Bloomberg Línea — Enquanto observa o movimento de carros e de pessoas em Karlskoga, cidade localizada no centro-oeste da Suécia, Hans Albrektsen Wahlstedt narra um detalhe que se tornou uma espécie de termômetro da nova realidade da indústria de defesa do país: é cada vez mais difícil encontrar uma vaga nos estacionamentos da cidade.
“Isso é um sinal do que está acontecendo nesta cidade e nesta indústria”, disse Wahlstedt, diretor da Saab responsável pela Dynamics, área de negócios da companhia dedicada, entre outros segmentos, à defesa terrestre e a sistemas de mísseis, durante visita de um grupo de jornalistas, incluindo a Bloomberg Línea, às operações da companhia em Karlskoga na Suécia.
A cena narrada por Wahlstedt contrasta com as suas lembranças de infância. Ele nasceu em Karlskoga em 1985 e conta que cresceu em uma cidade moldada pela indústria militar sueca, mas que viu a demanda encolher com o fim da Guerra Fria. Na época, lembra, os estacionamentos das fábricas ficavam a cada dia mais vazios.
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“Eu passava de bicicleta por essa área indo para os treinos de natação. A cada ano, os estacionamentos ficavam mais vazios”, afirmou.
Mas, nos últimos anos, o cenário da indústria de defesa mudou. O maior movimento nas ruas da pequena Karlskoga, cidade com cerca de 30 mil habitantes, acompanha a expansão da Saab, uma das principais fabricantes de equipamentos militares da Europa, que tem se beneficiado do movimento de rearmamento do continente nos últimos anos, sobretudo após a invasão russa da Ucrânia.
A Saab tem atualmente cerca de 2.600 funcionários em Karlskoga e mobiliza aproximadamente 4.000 pessoas na região, considerando o ecossistema formado por fornecedores, universidades e outros parceiros.
Somente na cidade, a companhia mantém cerca de 60 projetos em andamento, entre reformas, ampliações e novas construções.
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“O número de guindastes provavelmente não era tão grande em Karlskoga havia décadas”, disse Wahlstedt.
A cidade também abrigou durante décadas a sede da Bofors, tradicional fabricante sueca de armamentos. Após a redução dos gastos militares no Ocidente, a companhia foi dividida.
A Saab ficou com as áreas relacionadas a sistemas de combate e mísseis, enquanto o negócio de armas pesadas e artilharia foi vendido em 2000 e posteriormente incorporado pela BAE Systems.
A operação da Saab em Karlskoga está ligada à área de negócios Dynamics, que reúne soluções terrestres, treinamento e simulação, sistemas de camuflagem e outros sistemas de defesa. No último balanço financeiro divulgado pela empresa, que considera o acumulado de 12 meses até março de 2026, Dynamics aparece, atrás de Surveillance, entre as maiores áreas da companhia em receita.
A Saab é dividida em quatro áreas de negócios: Aeronautics, que inclui os caças Gripen; Dynamics, dedicada a sistemas terrestres, mísseis, treinamento e simulação; Surveillance, que reúne radares, sensores e sistemas de vigilância; e Naval, voltada a submarinos, embarcações de superfície e soluções navais.
Ucrânia amplia demanda
A invasão russa na Ucrânia, em 2022, e a entrada da Suécia na Otan, em 2024, serviram como um ‘wake up call’ para o aumento de capacidades da indústria militar, segundo disseram executivos da companhia.
Após décadas de redução de estoques de armamento no continente europeu, governos passaram a rever suas estratégias e a planejar capacidades compatíveis com conflitos convencionais mais prolongados.
“Em vez de ter o que era necessário para operações como as realizadas no Afeganistão, agora os países precisam se preparar para a guerra”, afirmou Wahlstedt.
Bo Torrestedt, consultor sênior de desenvolvimento de negócios do grupo Saab, disse que a prioridade dos clientes também mudou.
“Hoje, os compradores realmente querem adquirir equipamentos. A primeira pergunta é: qual é o prazo de entrega? Depois vêm o preço e os outros fatores”, afirmou, em coletiva com jornalistas.
Com novas guerras no horizonte, também aumenta a necessidade por entregar os produtos o quanto antes.
A Ucrânia anunciou recentemente a intenção de adquirir um lote inicial de 20 caças Gripen E/F. Em paralelo, o governo sueco propôs a doação de até 16 aeronaves Gripen C/D de sua frota atual, condicionada à assinatura do acordo de compra e à autorização do Parlamento do país.
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A Saab informou que não recebeu pedidos formais até o momento, mas participará das negociações para apoiar tanto a aquisição das aeronaves quanto o processo de reposição dos aviões que serão transferidos pela Suécia.
O aumento da demanda não se restringe à aviação militar. A divisão Dynamics ajuda a dimensionar a expansão da companhia para além do Gripen.
A área registrou receita de 20,7 bilhões de coroas suecas (R$ 11,1 bilhões) em 2025, equivalente a pouco mais de um quarto das vendas totais da Saab no ano. Ao fim de março de 2026, sua carteira de pedidos alcançava 90,8 bilhões de coroas suecas (R$ 48,8 bilhões), perto de um terço do backlog do grupo, de 274,1 bilhões de coroas suecas (R$ 147,36 bilhões).
Segundo executivos da empresa, a Dynamics encerrou janeiro com cerca de 5.000 funcionários e já se aproximava de 5.400 trabalhadores em maio. E mais contratações seguem previstas.
A área de Surveillance também vem ganhando relevância dentro da Saab e já figura entre as principais frentes de negócios da companhia. A divisão somava cerca de 10.100 funcionários equivalentes em tempo integral em 2025 e respondeu por 34% das vendas do grupo no ano.
Uma das soluções de destaque é o GlobalEye, sistema focado em vigilância aérea equipado com radares e sensores capazes de monitorar simultaneamente ameaças no ar, em terra e no mar.
O produto tem despertado interesse de países europeus e integrantes da Otan, segundo executivos da Saab.
Os Emirados Árabes Unidos já receberam cinco unidades do GlobalEye. A Suécia contratou três aeronaves, com a primeira entrega prevista para 2027.
A França, por sua vez, encomendou duas unidades, com opção para adquirir outras duas.
Ao todo, a Saab já entregou mais de 30 sistemas de vigilância aérea AEW&C baseados em quatro plataformas diferentes. A empresa prepara uma ampliação da capacidade para entregar até quatro unidades do GlobalEye por ano e projeta mais de 40 sistemas AEW&C na próxima década.
Atualmente, o processo de integração do sistema a uma aeronave leva cerca de dois anos, segundo funcionário da companhia.
Cadeia de fornecedores se torna gargalo
O desafio da indústria europeia de defesa, porém, não está apenas dentro das fábricas.
A cadeia de suprimentos se tornou um dos principais gargalos para o setor. A Saab, por exemplo, depende da expansão simultânea de fornecedores de componentes, matérias-primas e insumos especializados.
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“Mesmo que aumentemos a capacidade da fábrica, também precisamos garantir as entregas dos fornecedores”, afirmou um executivo do grupo.
No relatório do primeiro trimestre, a própria Saab reconheceu que opera em um ambiente de oferta restrita. Para reduzir riscos, a companhia disse que mantém diálogo próximo com fornecedores e adota medidas como a formação seletiva de estoques de componentes considerados críticos.
Parte do desafio também está na própria natureza da produção. Durante visitas às linhas industriais da Saab, a Bloomberg Línea observou que algumas etapas ainda são realizadas manualmente, reflexo do nível de especialização exigido pela fabricação e pela montagem de equipamentos que precisam garantir segurança no uso final.
Além dos armamentos, a procura por radares da companhia também aumentou. Para acompanhar esse movimento, a Saab acelerou a produção do Giraffe 1X, radar 3D compacto e móvel utilizado para vigilância aérea em tempo real e para a detecção de ameaças como drones.
O sistema pode ser integrado a plataformas terrestres e navais e também atua em missões de defesa aérea e monitoramento marítimo.
Segundo executivos da companhia, a Saab produziu 100 unidades do modelo em todo o ano passado. Nos primeiros seis meses deste ano, a produção já superou 200 radares.
Em outubro de 2025, a empresa firmou um contrato para fornecer sistemas Giraffe 1X ao Exército dos Estados Unidos.
Negócios da guerra impulsionam receita
No primeiro trimestre de 2026, a Saab registrou receita de 19,2 bilhões de coroas suecas (R$ 10,32 bilhões), alta de 21% na comparação anual. O crescimento orgânico das vendas foi de 23,6%.
O lucro operacional avançou 32% no período, para 1,9 bilhão de coroas suecas (R$ 1,02 bilhão). A carteira de pedidos alcançou 274,1 bilhões de coroas suecas ao fim de março, crescimento de 45% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A Suécia respondeu por 41% dos pedidos registrados pela companhia no trimestre. Os demais 59% vieram de mercados internacionais.
Todas as áreas de negócios registraram crescimento de receita de dois dígitos no período. A divisão Surveillance, responsável por soluções como radares e sistemas de vigilância, teve um dos desempenhos mais fortes, com alta de 32% nas vendas.
A expansão também aparece no quadro de funcionários. Ao todo, a Saab possui atualmente cerca de 29 mil empregados, ante aproximadamente 25 mil um ano antes.
Segundo executivos da companhia, a empresa também está entre as maiores empregadoras de engenheiros da Suécia.
“Quando você olha os números, é quase como se fôssemos uma startup”, afirmou um dos executivos do grupo.
Além dos projetos em Karlskoga, a empresa afirma que tem buscado ampliar sua estrutura industrial em outras cidades suecas, nos Estados Unidos e na Índia.
Em algumas linhas de produção, a capacidade foi multiplicada por quatro nos últimos anos, segundo executivos da companhia.
O avanço ocorre por meio de novas instalações, contratação de pessoal, automação e adoção de novos métodos produtivos, segundo os executivos da empresa.
A Saab nasceu em 1937, em um contexto de maior tensão internacional que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Na época, o governo sueco buscava reduzir a dependência externa e desenvolver uma indústria nacional capaz de fornecer aeronaves à Força Aérea.
A companhia tem como principal acionista a Investor AB, holding ligada à família Wallenberg, um dos grupos empresariais mais influentes da Suécia. A empresa detém cerca de 30% das ações da Saab.
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