Segundo documentos da operação vistos pelo InvestNews, os recursos líquidos serão destinados ao “pagamento de dividendos, restituição de capital e outros proventos” aos acionistas da holding. A liquidação financeira está prevista para 9 de setembro.
São duas séries de notas comerciais: R$ 150 milhões com vencimento em 2028 e remuneração equivalente ao CDI mais 3,15% ao ano; e R$ 200 milhões com vencimento em 2031, pagando CDI mais 3,85%.
A operação é liderada pelo Bradesco BBI e destinada exclusivamente a investidores profissionais, categoria que inclui fundos, instituições financeiras e pessoas físicas ou jurídicas com mais de R$ 10 milhões em aplicações financeiras.
O BBI assumiu garantia firme de colocação sobre a totalidade da emissão: se os investidores não absorverem os papéis, o banco terá de adquirir o saldo.
Procurada pelo InvestNews, a Camil afirma que a operação se trata “de uma estrutura usual de financiamento em nível de holding, em que o acionista obtém liquidez sem vender participação” e que nada muda na estrutura societária da empresa.
“O pagamento da operação será feito pela holding com os proventos que recebe da companhia e com outros ativos de sua titularidade”, conclui a Camil.
Ações da Camil em garantia
Para garantir a dívida, a Camil Investimentos alienou fiduciariamente as 180 milhões de ações que possui da Camil Alimentos, incluindo os direitos políticos e todos os papéis que venha a receber em eventuais reorganizações societárias, segundo os documentos vistos pela reportagem do InvestNews.
Pela cotação de R$ 5,08 registrada nesta quinta-feira, o bloco valia R$ 914,4 milhões – o equivalente a 2,6 vezes o principal da dívida e a pouco mais da metade do valor de mercado de R$ 1,78 bilhão da Camil.
A garantia também alcança todos os dividendos, juros sobre capital próprio e outros proventos pagos pela companhia à controladora. Esses recursos deverão transitar por uma conta vinculada e poderão ser usados para amortizar ou resgatar antecipadamente as notas.
Luciano Maggi Quartiero, CEO da Camil Alimentos e um dos acionistas da holding, também aparece como fiador, codevedor solidário e principal pagador da operação.
Em caso de inadimplência, o agente fiduciário poderá executar as ações que garantem o controle da Camil. Os integrantes da família renunciaram previamente a direitos de preferência e a restrições que poderiam impedir a transferência dos papéis a terceiros.
A dívida não será registrada no balanço da Camil Alimentos, que não aparece como devedora ou garantidora.
Dividendos futuros
A estrutura permite aos Quartiero obter liquidez imediata sem vender sua participação na Camil. Parte do pagamento deverá ser sustentada pelos dividendos já declarados pela companhia aberta.
Em 31 de maio, a Camil Alimentos tinha R$ 395 milhões em dividendos aprovados e ainda não pagos. A parcela correspondente à participação da Camil Investimentos era de aproximadamente R$ 203 milhões.
A operação ocorre em um momento de maior pressão financeira na companhia. A Camil encerrou maio com R$ 5,67 bilhões em dívida financeira e aproximadamente R$ 4,23 bilhões em dívida líquida.
A alavancagem pro forma estava em 4,72 vezes o resultado operacional (Ebitda). A companhia ainda consumiu R$ 1,2 bilhão de caixa operacional no trimestre, principalmente com o aumento de estoques e contas a receber.





