Voltei recentemente de Los Angeles para São Paulo em um voo de quase doze horas. Como acontece comigo em viagens longas, o sono simplesmente não apareceu. Enquanto a maior parte dos passageiros dormia, passei boa parte da madrugada lendo sobre cosmologia. Entre um capítulo de Cosmos, de Carl Sagan, artigos sobre as mais recentes observações do Telescópio Espacial James Webb e entrevistas com físicos, comecei a perceber algo curioso: quanto mais a ciência avançava, menos ela parecia se aproximar de respostas definitivas. Cada descoberta importante não encerrava uma discussão; abria uma nova.
Em determinado momento, fechei o computador e fiquei olhando pela janela. A milhares de metros de altitude, longe das luzes das cidades, as estrelas pareciam menos um espetáculo visual e mais um arquivo do tempo. Algumas daquelas luzes haviam iniciado sua viagem bilhões de anos antes da formação da Terra. Eu não estava observando o presente, mas fragmentos extremamente antigos da história do Universo.
Foi então que uma pergunta surgiu.
E se nunca tivesse existido um Universo?
A provocação parece absurda, mas ela não questiona a existência da realidade. Estrelas existem. Galáxias existem. O espaço existe. A questão é outra. Talvez aquilo que chamamos de Universo nunca tenha sido uma descoberta, mas uma construção intelectual. Talvez “Universo” seja apenas o nome que damos ao melhor modelo que conseguimos criar para explicar uma realidade infinitamente maior do que nossa capacidade de observá-la.
Essa diferença pode parecer apenas filosófica, mas basta olhar para a história da ciência para perceber que ela é profundamente prática.
Durante séculos, acreditamos que o Universo era composto pela Terra, pelo Sol, pela Lua e por uma esfera de estrelas fixas. Depois descobrimos que vivíamos em um sistema solar. Mais tarde percebemos que o Sistema Solar fazia parte da Via Láctea. No início do século XX, entendemos que a Via Láctea era apenas uma entre centenas de bilhões de galáxias. Em nenhum desses momentos a realidade mudou. Andrômeda já estava onde sempre esteve. O espaço já se expandia. As outras galáxias já existiam. O que mudou foi apenas a representação que fazíamos da realidade.
Talvez esse seja o aspecto mais extraordinário da ciência. Costumamos dizer que ela descobre o mundo, quando, na verdade, ela constrói representações progressivamente melhores dele. O trabalho de Hubble não foi aumentar o Universo, mas mostrar que o mapa que utilizávamos era pequeno demais. Da mesma forma, as observações do James Webb não colocaram o Big Bang em xeque; elas mostraram que nossos modelos sobre a formação das primeiras galáxias precisavam ser refinados. A realidade permaneceu exatamente a mesma. Nós é que fomos obrigados a reorganizar nossa forma de compreendê-la.
Dias antes, durante a SIGGRAPH, participei de uma conversa sobre No Man’s Sky, um jogo capaz de gerar aproximadamente dezoito quintilhões de planetas a partir de um conjunto relativamente pequeno de regras matemáticas. A maior parte desses mundos jamais será visitada por qualquer jogador, mas todos obedecem à mesma arquitetura fundamental. Naquele momento, a discussão parecia ser apenas sobre computação gráfica. Durante o voo, porém, ela ganhou outro significado.
Talvez a natureza funcione da mesma maneira.
Hoje sabemos que existem provavelmente mais planetas do que estrelas. Nunca veremos a esmagadora maioria deles e, ainda assim, conseguimos estimar suas órbitas, suas massas e até a possibilidade de abrigarem vida. Não fazemos isso porque observamos diretamente esses mundos, mas porque compreendemos as relações que governam sua existência. A cosmologia nunca precisou enxergar o Universo inteiro para descrevê-lo. Ela precisou construir um modelo suficientemente fiel para explicar aquilo que era observado e prever aquilo que ainda não havia sido visto.
Foi nesse momento que percebi que essa talvez não seja apenas uma lição sobre astronomia.
Ela é uma lição sobre qualquer sistema complexo.
Empresas enfrentam exatamente o mesmo problema. Todos os dias, executivos tomam decisões apoiados em dashboards, indicadores financeiros, ERPs, CRMs, planilhas e relatórios que parecem oferecer uma visão completa do negócio. No entanto, cada sistema descreve apenas uma parte da organização. O marketing conhece o comportamento do cliente. O comercial conhece as oportunidades. A operação conhece os processos. O financeiro conhece os custos. Cada área constrói sua própria representação da empresa, mas quase nunca existe uma representação capaz de integrar todas essas perspectivas em uma única realidade coerente.
Talvez seja por isso que tantas organizações possuam abundância de dados e escassez de entendimento. O problema raramente é falta de informação. O problema é que as relações entre essas informações permanecem invisíveis.
Foi exatamente esse desafio que a cosmologia resolveu ao longo de sua história. Ela deixou de acumular observações isoladas e passou a construir modelos capazes de explicar como diferentes fenômenos se conectam. Não observamos matéria escura diretamente, mas inferimos sua existência pelas relações gravitacionais. Não vemos o Universo inteiro, mas compreendemos sua expansão pelas relações entre galáxias. O conhecimento não nasceu da quantidade de dados disponíveis, mas da qualidade da representação construída a partir deles.
É exatamente aqui que a ontologia deixa de ser um conceito técnico e passa a representar uma mudança de paradigma para as empresas. Uma ontologia não organiza apenas dados; ela organiza significado. Em vez de armazenar informações de clientes, produtos, contratos, processos e ativos como elementos independentes, ela explicita as relações entre eles e transforma uma coleção de registros em uma representação estruturada da realidade da organização.
Essa mudança parece sutil, mas altera completamente a forma como uma inteligência artificial raciocina. Um modelo de linguagem pode responder perguntas sobre documentos isolados. Uma IA baseada em uma ontologia consegue compreender contexto, dependências, impacto e causa, porque sua referência deixa de ser um conjunto de arquivos e passa a ser uma representação do próprio negócio.
Enquanto o comandante anunciava o início da descida para São Paulo, olhei para o mapa do voo exibido na tela à minha frente. Uma pequena seta mostrava nossa posição sobre um planeta desenhado por linhas e coordenadas. Aquilo obviamente não era a Terra. Era apenas uma representação suficientemente boa para cumprir seu propósito.
Foi impossível não perceber que a humanidade faz exatamente a mesma coisa há milhares de anos.
Chamamos essa representação de Universo.
Dentro das empresas, damos outros nomes: processos, arquitetura, modelo operacional ou ontologia.
No fundo, todos descrevem a mesma busca.
Não a busca por mais informações.
Mas a busca por uma representação da realidade que seja suficientemente fiel para permitir compreender, prever e decidir melhor.
Talvez o Universo nunca tenha sido apenas um conjunto de estrelas.
Talvez ele tenha sido o primeiro grande exercício de ontologia da história da humanidade.
Leandro Monteiro é Vice-Presidente da ADVB, Chairman da Virtual Fans, CEO da ClubBrain.ai e Autor de “Ontologia da Decisão Empresarial”
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