por Eládio Pessoa de Andrade Filho
Estou eu de férias em Marília, como sempre faço quase todos os anos, e me pus a caminhar no local aonde outrora existia a fazenda Bonfim, pela rua que atualmente se encontrava a cantina Mamma Mia, denominada rua José Alfredo de Almeida para os íntimos tio Zezé, na qual farfalhavam alinhadas palmeiras imperiais sendo a rua ainda de terra e que no seu final se erigia um suntuoso eucalipto (que ainda existe), sendo localizado em frente a casa da querida Zala Almeida e que, por impulso da memória, que o aroma do ar me inspirou, veio a lembrança da antiga e aconchegante casa sede da fazenda Bonfim de saudosa memória da vó Olivia (esposa do Coronel Galdino de Almeida) administrada pelo seu Tercílio, com suas famosas e apetitosas jabuticabeiras, onde meus pais sempre passavam agradáveis noites com as famílias Almeida, Cerqueira Cesar, Carvalho e demais convidados. Em frente tinha um grande campo e logo abaixo o terreiro de café com imensos galpões que davam para o estábulo, onde todos os dias de manhã seu Lúcio tirava leite.
Semelhante a um macaco, vivia quase todos os dias da infância, juntamente com meus amigos que não eram poucos, trepados nas mangueiras, goiabeiras, jabuticabeiras do pomar do seu Tamiro que me lembro bem, era bravo demais e corria atrás da gente, mas nunca nos pegava. Época em que Marília era mais ou menos dividida entre a galera do Tênis Clube e o colégio Monsenhor Bicudo e a galera do Yara Clube, Cristo Rei e Amilcare Matei, que por vezes não eram muito amistosas, mas isto fazia parte. Eu morava atrás do Tênis Clube na esquina da rua Cel José Braz com a rua Bororós, região aonde moravam também grande parte dos meus amigos e amigas, até as imediações da rua Alvares Cabral, que aqui vou citar apenas os sobrenomes por questão de subjetividade ou falta de memória mesmo, é meus caros alguns neurônios ainda funcionam: os Genesine, os Amaral, os Menezes de Melo, os Catalan, os Carvalho, os Haddad, os Trad, os Muller, os Toledo, os Mazzafera, os Vigiani, os Doretto Campanari, os Monetta, os Tobias, os Capelozza, os Montolar, os Vendramini, os Godoy, os Barion, os Yasbeki, os Sasazaki, os Brambilla, os Alcalde, os Fragata, os Alves de Souza estes já na avenida Rio Branco, os Pastori, os Maldonado, os Farah, os Tebeth, os Giandon, os Gomes Fernandes, os Góes Monteiro, os Casadei, os Molica, os Toledo, os Rino Guimarães, os Menezes de Mello, os Oléa, os Scarabotollo, os Giometti, os Borghetti, os Ricci, os Coraini, os Gomes Fernandes, os Alvarez Godoy, os Novaes, os Carvalho, os Ferraz, os Haddad, os Macul, os Fioravante, os Palácio, e etc.. Logo mais a frente, nas imediações da rua Alvares Cabral, os Cerqueira César, os Figueiredo, os Auada, os Belluci, os Nardi, os Marisael, os Tavares, os Teruel, os Toffoli, os Brandão, os Nakadaira, os Genta, os Gelás etc. Devido ao montante e amplitude de peripécias ou presepadas, como queiram, que na época aprontávamos, o tempo pleno porém veloz na infância e juventude e hoje voraz, nos remete a lapsos de memória, razão pela qual, desde já perdoem-me aos que não citei, porém tenham a certeza de que estão impregnados nos labirintos das nossa lembranças.
Da mesma maneira também, como esquecer os bares e restaurantes como o Tropical, Bambu, Don Quixope, Sete Sete, Pé de Manga, Flor Roxa, Mamuthe, Carambolas, Espelho Mágico, 515, Chaplin, Napoli com sua boatinha, onde nos encontrávamos para tudo ……em especial as rodas de violão, as paqueras e tudo mais…, enfim quantas lembranças, tanto boas como algumas ruins, como a das meninas que tinham que ir para casa as 22 horas, que pena, quando começava a ficar bom, mas fazia parte.
Me lembro muito das madrugadas frias e nós, como lobos solitários íamos, como hoje não se faz mais, pular muros, rasgar as calças, levar mordidas de cachorros, fugir dos homi, só para roubar rosas para as amadas desejadas, éramos muito apaixonados, como dizia Cazuza “exagerados”.
Em meio às deliciosas e excitantes lembranças, não poderia deixar de citar as brincadeiras pertinentes à aquela áurea e afoita fase da vida, aquele ritual da vassoura para, com todo cavalheirismo, convidar a desejada para uma dança, nas brincadeiras dançantes que fazíamos em casa, que os amigos e amigas muito devem lembrar, e que de uma maneira ou de outra, muito nos influenciou para “sermos o que nos tornamos” apesar da inexorável distância que paradoxalmente nos permeia.
Lembro-me que onde hoje é a Unimed e o Sun Valley indo até o Companhia Natural era só mato, com brejos e o constante coaxar das rãs ao cair a noite, época em que presenciei quase todas as construções das casas que ali se erigiram. Incrível como o tempo passa, quando caminho em frente do Colégio Monsenhor Bicudo, já me dando água na boca só de lembrar da sopa de macarrão da dona Messias na hora do recreio no tempo do curso primário, onde as professoras dona Rosa, Maria, Antônia, Nally e Cecilia, ensinaram-nos os primeiros passos do conhecimento, da austera diretora dona Silvia Ribeiro de Carvalho dando carão, dos amigos “malas” e das amigas gatas que tanto nos inspiravam, e que aqui, não vou citar nomes em razão da bagagem masculina e vaidade feminina. Quase todo dia, ao cair da tarde, tinha o bate bola no campo do Tênis Clube sempre com 4 a 5 times esperando para jogar, logo depois de nos deliciarmos com o belo espetáculo da natureza das meninas tomando sol e nadando naquela outrora cristalina piscina.
A “boatinha” que funcionava onde hoje é o restaurante do clube, embalada ao melhor som de discoteca que hoje não se produz mais, entretanto está gravada em nossas memórias, e depois a Blackout, já com vistas para o campo, são tantas as instigantes lembranças, que me aflora uma nostalgia. Como esquecer tanta energia (visceral) aliado ao saudoso viço da juventude, não mediamos forças para usufruir o que nos divertia, e olha que havia fartura de tudo em geral, que saudades!!!. Tudo isso invoca em minha mente aquele sublime poema de Casimiro de Abreu “Meus oito anos”.
Porém o destino o qual, os gregos punham acima de Zeus, nos fez seguir nossos caminhos, munidos de nossas vivências, nunca esquecendo nosso passado. Este mesmo destino me levou às minhas mais profundas raízes pois em 2000 fui morar em Sobral cidade universitária muito importante no interior do Ceará, região das raízes da nossa família, me levando a exercer um dos mais nobres dos ofícios, inspirado em meu querido pai, ser professor universitário da disciplina de Anatomia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, ofício este que, com maestria, ele exerceu durante toda sua vida, na Famema, Unimar e tantas outras faculdades que ele participou ativamente da criação, deixando um legado, uma história e um séquito na área da saúde em Marília e interior de São Paulo, no qual muitos de seus discípulos se projetaram em nível nacional e internacional.
Hoje, lembrando o “mestre” sentado em sua poltrona me vem a imagem do dever cumprido e do mais altivo exemplo de humildade e humanismo. Pois bem meus caros, hoje vemos como a vida passa muito rápido que os exemplos são nossos pilares e que, por conta deles, é um privilégio estarmos aqui ainda para poder contar um pouco da nossa história.
Um forte e verdadeiro abraço a todos que participaram deste inesquecível tempo, que estará para sempre espelhado em nossos corações.
Eládio Pessoa de Andrade Filho é professor universitário da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, campus Sobral





