Inicialmente uma pauta estritamente ambiental, a agricultura regenerativa ganhou relevância econômica nas fazendas e nas empresas da cadeia de alimentos. Mas, para se tornarem mais populares, essas práticas têm enfrentado um obstáculo no dia a dia no campo: a qualificação dos técnicos agrônomos.
Esses profissionais, que em tese deveriam orientar a agenda de transição, muitas vezes têm sido adversos a ela, travando a adesão das práticas regenerativas numa escala mais ampla. A necessidade de sanar esse gargalo na formação dos engenheiros agrônomos foi um dos temas debatidos durante o AGRO 360º, evento promovido por uma parceria entre The AgriBiz e Brazil Journal, na semana passada.
Para Pelerson Dalla Vecchia, o Peleco, CEO do Grupo Roncador, e Luis Barbieri, cofundador e CEO da Raiar Orgânicos, ainda impera no setor um cenário de técnicos desincentivando, por preconceito ou desconhecimento, que seus clientes adotem práticas ou comprem bioinsumos.
“Hoje, diferente de seis anos atrás, é o produtor quem nos procura querendo saber como faz. Você vê o olho brilhando com a perspectiva do pacote tecnológico. Mas ao lado dele tem um agrônomo normalmente falando assim: ‘não vai dar certo’”, disse Barbieri.
Peleco, amplamente reconhecido pelo pioneirismo na adoção em larga escala de práticas regenerativas na agricultura e na pecuária, concorda. “Precisava uma evolução na educação. São professores de 30 anos atrás ensinando a mesma coisa”, disse. “Ainda saem da faculdade muitos dizendo que ‘bom mesmo era passar herbicida em tudo’, e eu respondo que ‘bom mesmo é não fazer, ou só onde precisa’.”
Se isso se aplica ao básico, ponderou Peleco, que dirá para temas na fronteira da vanguarda tecnológica, como o uso de pó de rocha para recuperar solos degradados — uma das apostas do grupo Roncador.
Engenheira agrônoma de formação, Beatriz Domeniconi, especialista em Agro ESG do Itaú BBA, concordou com a questão da formação — embora defenda que se evite um clima de polarização.
“Existe sim um pré-conceito desde o início do processo de educação. Não algo maldoso, mas uma falta de conexão. Fiz a graduação em um período em que o tema de sustentabilidade era muito pouco falado. A gente não tem o direito de não ter um olhar amplo, é preciso sair desse ‘Fla-Flu’ de ou 100% com veneno, ou 100% sem.”
Para Barbieri, uma maior adoção de práticas regenerativas é chave para a soberania da agricultura brasileira, dada a histórica dependência do País de fertilizantes e defensivos químicos importados.
“Sempre enfrentaremos barreiras não tarifárias. Uma vez é desmatamento, na outra, o pesticida químico, que na agricultura tropical precisa usar mais, ou o antibiótico. Isso exige que, na competição global, a gente seja sempre mais eficiente.”
Essa eficiência, ele defende, não virá dos químicos, já que, segundo ele, o aumento na aplicação de fertilizantes tradicionais (11%) foi maior que o ganho de produtividade (7%) nos últimos 20 anos.
“A agricultura tropical responde muito melhor a esse pacote tecnológico. Isso é uma vantagem competitiva: com esse novo modelo, seremos imbatíveis. Não se faz do dia para a noite, é um processo evolutivo, mas é urgente.”
Avanços no mercado financeiro
Se na formação ainda há um longo caminho a ser percorrido, no setor financeiro a agricultura regenerativa já ganhou aderência.
“O setor financeiro já consegue identificar que produtores que adotam essas práticas têm uma segurança e uma previsibilidade maiores. E tudo isso de certa forma reflete na condição de crédito deles”, disse Domeniconi.
Segundo ela, três fatores vêm inserindo a pauta na agenda do mercado. Um deles é a tecnologia, “que permitiu mensurar de forma mais precisa os impactos”. O segundo é a recorrência de eventos climáticos adversos, evidenciando que “quem adota essas práticas tem sentido talvez um menor impacto”. E o terceiro é um senso de que “o mercado, de forma ainda tímida, tem dado sinais de valorização para quem adota”.
Peleco confirmou o diagnóstico. Mas ponderou que diante do patamar elevado da taxa básica de juros, mesmo as linhas beneficiadas ainda estão caras para o produtor.
“A gente tem algumas boas linhas. O problema é a condição atual de juros; o bom não é tão bom assim, e, se tudo der certo, a conta é apertada.”
Domeniconi, do Itaú BBA, ponderou que grandes fontes de blended finance para quem adota práticas regenerativas, como o EcoInvest, precisam de aprimoramento para atingirem a pulverização esperada.
“O EcoInvest é uma baita iniciativa. Está chegando na ponta? Sim, o dinheiro está acontecendo, há diversos bancos envolvidos e uma mobilização grande. Mas é um programa complexo com a questão de critérios e contrapartidas. Por exemplo, exige que 15% da força de trabalho nos projetos seja feminina. O agro é um setor complexo, são questões estruturais que muitas vezes precisam ser contornadas.”





