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De vantagem esportiva a corpo feminino: entenda o debate sobre veto a atletas trans no vôlei brasileiro

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Uma semana após a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) anunciar a adoção da política do Comitê Olímpico Internacional (COI) para a realização do teste do gene SRY, a Gazeta Esportiva ouviu especialistas para entender os impactos da medida sobre a participação de atletas trans no esporte. A nova regra deve afetar diretamente a ponteira e oposta Tiffany Abreu, do Osasco, única jogadora trans em atividade na elite do vôlei brasileiro.

Em março de 2026, o COI anunciou uma nova política para determinar a elegibilidade de atletas na categoria feminina. O critério adotado prevê a realização de um teste para identificar a presença ou ausência do gene SRY (Sex-determining Region Y), associado ao desenvolvimento sexual masculino.

O anúncio foi feito pela presidente da entidade, Kirsty Coventry, que também recomendou a adoção da medida por federações internacionais, comitês olímpicos nacionais e demais órgãos responsáveis pela regulamentação esportiva. Cinco meses depois, a CBV informou que passará a seguir a política da entidade olímpica em suas competições nacionais.

“A CBV passa a seguir os critérios e fundamentos da Política de Proteção da Categoria Feminina do COI, publicada em março deste ano, que limita a elegibilidade nessa categoria exclusivamente às atletas do sexo biológico feminino. Essa verificação é feita por testagem e triagem do gene SRY”, diz trecho da nota da confederação.

A decisão colocou em dúvida a permanência de Tiffany Abreu nas principais competições do voleibol brasileiro. Pioneira entre as atletas trans na modalidade, a jogadora atua no vôlei feminino desde 2017 e atualmente defende o Osasco.

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“É um enorme retrocesso”

Tiffany se pronunciou pela primeira vez após o anúncio da CBV no último sábado, depois da derrota do Osasco para o Pinheiros por 3 sets a 2, pela primeira rodada do Campeonato Paulista. Como a competição é organizada pela Federação Paulista de Voleibol (FPV), a atleta segue liberada para atuar no torneio.

Em entrevista após a partida, a jogadora de 41 anos classificou a nova política como um retrocesso.

“O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. É um enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e inclusão de todas as pessoas no esporte”, afirmou.

A atleta também criticou a adoção do novo critério e comparou a medida aos antigos testes de gênero utilizados décadas atrás.

“Voltamos para uma forma vexatória, como se testavam as atletas nos anos 60 e 70. Estamos em 2026. Não podemos ter esse retrocesso jamais.”

O Osasco, clube que Tiffany defende desde 2021, também saiu em defesa da atleta e afirmou ter sido surpreendido pelo anúncio da entidade.

“A decisão impacta diretamente a atleta Tifanny Abreu, que veste a camisa do clube desde 2021 e construiu uma trajetória marcante dentro e fora de quadra. O clube reafirma seu integral apoio a Tifanny neste momento e reforça seu compromisso permanente com o respeito e a valorização de todas as pessoas que fazem parte da sua história”, informa o comunicado divulgado pela equipe.

O que é o gene SRY?

Para entender a política adotada pela CBV, é necessário compreender o papel do gene SRY. Segundo o médico Wandyk Allison, especialista em arquitetura metabólica e contorno corporal, o marcador genético está localizado no cromossomo Y e participa do processo de diferenciação sexual ainda durante o desenvolvimento embrionário. Quando ativado, o gene desencadeia uma série de processos biológicos que levam ao desenvolvimento sexual masculino.

Apesar dessa relação, o médico ressalta que o SRY não possui ligação direta com o desempenho esportivo.

“O ponto fundamental é que o SRY não é um gene da força, da velocidade ou da performance esportiva. Ele funciona como um marcador do início de uma determinada via de diferenciação sexual.”

Segundo Allison, o exame adotado pelo COI e pela CBV também não avalia fatores diretamente relacionados ao rendimento esportivo, como força, velocidade, massa muscular ou os níveis atuais de testosterona da atleta.

Existe vantagem esportiva?

A possível vantagem competitiva de mulheres trans em relação às mulheres cisgênero é um dos principais pontos do debate. Segundo Allison, a ciência ainda não apresenta uma resposta definitiva para a questão e não existe uma conclusão universal que possa ser aplicada a todos os esportes. O especialista explica que cada modalidade exige capacidades físicas diferentes, o que demanda análises individualizadas.

Allison cita uma meta-análise publicada em 2026 no British Journal of Sports Medicine, que reuniu 52 estudos e analisou 6.485 participantes. A pesquisa não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre mulheres trans e mulheres cis em diversos parâmetros físicos após um período de um a três anos de terapia hormonal, embora os próprios autores ressaltem limitações e apontem que o tema permanece em aberto.

Para o especialista, as evidências disponíveis atualmente não permitem concluir que atletas trans tenham vantagem competitiva comprovada.

“Não há como provar e elucidar que essa atleta ou qualquer outra atleta trans esteja tendo vantagem sobre o público feminino apenas com base nas evidências atuais.”

O médico também avalia que a adoção do gene SRY estabelece um critério objetivo para as entidades esportivas, mas não contempla todos os fatores relacionados à performance de uma atleta.

“O teste do gene SRY não me permite dizer que a atleta tem vantagem, mas também não me permite afirmar que ela não tem vantagem.”

Características como massa magra, hemoglobina, hematócrito, VO2 máximo e a capacidade individual de desempenho, por exemplo, não são consideradas pela triagem genética.

“Tomar decisões regulatórias com base apenas em um gene é uma escolha objetiva, mas que não contempla todo o contexto biológico.”

(Foto: Marcelo Ferrazoli/Vôlei Bauru)

Debate vai além da genética

Para a médica Clarissa Rios, especialista em Medicina do Esporte, a discussão não se limita às questões genéticas e fisiológicas.

“Precisamos avançar nessa discussão, mas antes precisamos sair da chamada ‘medicina do biquíni’, que conhece a mulher apenas pela mama, pelo útero e pelos ovários.”

A médica afirma que ainda existem lacunas importantes no conhecimento científico sobre o corpo feminino, especialmente quando o assunto é desempenho esportivo, e considera que essa falta de conhecimento está no centro da discussão.

“Ainda não sabemos suficientemente como funciona o corpo feminino. Portanto, estamos discutindo ética no esporte de alto rendimento sem ainda ter estudado profundamente as mulheres. Na minha opinião, esse é o grande problema.”

A especialista também acredita que a discussão sobre atletas trans ultrapassa os limites da medicina esportiva.

“Por isso, entendo que a discussão esteja muito mais ligada a questões políticas e sociais.”

Ao comentar especificamente o caso de Tiffany, Clarissa destacou que a atleta passou por mudanças hormonais importantes ao longo do processo de transição.

“Ela apresenta produção muito baixa de testosterona, semelhante à de uma mulher na menopausa.”

Estrelas do vôlei se posicionam sobre decisão da CBV

A decisão da CBV provocou reações de nomes importantes da modalidade. Entre as atletas que saíram em defesa de Tiffany está Gabi Guimarães, ponteira do Conegliano, da Itália, capitã da Seleção Brasileira e uma das principais jogadoras do mundo na atualidade.

Nas redes sociais, Gabi criticou a maneira como a mudança foi conduzida e demonstrou preocupação com os impactos da medida na vida da atleta do Osasco.

“Aconteceu uma mudança de rumo na última semana que foi apenas comunicada às pessoas envolvidas. Sem explicação plausível, já que a regra internacional já existia antes, e sem nenhum olhar pra um ser humano que tem uma história, que está com uma temporada em andamento e que depende do seu trabalho para viver. A mudança foi planejada ou pensada por quem? Defendendo os interesses de quem? Em algum momento alguém pensou na pessoa da Tiffany, em como isso impactaria a vida dela? Já são nove anos disputando Superliga. Ou só vamos reforçar que as pessoas trans devem ficar à margem da sociedade mesmo?”

Outra que manifestou apoio à jogadora foi Sheilla Castro, bicampeã olímpica com a Seleção Brasileira e uma das maiores atletas da história do voleibol nacional. A ex-oposta ressaltou que Tiffany construiu sua carreira cumprindo todas as exigências impostas pelas entidades esportivas.

“Tenho acompanhado tudo o que aconteceu nos últimos dias com a Tiffany. Ela construiu sua carreira no voleibol brasileiro cumprindo os critérios estabelecidos pelas próprias entidades esportivas e agora está vivendo um momento que impacta diretamente sua carreira e sua vida. No meio de tantas opiniões, discussões e julgamentos, acho importante não esquecer de quem está vivendo tudo isso.”

Na contramão de Gabi e Sheilla, está Tandara Caixeta, medalhista olímpica com a Seleção Brasileira e ex-jogadora que se aposentou em fevereiro deste ano, durante o cumprimento de um terceiro afastamento das quadras por conta de uma condenação por doping. A oposta comentou “Vitória!” em uma publicação da também ex-jogadora Patrícia Borges, que comemorava a decisão do COI e da CBV.

Foto: Reprodução

Vale destacar que Tandara sempre teve um posicionamento contrário à participação de atletas trans no voleibol feminino. No entanto, a ex-atleta teve papel importante na chegada de Tiffany ao Osasco, em 2021, e chegou a entrar em contato com a jogadora para convencê-la a defender o clube paulista.

“Eu fui uma das principais pessoas a ligar para ela e falar: ‘Vem jogar comigo. Vamos jogar junto. Vai ser bacana. Vamos ter essa experiência’.”

Apesar disso, as duas não chegaram a atuar juntas pelo Osasco. Na época da contratação de Tiffany, Tandara cumpria suspensão por doping relacionada aos Jogos Olímpicos de Tóquio, punição que posteriormente foi ampliada e a afastou definitivamente das quadras.





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