Bloomberg Línea — A edição de 2025 da Maratona do Rio foi, segundo seus organizadores, a mais bem-sucedida desde que a prova foi retomada em 2003. Foram 66.437 inscritos e 57.932 concluintes ao longo dos quatro dias de evento, com 75% dos participantes vindos de fora do município do Rio de Janeiro. Agora, a Dream Factory, empresa responsável pela organização do evento, quer dar um passo além e transformar a prova numa referência internacional.
No horizonte mais ambicioso, integrar o seleto grupo das World Marathon Majors, que reúne, a partir deste ano, 8 maratonas – Tóquio, Boston, Londres, Berlim, Chicago, Nova York, Sidney e, mais recentemente, a de Cidade do Cabo, na África do Sul.
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O desejo de entrar para o seleto não vem de hoje, mas o despertar para um movimento mais firme veio no ano passado, quando a consultoria britânica Brand Finance publicou um ranking das 50 maratonas mais valiosas do mundo e colocou o Rio em 11º lugar — à frente da Maratona de Chicago. O resultado funcionou como um sinal de largada para uma estratégia mais ativa de posicionamento global.
“Isso acendeu o alerta de que era hora de remarmos essa onda que é favorável para nós. Não podemos ficar passivos nesse processo, e sim construir um plano de ação”, afirmou Duda Magalhães, presidente da Dream Factory em entrevista à Bloomberg Línea. “Nós iniciamos um processo de nos colocarmos para o mundo e conversar com organizadores e outras provas”.
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Este ano, pela primeira vez na América do Sul, a equipe da World Marathon Majors visitou uma prova da região. Os representantes da organização estiveram no Rio para conhecer o evento de perto — um gesto que Magalhães interpreta como interesse genuíno, ainda que carregado de cautela institucional.
A própria CEO da entidade, Dawna Stone, enviou uma mensagem após a prova, descrevendo a visita como uma parceria voltada à colaboração e ao aprendizado, e não como uma candidatura formal. Na mesma semana, ele anunciou a maratona de Cidade de Cabo, a capital sul-africana, como a mais nova Major e a primeira no continente africano.
“O Rio de Janeiro não é uma cidade candidata ainda. Nós estamos nos colocando para sermos considerados quando e se uma vaga for aberta”, diz Magalhães, sobre a anseio de uma posição de major na América Latina. Caso o convite chegue, o processo de avaliação dura três anos. Inclui uma primeira edição de diagnóstico, seguida de duas de avaliação, antes da decisão final.
Os ajustes operacionais identificados pelos representantes da World Marathon Majors durante a visita não foram detalhados publicamente, mas Magalhães garantiu que todos foram descritos pela entidade como “factíveis”.
No plano prático, a internacionalização da maratona do Rio passa por ações mais imediatas. A Dream Factory pretende marcar presença nas feiras das principais maratonas do mundo — Nova York, Berlim, Boston — para divulgar a prova diretamente nos mercados emissores.
A prova também tem investido em outras frentes como aumentar a premiação aos vencedores, que chegou a US$ 270 mil (cerca de R$ 1,3 milhão) para a maratona e se tornou a maior na América Latina. A estratégia procura atrair mais corredores de elite para os país.
Hoje, os corredores estrangeiros representaram cerca de 8% dos participantes desta edição, com Argentina e Chile como principais origens. O mercado americano é visto como o maior potencial de crescimento, especialmente com o câmbio favorável ao dólar.
A maratona, na percepção do executivo, é o principal vetor para atrair esse corredor e a trajetória de crescimento da prova. Enquanto as distâncias de 5 km, 10 km e 21 km já operam perto de sua capacidade máxima, a maratona completa — que reuniu 14.260 concluintes nesta edição — ainda tem espaço para crescer.
A ambição de virar Major, no entanto, pode exigir ajustes na estrutura atual do evento. Hoje realizada em quatro dias consecutivos — 5K na quinta, 10K na sexta, 21K no sábado e 42K no domingo —, a Maratona do Rio pode vir a redistribuir parte do calendário para garantir que a maratona completa receba toda a atenção operacional necessária.
Entre as opções, aponta a possibilidade de mover alguma prova para o fim de semana anterior. Segundo ele, qualquer mudança nessa direção visa ampliar o festival, como o evento é chamado internamente, e não diminuir. “Não é reduzir a festival. Isso é um diferencial da Maratona do Rio para o mundo”, afirmou.
A maratona da Dream Factory
Os números desta edição servem para ilustrar um percurso em que a maratona do Rio se tornou a prova mais desejada do país, ao transformar o evento esportivo em um festival, aproveitando a experiência no universo do entretenimento, ao contar com shows e ativações ao longo dos quatro dias.
Além da vertical de esporte, que representa 20% da receita, a companhia está por trás de eventos como o carnaval de rua do Rio de Janeiro, e a ArtRio, feira internacional de arte, e administra a Marina da Glória, e tem outros negócios em marketing de experiência e tiqueteria etc.
O impacto econômico medido pela FGV chegou a R$ 711 milhões – um ano antes, a movimentação foi calculada em R$ 587,4 milhões na economia do Rio de Janeiro. Segunda a organização, os valores não podem ser comparados devido a mudanças na composição dos cálculos.
Mais de 160 mil pessoas circularam pelo evento ao longo dos quatro dias, entre corredores, acompanhantes, turistas e público em geral. A taxa média de ocupação hoteleira na cidade durante o feriado de Corpus Christi chegou a 80,32%, segundo a ABIH-RJ.
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A prova pulou 36 mil participantes em 2023 para quase o dobro de participantes em 2026. No ano passado, quando o número de inscritos chegou a 60 mil inscritos, incluindo todas as distâncias – das provas de 5 km e 10 km até a meia-maratona e a maratona -, as reclamações sobre filas extensas com horas de espera para a retirada de kits, falta de medalha no percurso de 5km e críticas à forma de venda de inscrição se avolumaram em redes sociais na edição, panorama diferente do cenário deste ano.
“Quando você está em um mercado que cresce e o seu produto, no caso a Maratona do Rio, cresce também, é intrínseco que você tenha um mindset aberto para ajustes. Tem episódios e temas que não funcionaram e você precisa reconhecer e ajustar mesmo”, afirma Magalhães.
Apesar dos elogios à última edição, o executivo já tem um ponto de atenção para 2027, que é a aglomeração de apoiadores e torcedores nos quilômetros finais das provas.
“Há alguns anos, isso era inimaginável. Agora, nós precisaremos ordenar melhor aquela parte final para preservar a pista para os atletas terem segurança. Esse processo evolutivo que é o grande barato da história”, diz.





