O perfil da população em situação de rua mudou em Marília nos últimos anos e passou a reunir, em maior número, moradores do próprio município afetados pela dependência química, egressos do sistema prisional e pessoas com transtornos mentais. A mudança ocorre em meio ao aumento de ocorrências policiais envolvendo furtos, roubos, lesões corporais e perturbação do sossego na região central e impõe à rede pública o desafio de conciliar segurança, assistência social, saúde e garantia de direitos.
A apuração do Marília Notícia, com base em informações da Secretaria Municipal da Assistência Social e Cidadania e nos atendimentos realizados pela rede, aponta que Marília tem, em média, 350 pessoas em situação de rua acompanhadas pelos serviços municipais. Desse total, cerca de 260 possuem vínculos com o município, enquanto aproximadamente 90 são provenientes de outras cidades.
A secretária municipal da Assistência Social e Cidadania, Hélide Maria Parreira, afirma que a população em situação de rua deixou de ser formada majoritariamente por migrantes e pessoas itinerantes.

“Hoje, o perfil que a gente percebe das pessoas em situação de rua mudou muito. Então não é só aquelas pessoas itinerantes aqui pelo município. Nós temos moradores da cidade que se encontram em situação de rua por conta da dependência. Nós temos um número muito alto de egressos do sistema prisional, que encontram muitas dificuldades dessa reinserção social e permanecem em situação de rua. E nós temos muitas pessoas também com transtornos mentais, que encontram dificuldades pra aderir e conseguir o atendimento adequado”, afirmou a secretária.
Segundo a Secretaria Municipal da Assistência Social e Cidadania, cerca de 90% das pessoas em situação de rua atendidas pela rede municipal apresentam dependência química. Conforme a pasta, a condição está entre os fatores associados à permanência nas ruas e às dificuldades de reinserção social.
O levantamento mais recente da secretaria foi elaborado com base no Cadastro Único (CadÚnico) e nos atendimentos registrados pelo Centro POP e pela Casa Cidadã. O número, segundo a pasta, corresponde ao último mês e pode variar com frequência em razão da alta rotatividade desse público.
Mulheres e saúde mental
Outro aspecto identificado pela rede municipal é o aumento da presença de mulheres entre as pessoas em situação de rua. Das cerca de 350 pessoas atualmente identificadas em Marília, aproximadamente 40 são mulheres, segundo a Secretaria Municipal da Assistência Social e Cidadania.

De acordo com Hélide, a maioria dessas mulheres apresenta dependência química e grande parte também convive com comprometimento da saúde mental.
A secretaria, no entanto, ainda não dispõe de dados consolidados sobre a quantidade de pessoas em situação de rua com transtornos mentais. A pasta acompanha a mudança no perfil e pretende realizar um levantamento específico sobre essa condição.
A ausência de um número consolidado também evidencia uma das dificuldades enfrentadas pela rede municipal: identificar as diferentes situações que levam uma pessoa a permanecer nas ruas e articular os serviços necessários para cada caso.
Egressos do sistema prisional
A população em situação de rua também reúne pessoas que deixaram o sistema prisional e enfrentam dificuldades para retomar a vida fora das unidades.

Segundo a pasta, entre janeiro e novembro de 2025 foram atendidos 114 egressos do sistema prisional. Em 2026, o número acumulado de atendimentos a esse público é de aproximadamente 90 pessoas.
A secretaria aponta a reinserção social como um dos principais desafios para esse grupo, especialmente nos casos em que não há estrutura familiar ou outras condições que favoreçam o retorno à vida fora das ruas.
Rede municipal atende cerca de 350 pessoas
O atendimento é realizado por diferentes serviços da rede municipal. O Centro POP oferece atendimento técnico, espaço para higiene pessoal, lavagem de roupas e acompanhamento individualizado.
Já a equipe de Abordagem Social realiza o mapeamento dos locais onde as pessoas em situação de rua permanecem e procura estabelecer vínculos para encaminhá-las aos serviços disponíveis.

A Casa Cidadã funciona como unidade de acolhimento, com dormitórios, alimentação, banho e atendimento técnico. O serviço também atua em conjunto com o Centro POP para identificar cada pessoa, localizar familiares e promover encaminhamentos à rede pública.
A estrutura, portanto, não se limita ao acolhimento. A proposta é identificar as necessidades de cada pessoa e estabelecer uma trajetória de atendimento que envolva os diferentes serviços públicos disponíveis.
Desafio envolve diferentes áreas
Para ampliar a capacidade de resposta da rede, a Prefeitura de Marília contratou uma consultoria especializada, conduzida por um profissional com experiência no Ministério do Desenvolvimento Social, para prestar assessoria às equipes municipais, segundo a secretária.
A proposta é fortalecer a articulação entre as secretarias municipais de Assistência Social, Saúde e Segurança, além do Poder Judiciário e de instituições sociais e religiosas que atuam com a população em situação de rua.
O município também busca orientação junto ao Governo do Estado de São Paulo para revisar e reconstruir as diretrizes locais de atendimento, com integração entre diferentes políticas públicas.
A estratégia parte do reconhecimento de que a situação de rua não se resume a uma única causa ou demanda. Dependência química, rompimento de vínculos familiares, passagem pelo sistema prisional e transtornos mentais aparecem entre as situações identificadas pela rede municipal, exigindo respostas diferentes. A secretária classifica o cenário como um desafio nacional.
Assistência social tem limites legais
A discussão ganha outro contorno diante da cobrança de parte da população pelo recolhimento das pessoas em situação de rua. Nesse ponto, a Prefeitura ressalta que a assistência social possui limites definidos pela legislação.
A política de assistência social é voltada à garantia de direitos, e o acolhimento ocorre de forma voluntária. A pasta não tem atribuição para realizar internações compulsórias ou determinar tratamento forçado de dependentes químicos, segundo Hélide.
O limite entre a atuação da assistência social e a segurança pública também aparece nos casos de ocorrências policiais.
Quando há brigas, agressões ou outras infrações penais na região central ou em qualquer outro local do município, o acionamento das forças de segurança ocorre de forma imediata. Depois da intervenção policial, as equipes da assistência social realizam o atendimento técnico e oferecem os serviços de proteção social disponíveis.
O cenário coloca diferentes políticas públicas diante de uma mesma questão: como garantir atendimento e proteção a uma população cada vez mais diversificada, ao mesmo tempo em que o município lida com ocorrências de segurança e com as cobranças por respostas mais imediatas.
A mudança no perfil identificada pela rede municipal amplia a complexidade do problema e reforça a necessidade de atuação conjunta entre assistência social, saúde, segurança, Justiça e demais instituições que acompanham essa população.





