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Sem abrir mão do status, Vega Sicília quer ser ‘mais acessível’ com dados e…

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Bloomberg Línea — Jessica Julmy assumiu um desafio de peso ao assumir a direção-geral da vinícola Tempos Vega Sicília, um ano atrás. À frente de alguns dos maiores ícones entre os vinhos da Espanha, ela tem atuado para preservar o status e o legado dos rótulos da casa enquanto busca atualizar processos para aproximar os consumidores das marcas já consolidadas no mercado global.

“Gostaria que nos tornássemos mais acessíveis”, disse a executiva em entrevista à Bloomberg Línea durante um jantar de apresentação da safra mais recente da vinícola, em São Paulo.

Segundo ela, a palavra “acessível” tem que ser entendida dentro de um contexto específico, entretanto. “Claro que são vinhos raros, únicos, com um determinado preço. Temos que respeitar isso. Mas quero que as pessoas curiosas se sintam à vontade para ter esse contato, não achem que é algo fora da realidade”, disse.

A ideia, segundo ela, é mostrar que mesmo que uma garrafa de Vega Sicília Único seja cara (a importadora Mistral traz a safra 2013 ao Brasil com exclusividade por R$ 8.775,72), ela pode ser comprada sem desafios impostos pelo mercado. É um contraste com o que ocorre com os grandes vinhos da França, segundo ela.

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“É algo tão escasso quanto os vinhos de alguns produtores da Borgonha? Nem tanto. É um vinho raro, mas que pode ser encontrado. Podemos figurar em cartas de vinhos e estar nas adegas de colecionadores, mas não é algo impossível de achar”, explicou.

Se o preço pode continuar sendo uma barreira, ela argumenta que são vinhos preparados com um cuidado histórico, e que levam tempo para ficar prontos. Cada garrafa de Único, explicou, é lançada cerca de dez anos após a colheita da uvas, depois de passar por barricas de madeira, cubas e envelhecimento em garrafa.

Leia também: Ícone da Espanha e garrafa até R$ 9.000: Vega Sicília vê Brasil como mercado-chave

“Isso exige um capital imobilizado enorme, mas é uma escolha consciente. E acho que isso também torna o vinho mais acessível, porque você pode guardá-lo por décadas, mas também pode bebê-lo assim que compra. Hoje isso é interessante para uma geração mais jovem que talvez não tenha a adega ou a paciência”, afirmou.

Modernidade e tradição

Julmy se tornou a primeira mulher a dirigir a vinícola espanhola. De origem suíça, criada em Chicago formada em administração de empresas pela Georgetown University e fluente em mandarim, ela passou pelo mercado imobiliário na China e na Argentina, fez MBA na London Business School e trabalhou na LVMH, como diretora comercial da Krug e na diretoria de vendas da Moët Hennessy no Reino Unido, antes de assumir o comando de uma empresa familiar centenária.

O primeiro ano à frente do grupo, segundo ela, foi dedicado sobretudo a ouvir. O desafio foi reconhecer reações automáticas da experiência corporativa e testar se faziam sentido em um negócio tão diferente. “Percebi que eu tinha muitas reações baseadas no que já sabia e no que achava certo, e me desafiei a pensar: a Tempos Vega Sicília é extremamente bem-sucedida. O que a tornou assim? O que se mantém e o que precisa evoluir?”, contou.

Grande parte da resposta a essas perguntas gira em torno do papel histórico do CEO da vinícola, Pablo Álvarez, à frente da empresa por décadas. “Ele construiu praticamente sozinho o que a Tempos Vega Sicília é hoje. Para muita gente, a Vega Sicília é o Pablo”, disse Julmy.

Leia também: Vinho premium ganha espaço no Brasil com preferência por ‘beber menos e melhor’

Para ela, o objetivo agora é dar à empresa uma estrutura que sustente esse legado além de uma única pessoa. “Como criamos uma estrutura, como mantemos um negócio familiar, com todas as suas particularidades, e ao mesmo tempo trazemos mais governança e processos para torná-lo sustentável nas próximas décadas?”, questionou. Ela descreveu o processo como uma corda bamba entre importar práticas de grandes empresas internacionais e reconhecer o que já funciona e não deve ser mudado.

A executiva disse enxergar espaço de avanço na eficiência interna, a começar pela digitalização de processos administrativos. “Existem frutas fáceis de colher no que não é glamouroso, a parte administrativa. São os fundamentos de administrar um negócio”, afirmou.

Um caso concreto disso é a relação com Brasil, segundo ela, terceiro maior mercado do grupo nas Américas, com cerca de 5% das vendas globais e 65 mil garrafas por ano. Essa cota, disse ela, ainda é distribuída por um sistema de alocação de cima para baixo, sem separar demanda real de decisão administrativa.

“Venho querendo inverter um pouco essa lógica. Quero que sejamos mais orientados a dados, aos poucos, e mais atentos a onde existe demanda genuína para poder alocar a partir daí”, explicou.

Ela disse ter se surpreendido com a força do grupo na América Latina. “O que foi completamente novo para mim é a força da Tempos Vega Sicília na América do Sul. Temos uma presença acima da média em comparação a outros mercados”, afirmou.

Diferentemente do que costuma orientar marcas de luxo, crescimento em volume não é a métrica que guia as decisões da Vega Sicília, segundo Julmy. “Crescimento não é uma palavra que está na minha agenda todos os dias. O foco é qualidade e inovação”, afirmou.

Leia também: Acordo Mercosul-UE rearranja mercado de vinhos e beneficia importação de alta gama

Ela lembrou que Álvarez sempre limitou deliberadamente a produção diante da demanda. “Um selo de qualidade e luxo é uma coisa quando você produz algumas centenas ou milhares de garrafas de um vinho de topo. É outra coisa muito diferente produzir 300 mil garrafas de Pintia (rótulo da vinícola produzido na região de Toro)”, disse.

Essa disciplina ajuda a explicar o faturamento estável em 90 milhões de euros, o mesmo patamar informado por Álvarez em entrevista à Bloomberg Línea durante visita ao Brasil um ano antes, com produção anual próxima de 1,3 milhão de garrafas.

“A prioridade um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez sempre foi o vinho. A qualidade do vinho”, disse.





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