A inteligência artificial já deixou de ser uma aposta para se tornar um dos pilares da transformação digital do setor público, mas sua consolidação ainda depende de avanços em governança, infraestrutura, talentos e novos modelos de contratação. Essa foi a principal mensagem do painel “Estado Inteligente: Governança de Dados e IA como Infraestrutura Estratégica de Governo”, realizado durante o Seminário Nacional de TIC para a Gestão Pública (Secop 2026), que acontece em Brasília. Ao abrir o debate, o presidente da Etipi (a PROD do Piauí), Ellen Gera, destacou que o desafio atual vai além da adoção de tecnologias. “Precisamos discutir como construir uma infraestrutura permanente para dados e inteligência artificial que permita aos governos servir melhor ao cidadão, de forma integrada, segura e sustentável”, afirmou.
O primeiro passo dessa jornada, no entanto, ainda passa pela organização dos próprios dados públicos. Presidente da Prodemge, Roberto Tostes Reis apresentou a experiência de Minas Gerais com a criação da Base Integrada de Segurança Pública, um projeto de data lake desenvolvido para romper os tradicionais silos de informação entre órgãos públicos. Segundo ele, a iniciativa exigiu a criação de um comitê de governança e a adoção de políticas de segurança da informação e adequação à LGPD, mas o trabalho está longe de estar concluído. “Ninguém hoje pode dizer que tem governança de dados totalmente implantada. Quem disser isso estará mentindo. É um processo contínuo, que precisa evoluir na mesma velocidade das novas tecnologias”, afirmou.
Na mesma direção, Kleber da Silva Lyra, coordenador-geral de TIC da Segod de Roraima, chamou atenção para outro desafio, o de construir uma cultura de compartilhamento de informações dentro do próprio governo. Segundo ele, no estado ainda existem bases mantidas em documentos físicos e uma visão fragmentada sobre a propriedade dos dados. “Precisamos conscientizar os servidores de que os dados não pertencem às secretarias, mas ao governo. A LGPD exige propósito claro para o uso das informações, e isso só funciona quando existe governança, controle de acesso e uma visão integrada do cidadão”, explicou. O estado já trabalha para unificar cadastros e identificar cada cidadão de forma única, embora a gestão e o controle dos acessos ainda estejam em fase de amadurecimento por lá.
Gera direcionou a discussão para a aplicação prática da inteligência artificial e questionou como transformar projetos experimentais em políticas permanentes de governo. O presidente da Prodepa, Fernando Marroquim Junior, defendeu que a IA só se torna infraestrutura quando deixa de ser um piloto isolado para gerar capacidades reutilizáveis por toda a administração pública. “Um projeto homologado precisa deixar legado. Isso significa definir APIs, regras de acesso, padrões de qualidade e formas de compartilhamento dos dados para que o próximo projeto não precise começar do zero”, afirmou. Na avaliação do executivo, a transversalidade dos dados é o que permitirá escalar a inteligência artificial dentro do estado.
Quando questionado sobre a aplicação concreta da IA em Rondônia, Delner Freire, superintendente da Setic-RO, apresentou o projeto Sentinela, criado inicialmente para apoiar o combate aos incêndios florestais. A solução utiliza inteligência artificial para identificar focos de calor, cruzar coordenadas geográficas e direcionar automaticamente as equipes do Corpo de Bombeiros responsáveis pela região afetada, substituindo processos antes realizados manualmente. A iniciativa evoluiu para integrar informações sobre efetivo disponível, rotas de deslocamento e características do terreno. Mais recentemente, incorporou análises preditivas capazes de estimar áreas com maior risco de incêndio e prever a direção de propagação das chamas a partir da adaptação do modelo matemático de Rothermel às características da Amazônia. “Hoje conseguimos antecipar cenários e apoiar decisões operacionais muito antes de o problema chegar ao campo”, destacou.
Capacitação e investimento público
Mas a expansão dessas iniciativas depende de pessoas e recursos. O presidente do Ciasc, Gustavo Madeira da Silveira, falou sobre o desafio. Ele defendeu que atração, cultura organizacional e retenção precisam caminhar juntas. “Além de um plano de carreira competitivo, precisamos oferecer propósito e um ambiente que estimule a inovação”, afirmou. Como exemplo, citou as parcerias com fundações de amparo à pesquisa para incorporar bolsistas de mestrado e doutorado a projetos estratégicos do governo.
Gera provocou o debate sobre financiamento e contratação pública. O presidente da Etice, Hugo Figueirêdo, observou que o modelo adotado pelo Ceará, no qual os órgãos públicos consultam previamente a empresa estadual antes de abrir licitações, garante padronização tecnológica, maior agilidade e redução de custos. Figueirêdo também ressaltou que o Brasil reúne condições favoráveis para atrair investimentos em data centers e reduzir a dependência do processamento de dados no exterior, fortalecendo a soberania tecnológica do País.





