A Mastercard está mirando o mercado de pagamentos entre empresas como uma das principais avenidas de crescimento para os próximos anos. Com a forte digitalização dos pagamentos de consumidores no Brasil, que já coloca o País entre os mercados mais avançados do mundo, a companhia entende que o próximo grande espaço de expansão está no B2B — segmento ainda pouco explorado pelos cartões.
“Quando a gente olha B2B, cartões têm uma oportunidade gigante, um potencial muito grande ainda para crescer”, diz Marcelo Tangioni, presidente da Mastercard Brasil. Para ele, enquanto os pagamentos de consumidores já atingiram um elevado nível de penetração, o universo corporativo representa uma fronteira ainda aberta para a indústria.
Hoje, cerca de 9% do volume transacionado por cartões no País corresponde a pagamentos de pessoas jurídicas. Um estudo realizado pela própria Mastercard estima que existam entre US$ 700 bilhões e US$ 750 bilhões em fluxos financeiros empresariais no Brasil que poderiam, potencialmente, migrar para soluções baseadas em cartões. No Brasil, grande parte das transações entre empresas ainda ocorre por instrumentos como boleto e transferências bancárias.
Crescimento de 23% ao ano
A Mastercard projeta uma expansão forte para os pagamentos B2B digitais. De acordo com Walter Pimenta, vice-presidente de Pagamentos Comerciais/B2B Payments da companhia, a expectativa é de crescimento anual composto de aproximadamente 23% nos próximos anos para esse mercado na América Latina, incluindo o Brasil.
“A gente está esperando um crescimento de mais ou menos 23% ao ano, que pode inclusive se acelerar nos próximos anos”, afirma Pimenta.
A perspectiva de crescimento está relacionada não apenas à substituição de meios tradicionais de pagamento, mas à transformação da própria gestão financeira das empresas. Com o avanço do e-commerce, da digitalização dos negócios e das compras internacionais, cresce a necessidade de automatizar processos que ainda são realizados manualmente.
Quando se fala das PMEs, o desafio tende a ser ainda maior. “Muitas empresas no Brasil, principalmente as pequenas, ainda têm uma mistura de finanças ou de gerenciamento de finanças entre o dono da empresa e a própria empresa, entre pessoa física e a pessoa jurídica”, diz Pimenta.
Segundo ele, esse cenário também representa uma oportunidade para os cartões empresariais, que podem ajudar a separar as despesas pessoais das corporativas e, ao mesmo tempo, oferecer instrumentos de gestão.
A estratégia da Mastercard inclui oferecer ferramentas de presença digital, cibersegurança, proteção de identidade, seguros e benefícios voltados à gestão do negócio. A lógica representa uma mudança na forma como a Mastercard pretende vender o cartão PJ. Em vez de simplesmente reproduzir benefícios dos cartões de pessoa física, a companhia quer transformar o meio de pagamento em uma ferramenta de gestão.
“Historicamente, tentamos resolver o problema da PJ com soluções de pessoa física”, reconhece Tangioni. Segundo ele, a mudança passa por oferecer produtos que solucionem dores concretas do negócio, e não apenas facilitem o pagamento.
Cartão como capital de giro
O crédito é outra peça importante nessa estratégia. Em um cenário de juros ainda elevados e maior seletividade dos bancos, o cartão corporativo pode funcionar, na prática, como uma fonte de capital de giro para pequenas empresas.
Isso ocorre porque o prazo até o vencimento da fatura permite ao empreendedor postergar o desembolso. Ao mesmo tempo, a Mastercard afirma estar trabalhando com emissores para melhorar a avaliação de risco das PMEs.
Uma das ferramentas é o Small Business Credit Analytics, que utiliza dados transacionais e de comportamento de pagamento para fornecer ao banco emissor informações adicionais na análise de crédito.
A decisão final sobre concessão de limite, no entanto, continua sendo do emissor. Para a Mastercard, a utilização de dados mais ricos pode ajudar a reduzir perdas e permitir uma expansão mais saudável do crédito.
A próxima fronteira: agentes de IA
O movimento de expansão do B2B também se conecta a outra transformação que a Mastercard considera estratégica: o comércio agêntico. Com agentes de Inteligência Artificial ganhando autonomia para pesquisar produtos, negociar e realizar compras, os meios de pagamento precisarão se adaptar a transações nas quais a decisão deixa de ser tomada diretamente por uma pessoa.
Tangioni afirma que a Mastercard já trabalha na certificação desses agentes e em mecanismos de segurança para garantir que eles possam operar dentro dos padrões dos arranjos de pagamento.
Nesse cenário, os cartões virtuais ganham ainda mais relevância. Uma credencial criada especificamente para uma única transação pode limitar riscos e facilitar o controle sobre compras realizadas por agentes autônomos.
A Mastercard já realizou testes de pagamentos agênticos no Brasil com 17 parceiros, incluindo uma primeira transação em parceria com o Santander.
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