A engenheira química Rita Peixoto, do Rio de Janeiro, e o marido, o engenheiro agrônomo Marcus Luisi, já têm status de clientes platinum do Viaje com as Chefs. Desde 2024, fizeram os nove roteiros conduzidos pelas chefs Flavia Quaresma, Ciça Roxo e Ro Gouvêa.
O casal já conheceu uma fazenda de algas em Paraty, no Rio de Janeiro, uma queijaria mineira em Tiradentes e moeu cacau para fazer chocolate artesanal na Ilha do Combu, em Belém.
“Elas só nos levam aos melhores produtores e restaurantes renomados… os chefs sentam com a gente, criam menus personalizados”, conta Rita ao NeoFeed. “Nas visitas aos mercados, vão explicando tudo o que estamos vendo. Sempre tem uma história por trás.”
Organizar viagens gastronômicas guiadas virou um filão e tanto para cozinheiros profissionais. Como guias turísticos, eles atraem um público de alto poder aquisitivo, disposto a pagar por experiências inacessíveis a turistas comuns.
Em um desses fins de semana, um grupo do Viaje com as Chefs percorre a capital paulista em três dias de visitas a mercados e refeições em medalhões como o restaurante Mocotó e o Bar da Dona Onça. O roteiro, que inclui transporte, hotel, passeios e refeições, saiu por R$ 5,78 mil por pessoa, em quarto duplo.
Nas cidades pequenas do interior ou do litoral, os roteiros sempre englobam visitas a pequenos produtores, que vão além das simples degustações.
“Em Paraty, fizemos um churrasco em alto mar. Já no barco, avistei um pescador de camarão, arrematamos o lote e acompanhamos enquanto ele puxava a rede. Os camarões, limpos na água do mar, foram direto para a churrasqueira”, diz Ro Gouvêa ao NeoFeed.
Há 13 anos, o chef Paulo Machado, especialista em cozinha pantaneira, descobriu a vocação para guia turístico quando conduziu o primeiro grupo por fazendas do próprio Pantanal. O negócio tomou corpo.
Hoje, ele e a sócia, Pollianna Thomé, dona da operadora de turismo Bravo Expeditions, comandam a Food Safáris, que já extrapolou as fronteiras do Brasil.
A empresa, premiada pelo WTM Responsible Tourism Awards Latin America, já levou turistas para o Nepal, Armênia, Colômbia, México, Portugal, França, Japão, Etiópia e Peru, sem contar os roteiros nacionais. Em todos, a cultura alimentar local é o fio condutor.
Na Espanha, o grupo se hospedou nos Pirineus, visitou uma fábrica de torrones e um produtor de queijo, colheu hortaliças e participou do preparo do almoço. No Vale Sagrado, no Peru, acompanhou a cadeia de produção do milho branco gigante, ingrediente dos ceviches.
“Não tem nada de alta gastronomia, não é isso que nosso cliente quer. Ele pede experiências únicas”, diz Machado ao NeoFeed.
Morador de Barcelona, ele é o guia das viagens internacionais, que chegam a 12 dias de duração. Pollianna, que também tem formação em cozinha, se encarrega das rotas pelo Brasil, geralmente mais curtas, a partir de três dias.
Os grupos, com no máximo 15 pessoas, têm liberdade para escolher o transporte — o ponto de encontro é sempre o primeiro hotel do destino. Por isso, o preço da passagem não entra no pacote. A expedição pela Amazônia, de 4 a 10 de fevereiro de 2027, com viagem de barco pelo Rio Negro, custa quase R$ 20 mil por pessoa, em apartamento duplo.
A zootecnista Alexandra Oliveira, 51 anos, perdeu a conta de quantos Food Safáris já fez. “A do México foi emocionante, porque acompanhamos as cerimônias do Día de los Muertos em uma casa de família”, afirma ela.
O chef Rafael Cardoso, conhecido como Rafa Bocaina, descobriu o potencial das viagens gastronômicas sem sair do sítio onde vive, em Silveiras, no interior paulista. Criador de porcos e fundador da charcutaria Curiango, ele começou a receber grupos interessados em vivenciar a rotina no campo.
A experiência acabou do outro lado do oceano Atlântico. “Meus estudos sobre o porco me levaram para Portugal. Encontrei um conteúdo tão rico que decidi organizar uma expedição, a Comitiva do Rabo ao Focinho, que logo terá sua terceira edição”, afirma Bocaina.
Nas duas primeiras, ele e a pesquisadora Carla Spironelo conduziram cozinheiros profissionais e amadores por uma imersão pelo interior de Portugal. Os grupos acompanharam a matança tradicional do porco e a produção artesanal de enchidos, entre outras atividades mão na massa.
Com saída do Brasil em 8 de outubro, a próxima viagem avança até o litoral português para explorar o tema Os caminhos entre o porco e a pesca. Estão previstas visitas a uma salina produtora de flor de sal e a um conjunto arqueológico onde se fermentava garum, condimento do Império Romano.
Esgotado cerca de dois meses antes da partida, o roteiro custa R$ 25,69 mil por pessoa – o preço inclui hospedagem em apartamento duplo, refeições e toda a parte terrestre, mas não engloba passagens aéreas. “Turista nenhum tem acesso a esse tipo de roteiro. Todos os passeios são 100% exclusivos e os menus, desenvolvidos para nós”, avisa Rafa.
Quem percorre a Serra Gaúcha na companhia da sommelière carioca Elaine de Oliveira também foge do lugar-comum. Nos dois roteiros, um ao redor do Vale dos Vinhedos e outro focado nas cercanias de Flores da Cunha, ela apresenta pequenas vinícolas familiares fora dos circuitos manjados e organiza refeições nas casas dos proprietários. “Somos recebidos como amigos”, ela contou ao NeoFeed.
São viagens curtas, de sexta a domingo, com ponto de encontro no aeroporto de Porto Alegre. Elaine cobra R$ 3,84 mil pelo pacote, sem passagens aéreas, e não faltam interessados – a viagem de 13 a 15 de setembro está esgotada, mas haverá outra de 25 a 27 do mesmo mês.
A sommelière diz que o produto faz sucesso entre clientes corporativos – empresas contratam roteiros fechados para presentear colaboradores e clientes ou promover a interação entre equipes. “Já estou programando uma para Portugal, no ano que vem”, diz.
Experiências exclusivas também são o diferencial dos giros gastronômicos pela Itália oferecidos pela Polvani Tours. Diretor da empresa, o italiano Gerardo Landulfo é um expert – além de delegado da Accademia Italiana della Cucina em São Paulo, ele é o curador da Settimana della Cucina Regionale Italiana, evento anual que acontece na capital, com cozinheiros dos dois países.
“Conheço pessoalmente os chefs e tenho acesso privilegiado. A Barbara Settembri, por exemplo, abriu a Locanda dei Matteri para nós, no dia de folga. Também levo as pessoas a lugares raiz, muito simples e autênticos, que só recebem conhecidos”, afirma Landulfo.
Com até seis saídas por ano, os giros com passagens aéreas, hotéis, refeições e degustações custam a partir de € 4 mil (R$ 23,6 mil), com hospedagem quatro estrelas e voo em classe econômica.
“Temos uma cartela de clientes fiéis, que viaja todo ano”, conta. “Antigamente, a agência vendia excursões, mas os tempos são outros. Estamos na era das viagens personalizadas.”





