Do ponto de vista de liberalização do comércio, os anos 1990 marcam um período épico na história. A partir do início dos anos 1990, Estados Unidos, México e Canadá aprofundam sua integração comercial, num processo que desembocaria no NAFTA em 1994.
Do outro lado do Atlântico, também em 1990, os países do Grupo de Visegrado – Polônia, Hungria, Chéquia e Eslováquia – aprofundam sua integração com a Europa, num processo que resultou na adesão desses países à União Européia em 2004.
Passados 30 anos desde o início desses processos de integração comercial, é o momento de entender o que ocorreu com esses países e que resultados foram alcançados.
A conclusão é que enquanto os quatro de Visegrado cresceram de uma forma substancial desde a integração, com sua renda média convergindo para o padrão europeu, o México foi um retardatário e sua renda per capta média piorou em relação à renda americana no período.
O México cresceu fortemente nos primeiros anos do NAFTA e no pós “Crise Tequila”. Mas começou a ficar para trás já no início do novo milênio, o que se acentua ainda mais desde o primeiro Governo Trump, concomitante à chegada de Andrés Manuel López Obrador ao poder.
O México cresceu menos que o Brasil desde a criação do NAFTA – algo que, se profetizado em 1994, soaria como absurdo.
Como explicar uma performance tão díspar? E se o México foi um perdedor relativo, quem capturou os maiores ganhos da sua integração comercial?
Algumas hipóteses poderiam explicar essa diferença de performance. Sem a ambição de chegar a uma explicação definitiva, podemos especular quais as possíveis causas e sua importância relativa.
A primeira delas é que NAFTA e integração européia não são a mesma coisa.
Ambos contemplam uma ampla liberalização comercial, com redução ou eliminação de tarifas e proteção aos investimentos. Mas as semelhanças terminam aí.
A integração européia contemplava também a criação de um mercado único de serviços, embora essa dimensão tenha permanecido incompleta, como os serviços bancários demonstram. Ela também implicava no livre movimento de capital e pessoas.
Na América do Norte, os vasos comunicantes do mercado de trabalho também funcionaram, em parte, por meio da imigração mexicana, legal e ilegal, para os EUA, como mostram os fluxos de remessas. Mas por ocorrer em grande medida fora de um mercado de trabalho integrado formalmente, esse mecanismo é certamente menos eficiente.
A integração européia também pressupunha uma reforma das instituições dos países entrantes. O NAFTA integrou mercados, enquanto a UE condicionou a própria entrada dos países candidatos a uma profunda transformação institucional.
Uma segunda hipótese é que o México nesse período nunca conseguiu resolver um tema que certamente afeta sua produtividade: o excesso de informalidade na economia, que, segundo o INEGI, ronda 55% da força de trabalho, a mais alta da OCDE.
Como comparação, esse mesmo indicador marca menos de 9% na Polônia. O elevado número de empresas pequenas e que funcionam à margem do sistema formal limitam a eficiência e o crescimento. Empresas informais têm menor acesso a crédito, tecnologia, mercados externos e gestão. Tudo isso joga contra a expansão da produtividade.
O déficit educacional do México tampouco foi sanado ao longo do tempo. Entre 2000 e 2024, segundo a Unesco, o México adicionou 2,5 anos de educação à sua população com mais de 25 anos.
O mexicano tem hoje cerca de 10 anos de escolaridade média, praticamente o mesmo número do brasileiro, que porém incrementou a escolaridade em 4 anos no mesmo período. E ambos aquém do número do Leste Europeu, que está por volta de 13.
A estrutura concorrencial da economia mexicana, nas dimensões pública e privada, especialmente em setores como energia, telecomunicações, cimento e combustíveis, é outro detrator. Em alguns desses mercados, barreiras à entrada e concentração elevada limitam os ganhos de produtividade.
Outro fator que poderia explicar o pior crescimento do México seria uma taxa de investimento mais baixa que a dos demais. Mas isso não é verdade.
A formação bruta de capital fixo do México, próxima de 23% no período, foi mais alta que a dos Estados Unidos (e do Brasil), e similar à do Grupo de Visegrado.
Apesar de investir uma parcela adequada do PIB, o México não conseguiu transformar esse investimento em crescimento na mesma proporção. A questão, portanto, parece ser menos quanto o México investiu e mais a eficácia desse investimento.
É evidente que a comparação não é perfeita: os países do Grupo de Visegrado partiram de uma posição institucional e econômica muito particular após a transição do socialismo. Ainda assim, a experiência é útil porque permite observar dois grandes processos de abertura e integração econômica ocorridos ao longo de um período semelhante em economias emergentes.
A experiência mexicana sugere que a liberalização comercial é condição importante mas não suficiente para produzir convergência de renda.
A comparação com o grupo de Visegrado sugere que instituições, capital humano, competição e integração econômica mais profunda podem ser decisivos para transformar abertura comercial em ganhos de produtividade.
Entre o final do governo AMLO e os primeiros meses do Governo Claudia Sheinbaum, o México aprovou uma série de reformas do estado, entre elas a eleição de juízes em todos os níveis, a eliminação de várias agências reguladoras com a transferência de suas funções para órgãos do governo, e o fortalecimento do papel das empresas estatais no setor elétrico, dentre outros pontos controversos.
Some-se a isso a pressão de Trump por uma renegociação do USMCA em termos mais favoráveis aos EUA e a dificuldade do México em conseguir controlar a criminalidade.
Se com todo o vento a favor oriundo do NAFTA e políticas internas mais consoantes com as melhores receitas de crescimento, o México não conseguiu decolar à frente de seus pares, não deixa de ser difícil hoje imaginar como isso poderia mudar para melhor nos próximos 30 anos.
Não é apenas uma oportunidade perdida para os mexicanos. Um México mais rico, produtivo e institucionalmente sólido também seria do interesse dos Estados Unidos.
Para Washington, poucas políticas de longo prazo poderiam ser mais estratégicas do que ter ao sul uma economia dinâmica e integrada às suas cadeias produtivas.
Cláudio Andrade é fundador da Polo Capital.





