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SpaceX: quem vai rir por último?

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Num recente episódio do podcast Pivot, Scott Galloway dedicou alguns minutos a demolir o IPO da SpaceX com a delicadeza de uma britadeira. Num recorte que viralizou esta semana, depois de vários comentários jocosos o professor midiático da NYU terminou sua análise do prospecto da oferta com um sarcástico “this feels a little bit…Ayahuasca”.

Enquanto Galloway fazia a plateia gargalhar, a SpaceX recuperava mais um booster, pousando um foguete de ré na plataforma de lançamento – algo que parecia ficção científica até poucos anos atrás – e 10 milhões de assinantes usavam a internet de banda larga da Starlink por meio de uma rede de 9.600 satélites.

Goste ou não de Elon Musk, é difícil discutir com a física. 

O homem está produzindo e aplicando ciência de ponta, altamente complexa, na criação de produtos que estão transformando o mundo e a vida das pessoas.

Em 2010, quando o Falcon 9 fez seu primeiro voo, o custo para se colocar um quilograma em órbita girava em torno de US$ 18.500. Era o preço de uma indústria protegida por contratos governamentais gordos e condenada à mediocridade.

O Falcon 9, com seu estágio reutilizável, reduziu esse custo em quase 10x.

Agora, quando o Starship – o sistema composto pelo Super Heavy (o booster, o maior foguete já construído) e pela Spaceship – entrar em operação plena, a projeção, ambiciosa, é de mais uma redução de ordens de magnitude. Se isso se confirmar, o custo por quilograma em órbita poderá ser cerca de 1% do que era há quinze anos.

Pense no que aconteceu com a banda larga quando o custo do megabyte trafegado caiu 100 vezes. Ou com o armazenamento de dados. Ou com a sequenciação genética. Quando o custo de algo cai 100 vezes, não se faz a mesma coisa mais barato — fazem-se coisas que antes eram literalmente impossíveis.

O próximo passo da Starlink é ainda mais disruptivo: os satélites de nova geração têm capacidade de “Direct to Cell”, ou seja: seu celular vai funcionar no meio do Atlântico, na floresta Amazônica e no topo do Everest.

As operadoras de telefonia do mundo inteiro terão que pagar à Starlink por este serviço. A SpaceX está construindo, silenciosamente, uma camada de infraestrutura sobre a qual boa parte da comunicação móvel do planeta dependerá.

Tem mais.

A empresa planeja lançar satélites dedicados à computação de inteligência artificial. A ideia é posicioná-los em órbitas sincronizadas com o sol, aproveitando a abundância de energia solar e o ambiente espacial para dissipação de calor. É uma tentativa de reinventar o data center para uma era em que a principal restrição da AI deixou de ser o software e passou a ser a disponibilidade de energia.

O que torna a SpaceX diferente não é apenas uma tecnologia específica, mas também uma posição de plataforma em um mercado ainda pouco conhecido. Qualquer oportunidade de negócio que a exploração espacial revelar nos próximos anos, a SpaceX estará melhor posicionada para explorá-la do que qualquer outro player.

Satélites militares? A empresa já é o maior prestador de serviços do Pentágono.

Internet para os próximos dois bilhões de usuários que ainda não têm acesso? Starlink.

O grande risco da SpaceX é tudo isso depender de um único homem. Ele é a visão, a cultura e tem a capacidade de atrair engenheiros excepcionais dispostos a trabalhar com a intensidade de quem acredita estar salvando a civilização. Sem ele, a empresa é inimaginável.

Por mais genial e enérgico que seja, Musk também está no centro da Tesla (com seus próprios desafios monumentais), da Neuralink, da Boring Company e de empresas que hoje fazem parte da SpaceX, como a xAI, onde estão o X e Grok, este último competindo ferozmente com ChatGPT, Claude e Gemini.

Em sua biografia de Musk, Walter Isaacson descreve um indivíduo de oscilações emocionais violentas, capaz de alternar entre o brilhantismo e a crueldade no mesmo dia.

Se Musk mantiver sua energia e saúde mental nas próximas décadas, a SpaceX poderá explorar a posição de  uma empresa sem paralelo: sem concorrentes reais, com a capacidade de atrair os engenheiros mais brilhantes do planeta, e posicionada para colher oportunidades de mercados que ainda não existem.

Em 1415, quando D. João I convocou a nobreza para a conquista de Ceuta, certamente muitos acharam que era motivo de piada também. Gastos astronômicos, tecnologia não testada em rotas desconhecidas, e uma pequena nação na borda da Europa apostando que poderia contornar o planeta por mar em busca de riquezas. Ha. Ha. Ha.

O empreendimento das Grandes Navegações portuguesas aplicou elevados volumes de capital na fronteira do conhecimento humano, em busca de novas rotas comerciais e de retornos financeiros. Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Cabral não navegavam por amor à aventura, mas porque D. Manuel I queria o retorno financeiro de controlar o comércio das especiarias, que valiam mais do que o ouro.

Eles mudaram o mundo, criaram riqueza sem precedentes, e os céticos de Lisboa precisaram atualizar seu senso de humor.

Scott Galloway é engraçado. Suas críticas a Musk muitas vezes são legítimas, e o valuation da SpaceX certamente continuará a ser objeto de muito debate e volatilidade – assim como ocorreu com outras grandes plataformas de tecnologia que hoje têm valor consolidado e são indissociáveis de nossas vidas. 

Podemos discutir se o valuation tem o “Elon Magic Multiple” – outra piada que circulou – mas é inegável que ele está investindo na fronteira do conhecimento, criando riqueza e mudando o mundo. Isso tem um grande valor e já faz parte da história – e a história não costuma se lembrar dos céticos.

 

Guilherme Pacheco é empreendedor e investidor em tecnologia. Foi co-fundador/sócio do Bondfaro, Buscapé, Mosaico, Gazeus, ParceleX e da Tessera Ventures.

 




Guilherme Pacheco






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