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O custo da última milha no interior profundo

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A literatura tradicional sobre o e-commerce e a eficiência logística costumeiramente celebra um cenário quase utópico: frotas elétricas leves, entregas no mesmo dia e adensamento populacional que otimiza as rotas digitais. No entanto, quando transferimos essa discussão para o interior profundo do Brasil, a realidade operacional impõe variáveis físicas brutas que os manuais estrangeiros não preveem.

Segundo o Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), os custos logísticos no país consumiram 15,5% do PIB em 2025, totalizando R$ 1,96 trilhão. Quando isolamos as regiões Centro-Oeste e Norte, a pressão sobre as margens é severa: a Confederação Nacional do Transporte (CNT) aponta que apenas 12,3% da malha rodoviária nacional é pavimentada. Nesse cenário, a eficiência da última milha não é uma métrica de vaidade; é a linha tênue entre o lucro e o prejuízo.

Para romper essa barreira geográfica, os grandes marketplaces mudaram a estratégia da centralização para a pulverização regional. O Mercado Livre, por exemplo, consolidou sua presença no Centro-Oeste com o Centro de Distribuição em Hidrolândia, na Grande Goiânia, integrando um complexo que abriga gigantes como Amazon e Shopee.

O objetivo é aproximar o estoque físico do consumidor final para reduzir o custo do frete interestadual. A inteligência de dados aplicada à cadeia de suprimentos permitiu que essas empresas passassem a utilizar frotas aéreas cargueiras em parceria com operadoras nacionais como a GOL (por meio da GOLLOG) e a Azul. Na região Norte, o impacto direto dessa multimodalidade foi a redução do prazo de entrega de 15 dias para apenas 48 horas em polos como o Amazonas.

No entanto, o desafio do abastecimento no interior não é exclusividade do ecossistema digital. O varejo físico de alto giro e o atacarejo regional enfrentam exatamente a mesma precariedade de infraestrutura para garantir a reposição diária de gôndola.

Se o marketplace lida com o custo de entrega do pacote individual, o operador de loja física lida com o custo invisível do frete retorno vazio de carretas bitrem e a obsolescência de perecíveis em rotas isoladas que cruzam os eixos da BR-153 ou da BR-010.

Na minha experiência liderando a tecnologia da operação na região, o grande nó logístico a ser desatado sempre foi a visibilidade do estoque em trânsito diante do apagão de conectividade nas estradas. Para mitigar o impacto desse isolamento geográfico no abastecimento, a virada de chave está em cruzar as janelas reais de descarga no PDV com ordens de coleta automatizadas nas indústrias parceiras instaladas na rota de volta.

O uso de modelos preditivos para planejar esse fluxo de carga reversa permite sincronizar as duas pontas da cadeia, gerando uma redução de até 14% no índice de frete retorno vazio da frota e protegendo diretamente a rentabilidade da operação.

Essa inteligência preditiva também transformou a gestão de categorias nas lojas de fronteira. Encarar o abastecimento de um polo regional exige entender que o sortimento deve ser calibrado pelo custo do deslocamento.

Os algoritmos de previsão de demanda calculam o tempo de tráfego elástico dos modais rodoviário e fluvial de acordo com a sua sazonalidade física – como a época de cheias e secas dos rios no Norte. O sistema antecipa os pedidos semanas antes da ruptura acontecer na área de vendas, calculando o peso e o volume exato do palete para otimizar o custo por tonelada-quilômetro (t.km).

O diretor de e-commerce ou o VP de operações que busca eficiência no interior precisa entender que o investimento em tecnologia não serve para automatizar processos burocráticos, mas para absorver os custos que a falta de asfalto impõe ao negócio. No interior profundo, a diferença entre o frete que viabiliza a venda e o frete que destrói a margem líquida é decidida pela inteligência do sistema que coordena os modais, e não pelo modal em si.

Imagem: Shutterstock

 



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