“A inadimplência atingiu o pico, mas isso não quer dizer que esse pico vai começar a recuar. Acho que essa dor vai ser bem prolongada.” João Cézar Magalhães Júnior, diretor-executivo do Banco Original, resumiu bem o sentimento do setor financeiro em relação ao agro.
O diagnóstico do executivo foi feito durante o Agro 360º, evento realizado em parceria por The AgriBiz e Brazil Journal, nesta semana, em São Paulo.
Em um painel sobre crédito — que teve também as participações de Alan Glezer, co-fundador da Agrolend, e André Ito, sócio da Vinci Compass — Magalhães disse que as baixas margens do produtor são a razão para o problema de crédito no setor.
“Muitas vezes a gente acha que existe um problema de crédito. Eu acho que vivemos hoje, no agro, um problema de margem, porque não existe alternativa para uma redução da inadimplência do que o produtor voltar a ganhar dinheiro e ter uma margem suficiente para que ele possa honrar com os compromissos dele”, afirmou.
Os executivos do Original e da Agrolend lembraram o crescimento desenfreado do setor ao longo dos últimos anos. Desde 2019, para cada ganho de produtividade da cadeia de grãos, o volume de crédito disponibilizado cresceu três vezes, citou Magalhães.
“Entre 2020 e 2024, tivemos os juros mais baixos da história, a rentabilidade do produtor estava super elevada, o custeio muito baixo e uma abundância de crédito no setor. Isso fez com que o apetite pelo risco do produtor crescesse muito. Vivemos um ciclo onde todo mundo tomou mais risco, se alavancou demais”, lembrou Glezer.
“A resposta de para onde foi esse dinheiro está na compra de terras, que o produtor agora tem dificuldade de vender”, completou Ito.
Sem sinais claros de mudança do ambiente macro e com recuperações judiciais do setor na mesa, a barra das instituições financeiras subiu para avaliar garantias em novas operações, o que acaba encarecendo o crédito na ponta.
“Você tem operações em que pressupõe uma garantia líquida e rápida, mas na verdade não consegue exercer”, frisou Magalhães Júnior. “O timing de execução é um problema grave, o que faz com que nós, como bancos, precifiquemos uma garantia por um preço muito menor do que poderia valer”, completou.
Com a imprevisibilidade na recuperação das garantias, que dariam respaldo à inadimplência, o crédito deve ficar ainda mais caro, avaliou o executivo do Original.
No esforço de recuperação de garantias, o banco montou um Fiagro especificamente para consolidar áreas (propriedades rurais) em vez de tomar terras como garantia em alienação fiduciária — um processo usualmente arrastado no judiciário para reaver os bens garantidos.
“O Fiagro ainda é uma tese em provação. Não foram muitos casos de consolidação dentro dele, mas entendemos que vai dar mais agilidade em casos que precisem ir para uma discussão jurídica. Vamos testar esse modelo”, contou Magalhães Júnior.
Pé firme no agro
Todos esses percalços não significam, entretanto, que as instituições financeiras pensem em tirar o pé do agro. Na verdade, é bem o contrário. No caso do Original, 2026 tem sido o ano de maior crescimento na carteira agro. Com uma carteira concentrada devido ao tíquete médio elevado, o banco atende, na vertical, de 150 a 200 clientes.
“Produtor sempre vai dever. O grande segredo é sempre estar potencializando patrimônio. Quanto ele tem de patrimônio em relação à dívida e o que ele está fazendo? Está preparado para honrar o pagamento lá na frente? [Olhando para quem está] dentro desse cenário, nós acreditamos que esse é um ano para crescer muito”, explicou Magalhães Júnior.



O ano de crescimento é uma perspectiva compartilhada pela Agrolend, que mudou há poucos meses de abordagem em direção ao modelo de banco de atacado — e vem colhendo bons frutos.
“Para poder crescer hoje, é preciso ter se preparado há cinco anos. Quem chegou ao limite em 2023/24 vai ter menos flexibilidade para aumentar exposição ao agro. Nós freamos naquela época e, ao desacelerar crescimento da carteira, deixamos a companhia com apetite para crescer. Enxergamos o agro como estruturalmente positivo”, disse Glezer.
A postura conservadora se reflete no balanço da fintech. Hoje, segundo Glezer, a Agrolend tem um patrimônio líquido de R$ 600 milhões e uma carteira próxima de R$ 800 milhões. “Um banco normalmente opera dez vezes alavancado. Temos muito espaço para crescer”, frisou.
Fora do ambiente bancário, também existe bolso disposto a colocar dinheiro no agronegócio.
No primeiro semestre, a Vinci Compass abriu uma captação de R$ 250 milhões para um Fiagro de crédito — a primeira aberta ao público em geral. O apetite foi tanto que até o lote adicional foi exercido, com a oferta trazendo, ao todo, R$ 312,5 milhões.
Com isso, a gestora tem R$ 1,5 bilhão para investir em agronegócio, montante alocado principalmente em usinas e grandes produtores rurais (acima de 20 mil hectares).
Para além do crédito, a casa vê um caminho promissor também no investimento em terras, em meio ao cenário delicado de crédito para o agronegócio. Nos últimos meses, a Vinci vem conduzindo conversas com investidores internacionais para as duas estruturas montadas pela casa: sale e leaseback e recuperação de pastagens.
“As boas terras têm quantidade finita. Por isso, se você andar fora do Brasil, qualquer single family office investe em fundo de terras, porque é uma classe de ativo que tende a andar junto com a inflação. Estamos comprando ativos num preço que a gente acha que é defensivo para o investidor ganhar dinheiro”, disse André Ito.





