Bloomberg — É difícil argumentar que a Copa do Mundo não tenha sido um sucesso — mesmo depois da intervenção sem precedentes do presidente dos EUA, Donald Trump, que colocou em risco a integridade do torneio.
Com a Espanha conquistando seu segundo título mundial no domingo (19), ao derrotar a Argentina por 1 a 0 na prorrogação, o evento esportivo mais lucrativo da história superou todos os obstáculos que surgiram pelo caminho.
A Fifa elevou em cerca de US$ 2 bilhões sua projeção de receita para o ciclo de quatro anos encerrado agora, segundo comunicado divulgado ao fim do torneio, além da estimativa anterior de aproximadamente US$ 9 bilhões relacionada à Copa do Mundo.
Mais de 15 milhões de pessoas passaram, ao longo do torneio, por estádios e áreas de festivais de torcedores, fazendo desta a Copa do Mundo com maior público da história, apesar dos preços recordes dos ingressos.
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Torcedores e seleções visitantes elogiaram os anfitriões americanos, uma mudança bem-vinda diante da deterioração da imagem do país por causa das tarifas, da guerra com o Irã e das políticas de imigração que impediram um árbitro africano e alguns portadores de ingressos de participar do torneio.
Mas a obsessão da Fifa por dinheiro e poder acima de tudo manchou, sem dúvida, o que de outra forma teria sido um torneio marcado pelo clima de celebração. O principal episódio foi a intervenção de Trump em favor de um astro americano suspenso e o processo de decisão subsequente, pouco transparente, que acabou atendendo aos desejos do presidente dos EUA.
No domingo, o meio-campista e capitão da Espanha, Rodri, recebeu o troféu da Copa do Mundo das mãos do presidente da FIFA, Gianni Infantino, e de Trump. Os dois foram alvo de vaias durante a partida, reação intensificada por um episódio específico.
Durante a fase eliminatória, Trump telefonou para Infantino e perguntou se Folarin Balogun, que havia recebido suspensão de uma partida após ser expulso em um jogo contra a Bósnia e Herzegovina, poderia ser liberado para defender os EUA nas oitavas de final contra a Bélgica.
Pouco depois, a comissão disciplinar da Fifa suspendeu a punição por um ano, em uma decisão sem precedentes que permitiu ao atacante americano entrar em campo, apesar das objeções da Federação Belga de Futebol.
A insistência de Infantino de que a comissão era independente foi imediatamente rejeitada pelos torcedores, que apontaram os esforços incessantes do dirigente da Fifa para se aproximar de Trump, incluindo a criação às pressas, no ano passado, de um Prêmio da Paz da Fifa entregue ao presidente dos EUA. Críticos consideraram a sequência de acontecimentos o exemplo mais recente da corrupção profundamente enraizada na Fifa e da capacidade dos EUA de impor sua vontade.
“Acho que eles deveriam demitir o presidente da Fifa ”, afirmou Chloe Ligsay, jogadora de futebol de 22 anos da Califórnia que visitava Nova York vestindo a camisa da seleção masculina dos EUA. “Acho que a política deve ficar fora do esporte.”
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A surpreendente reversão da punição, no entanto, não foi suficiente para salvar os EUA. A equipe teve uma atuação ruim e perdeu por 4 a 1, resultado que impediu que o escândalo ofuscasse completamente o torneio. O episódio serviu de motivação para os belgas, enquanto Balogun admitiu posteriormente que a repercussão da intervenção de Trump foi uma grande distração para a seleção americana.
Depois da derrota dos EUA para a Bélgica, Balogun foi diretamente ao encontro do técnico da seleção belga.
“Ele veio falar comigo. Gostei muito da atitude dele”, afirmou o técnico da Bélgica, Rudi Garcia, em entrevista após a partida. “A culpa não é dele. Ele não é o responsável por isso, e foi exatamente isso que eu disse a ele.”
Esse, porém, não foi o único episódio político que chamou a atenção durante a Copa.
Lionel Messi e outros jogadores da Argentina comemoraram a vitória sobre a Inglaterra na semifinal com uma faixa de um torcedor em apoio à reivindicação argentina sobre as Ilhas Malvinas, o que levou o governo do Reino Unido a pedir uma investigação da Fifa. Os dois países travaram uma guerra pelo arquipélago no Atlântico Sul em 1982.
O técnico do Egito foi visto erguendo e agitando a bandeira da Palestina após a vitória sobre a Austrália. Já a seleção do Irã reclamou duramente por ter de viajar de avião entre o México, onde estava concentrada, e os EUA a cada dia de jogo, em razão das sanções americanas.
Mais dinheiro, mais problemas
Apesar do enorme sucesso comercial da edição deste ano, a FIFA enfrenta muitas dúvidas sobre o futuro. O novo formato com 48 seleções, considerado grande demais por muitos, produziu histórias marcantes de equipes azarãs, com sete países alcançando a fase eliminatória pela primeira vez. Infantino já levantou a possibilidade de ampliar ainda mais a Copa do Mundo para 64 seleções em 2030.
Ainda assim, não está claro qual é o melhor caminho para a Copa do Mundo. O torneio já atingiu dimensões gigantescas, com 104 partidas disputadas ao longo de 39 dias. Os jogadores criticam cada vez mais a quantidade de jogos que a Fifa, as ligas nacionais e as confederações continentais exigem que disputem.
Os torcedores também demonstram crescente cansaço com a prioridade dada aos ganhos financeiros. Pela primeira vez na história da competição, a Fifaadotou preços dinâmicos para os ingressos da Copa do Mundo, sistema que ajusta automaticamente os valores conforme a demanda em tempo real e a disponibilidade de entradas. O resultado foram preços recordes.
“Tenho sentimentos contraditórios em relação à Fifa”, afirmou Asad Hussain, torcedor de Nashville, durante a primeira semifinal entre França e Espanha. “Sinceramente, acho que a organização da Copa do Mundo é boa, mas os preços dinâmicos, os problemas com ingressos e as questões de visto dificultaram muito para muita gente conseguir assistir aos jogos.”
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A Fifa conseguiu extrair receita de praticamente todos os aspectos desta Copa do Mundo.
Além de ficar com parte das vendas de alimentos e bebidas nos estádios e da revenda de ingressos, a entidade passou a vender até pedaços do gramado onde foi disputada a final entre Argentina e Espanha. Por US$ 3.000, o comprador recebe um pequeno fragmento do gramado preservado em resina e um troféu da Copa do Mundo em vidro lapidado.
A entidade também encontrou formas de garantir receitas ainda maiores no futuro.
As controversas “pausas para hidratação”, que interromperam as partidas desta edição, foram alvo de fortes vaias dos torcedores. Embora a Fifa afirme que a decisão teve como única motivação preservar o bem-estar dos jogadores em um torneio disputado sob calor extremo, as interrupções também deram aos detentores dos direitos de transmissão — como a Fox, nos EUA — mais tempo para vender publicidade.
Algumas estimativas indicam que um comercial de 30 segundos durante a Copa do Mundo costuma ser vendido por valores entre US$ 250 mil e US$ 750 mil, dependendo da fase do torneio, do confronto e da audiência esperada. Com duas pausas para hidratação por partida, as emissoras ganhariam oito novos intervalos publicitários de 30 segundos durante o jogo — um total de 832 novos espaços ao longo de um torneio de 104 partidas.
Esse inventário adicional de publicidade poderia gerar quase US$ 500 milhões, dependendo dos prêmios e das tarifas médias praticadas, compensando potencialmente mais da metade do valor que a Fox teria pago pelos direitos de transmissão do torneio. Isso, por sua vez, significa que a Fifa poderá arrecadar somas ainda maiores na próxima rodada de venda dos direitos de mídia. A entidade já iniciou discretamente a comercialização dos direitos da Copa do Mundo de 2030.
“Tínhamos expectativas elevadas”, afirmou Cesar Conde, presidente do NBCUniversal News Group — que adquiriu os direitos de transmissão em espanhol da Copa do Mundo nos EUA — durante um evento do setor de mídia. “Mas acho que nem nos nossos maiores sonhos imaginávamos encontrar uma base de torcedores tão apaixonada aqui nos EUA.”
O crescimento das receitas reduz os incentivos para que a entidade e seus membros mudem de rumo, apesar do aumento da insatisfação entre torcedores e jogadores. Uma ampliação para um torneio com 64 seleções agravaria os desafios logísticos da Copa do Mundo de 2030, que será disputada em seis países-sede. Mas isso também significaria mais dinheiro para todos, fortalecendo, em última instância, a posição de Infantino.
Cada associação filiada tem direito a um voto em decisões como o futuro de Infantino. O dirigente, alvo de críticas, deve concorrer sem adversários à reeleição em março de 2027.
A Fifa reúne 211 associações nacionais, que receberam, em conjunto, US$ 2,25 bilhões da entidade nos últimos três anos. Além disso, a receita obtida com a classificação para uma Copa do Mundo pode representar um impulso importante para países menores.
Cabo Verde arrecadou cerca de US$ 12 milhões com sua campanha no torneio, um reforço financeiro essencial para um país de aproximadamente 530 mil habitantes que não conta com um único campo de futebol com gramado natural.
“Queremos gerar mais receitas, e precisamos gerar mais receitas, porque, na maior parte do mundo — em 80% dele —, se nós não investirmos, se nós não acreditarmos, ninguém acreditará”, afirmou Infantino em comunicado divulgado no sábado. “Caso contrário, os recursos continuarão concentrados em poucos países grandes, e permaneceremos como estamos.”
Na véspera da final da Copa do Mundo, a Fifa afirmou que “mais de 200 associações filiadas” haviam declarado apoio à candidatura de Infantino à reeleição.
Prioridades em conflito
Um dos principais objetivos da Fifa é expandir o futebol pelo mundo, e a entidade investe bilhões de dólares nisso.
Ainda assim, cresce entre os torcedores a desconfiança de que os interesses financeiros passaram a prevalecer sobre os esportivos, a ponto de até mudanças nas regras destinadas a tornar o jogo mais justo despertarem controvérsia e carregarem um componente comercial.
A torcida em Toronto explodiu em comemoração nos minutos finais da partida das fases eliminatórias da Copa do Mundo disputada em 2 de julho, quando o croata Joško Gvardiol mandou a bola para o fundo das redes e empatou o jogo contra Portugal.
A euforia, porém, durou pouco. Embora o gol parecesse absolutamente válido para quem assistia à partida, ele foi anulado depois que um sensor instalado na bola detectou um toque microscópico na cabeça ou no cabelo de um companheiro de equipe, caracterizando impedimento.
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Após o jogo, a seleção croata classificou a decisão como um “abuso da tecnologia”, enquanto críticos manifestaram preocupação de que os recursos tecnológicos criados para ajudar o futebol estejam causando mais prejuízos do que benefícios ao esporte.
Para a Fifa, porém, o episódio não representa um problema. Pelo contrário: é uma oportunidade de gerar receitas, como parte de sua estratégia de transformar o futebol por meio de um forte investimento em inteligência artificial, visão computacional e outras tecnologias. A entidade já coletou mais de 150 milhões de pontos de dados por partida e agora estuda formas de comercializar essas informações.
“Há um potencial comercial significativo”, afirmou Romy Gai, diretor de negócios da Fifa, em entrevista.
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