirma Eleutério. A pesquisadora ressalta ainda que, durante muito tempo, as próprias mulheres contribuíram para esse cenário, pois não tinham consciência das violências e do apagamento a que estavam submetidas.
Funder encontra essa lógica até nas cartas de Eileen. Em determinado momento, ela precisa de dinheiro para uma cirurgia e começa a fazer contas sobre como custeá-la. Entre as possibilidades, considera vender uma casa. Em meio às alternativas, escreve: “Eu realmente não acho que valho o dinheiro”.
“Uma chama outra”
Antes de se casar com Orwell, Eileen já tinha uma trajetória intelectual própria. Nascida em uma família anglo-irlandesa de classe média alta, ganhou uma bolsa para Oxford, onde estudou literatura e teve J. R. R. Tolkien entre seus professores.
Queria seguir carreira acadêmica, mas abandonou o projeto depois de não ficar entre os primeiros colocados do curso — resultado que Funder relaciona também ao preconceito de gênero. Trabalhou como professora, leitora, cronista, palestrante e secretária e, em 1931, abriu o próprio escritório.
Em 1934, concluiu o mestrado em psicologia na University College London, onde seu orientador, Cyril Burt, a considerava de “capacidade acima do comum”. No mesmo ano, antes de conhecer Orwell, publicou o poema distópico Fim do século 1984, que Funder relaciona ao título do futuro romance do marido, lançado em 1949.
Os dois se conheceram na primavera de 1935, em uma festa organizada por uma amiga em comum em Londres. Impressionado com a personalidade vibrante Eileen, ele teria dito à anfitriã que era o tipo de mulher com quem se casaria. Poucas semanas depois, começou a cortejá-la e a pediu em casamento. Ela recusou de início, mas acabaria aceitando.
Ao lado do marido, foi mais que secretária. Tornou-se sua leitora, interlocutora e, em momentos decisivos, editora. Em A Revolução dos Bichos, segundo Funder, convenceu Orwell a transformar o projeto de ensaio sobre Stálin e o totalitarismo em uma fábula. A leveza da obra chegou a ser associada à inteligência de Eileen.
Se as mulheres são importantes durante a vida de um escritor, tornam-se ainda mais imprescindíveis depois de sua morte. Eleutério chama atenção para o poder que essas companheiras tiveram na circulação da obra de seus parceiros.
A pesquisadora cita Aurora Bernardes, primeira mulher do franco-argentino Julio Cortázar. Ela foi tradutora, responsável pela publicação de inéditos, pela organização de antologias e, depois da morte do escritor, sua testamenteira. “Ela pôs ele no mercado”, diz Eleutério. “Depende muito da mulher a sobrevivência do escritor depois que ele morre.”
Eileen, no entanto, morreu antes de Orwell, em 1945, durante uma histerectomia malsucedida, aos 39 anos. Funder observa que, nos anos seguintes, o escritor passou a procurar alguém capaz de substituí-la. Em especial, em sua função de datilógrafa.
“Ele mesmo fará as emendas em todo o texto, que então precisará ser inteiramente redatilografado, estando ele presente para decifrar seus rabiscos”, escreve Funder. “Tanto o seu agente quanto o editor tentam encontrar uma mulher que vá a [ilha escocesa] Jura para esse serviço.”
O fato de a biografia de Eileen ter sido escrita por outra mulher, 80 anos após sua morte, também reproduz uma estrutura recorrente. “É sempre assim. Eu converso com outras amigas pesquisadoras, e todo dia alguém pergunta: ‘Você já ouviu falar dessa?’ Nunca. Todo dia descobrimos uma mulher nova”, resume Eleutério. “Uma chama outra.”





