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a indústria bilionária que cresce de carona no medo de assaltos

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O Brasil nunca teve tantos veículos zero quilômetros sendo completamente desmontados antes mesmo de chegar ao seus donos. Bancos, revestimentos internos e vidros são retirados para dar lugar a mantas balísticas, reforços estruturais e vidros especiais: é a indústria dos carros blindados. 

Em 2025, 42,8 mil veículos receberam esse tipo de proteção no Brasil, uma alta de 24,6% em relação ao ano anterior e maior resultado da série histórica da Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin).

A demanda continuou crescendo em 2026. Nos primeiros seis meses do ano, o país registrou 17.290 autorizações de blindagem, 4,6% a mais do que no mesmo período de 2025 e um novo recorde para um primeiro semestre.

É uma indústria que movimenta hoje estimados R$ 3,5 bilhões por ano.

O resultado é que o Brasil é hoje o maior mercado mundial de blindagem de veículos para uso civil, com volume quatro vezes superior ao do México, o segundo colocado. Essa liderança ajudou a criar uma cadeia formada por fabricantes de materiais balísticos, blindadoras, concessionárias, oficinas e seguradoras.

Por que o mercado de blindados cresce 

Segundo profissionais do setor, o crescimento da blindagem no Brasil combina três fatores: a sensação de insegurança, a redução do preço da proteção e a ampliação da oferta de veículos premium e superpremium. 

Um levantamento encomendado pelo Instituto Sou da Paz e divulgado em maio de 2026 mostrou que apenas 32% dos entrevistados diziam se sentir seguros na cidade onde viviam. Outros 57% afirmavam ter mudado hábitos ou rotinas por medo da violência.

Nas grandes metrópoles, marcadas por congestionamentos e longos períodos com os automóveis parados ou em baixa velocidade, o veículo blindado passou a funcionar como proteção para o deslocamento cotidiano.

Outro impulso veio do barateamento do serviço. Segundo a Abrablin, os preços dos sistemas de blindagem de nível III-A, os mais comuns no mercado, caíram cerca de 25% na última década. Hoje, esse custo fica entre R$ 80 e R$ 150 mil, dependendo do modelo do carro.  

A redução ampliou a procura entre proprietários de veículos de faixas inferiores às do luxo tradicional, a tal ponto que os líderes do ranking já não são automóveis superluxuosos.

No primeiro semestre de 2026, o BYD Song Plus foi o modelo mais blindado, seguido pelo Toyota Corolla Cross e pelo Jeep Commander. São carros que custam menos de R$ 200 mil. Dezoito dos 20 primeiros colocados eram SUVs.

Essa popularização ocorre ao mesmo tempo que cresce a oferta de automóveis premium e superpremium.

“A violência, infelizmente, sempre esteve aí. O prisma que eu prefiro observar é o crescimento da oferta de automóveis premium. Nunca foi tão acessível ter um carro todo equipado, principalmente com a entrada das marcas chinesas”, afirma Rogério Garrubbo, fundador e CEO da blindadora Concept Be Safe.

Como as blindadoras tentam ganhar escala 

A relação entre patrimônio e blindagem começou a ganhar escala no Brasil na década de 1990, durante uma onda de sequestros contra famílias de alta renda em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Um episódio que se tornou emblemático foi o que envolveu três filhos do bilionário Jorge Paulo Lemann em 1999. 

O Passat blindado que levava os filhos do empresário para a escola em São Paulo foi atingido por pelo menos 12 tiros. O motorista ficou ferido no braço, mas conseguiu escapar com as crianças. 

Casos como esse ajudaram a transformar a blindagem numa espécie de seguro físico para empresários, executivos e suas famílias e a criar negócios em torno desse mercado.

Hoje, mais de 200 empresas têm autorização para blindar veículos civis no Brasil. Para se diferenciarem em um mercado fragmentado, algumas das maiores blindadoras têm buscado homologação das montadoras.

Nesse processo, a blindadora desenvolve um projeto para um modelo específico de carro, submete o veículo a testes e precisa atender aos padrões de acabamento, segurança e garantia definidos pela fabricante. 

A homologação exige investimento, mas abre as portas das concessionárias.  Em vez de esperar que o dono compre o carro e procure uma oficina por conta própria, a blindadora passa a receber clientes indicados pela rede e, em alguns casos, entrega o zero-quilômetro já protegido.

“Para o cliente acaba sendo vantajoso escolher a blindagem homologada. Ele vai ter a certeza que a engenharia da montadora esteve envolvida no processo, que o produto foi testado balisticamente. Além disso, ele também não perde a garantia do carro nesse processo”, diz Thomas Yamada, diretor comercial da blindadora Avallon.

Ao mesmo tempo que investem em especialização, as blindadoras precisam atender a uma variedade cada vez maior de automóveis. A multiplicação de marcas, modelos, versões e gerações eleva o custo de engenharia e pressiona as margens. 

“É preciso investir muito para fazer o primeiro carro, principalmente quando se trata de modelos mais tecnológicos. Você tem que ter uma equipe técnica e experiente e também buscar o conhecimento específico daquele modelo”, afirma Garrubbo, da Concept Be Safe. 

Em 2025, a Concept Be Safe investiu R$ 5 milhões numa fábrica dedicada a modelos elétricos e híbridos. A blindagem desses automóveis acrescenta outra camada de complexidade ao processo.

Embora a proteção balística seja semelhante à aplicada em veículos a combustão, o ambiente de trabalho precisa ser adaptado. Baterias, cabos e sistemas de alta tensão exigem ferramentas específicas, áreas isoladas e profissionais treinados.

Da fábrica à corrida por aplicativo 

A expansão da frota blindada também abriu espaço para novos modelos de negócio.

O aplicativo de transporte Rhino opera em São Paulo desde 2024 apenas com veículos blindados. Em outubro de 2025, a startup dizia ter 300 mil usuários cadastrados, frota própria e motoristas treinados em segurança. A Vippers segue uma proposta similar com BMWs blindadas e motoristas treinados, em São Paulo, Rio de Janeiro e Miami. 

Na outra ponta, a frota de mais de 425 mil blindados alimenta o mercado de usados. Esse estoque amplia as receitas do pós-venda: vistorias, revisões, troca de vidros delaminados, reparos após colisões, reforço de suspensão, seguro e regularização documental. 

Empresários do setor afirmam que quem compra o primeiro carro protegido raramente volta a um modelo convencional. Enquanto o medo cercar semáforos e congestionamentos, a proteção invisível seguirá como um negócio visível. E crescente.



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