O principal parceiro comercial do agro brasileiro quer seguir carreira solo. No planejamento estratégico da China para os próximos cinco anos, a agricultura ganhou relevância, o que pode significar uma redução expressiva nas exportações brasileiras.
Desde o ano passado, a segurança alimentar vem sendo tratada como item de segurança nacional na China. Mas, em março, com a publicação do 15º Plano Quinquenal, o gigante asiático deixou mais claro como pretende fazer da China uma potência agrícola: replicando o bem-sucedido modelo de crescimento industrial no campo, com coordenação estatal, financiamentos direcionados e forte apoio à inovação.
Para analistas internacionais, as diretrizes de Pequim terão forte impacto no comércio internacional. Na estimativa da consultoria global Systemiq, a China pode reduzir as importações de soja em 25% até 2030. O Goldman Sachs, em um extenso relatório sobre a busca chinesa pela autossuficiência em alimentos, também traz uma análise alarmista.
“Como resultado tanto da gestão de demanda como de ganhos de eficiência na produção, esperamos que a necessidade de importação de soja caia dos atuais 90% para menos de 30% até 2035, quando o consumo de alimentos deve atingir o seu pico na China”, dizem os analistas do banco no trabalho publicado em dezembro de 2025, antes da apresentação do novo plano.

No Brasil, os especialistas recomendam cautela aos catastrofistas de plantão: as limitações de terra agricultável e de água na China fazem da autossuficiência alimentar um desafio muito maior para os chineses do que nas áreas de energia ou manufatura, por exemplo. Mas isso não quer dizer que o gigante asiático não chegará ao seu objetivo final. Isso pode acontecer, mas deve levar mais tempo.
“Não dá para achar que a China vai fazer em biologia o mesmo que fez em engenharia, que é impressionante”, diz Marcos Jank, coordenador do Núcleo Insper Agro Global, ao The AgriBiz. “A biologia é muito menos previsível, muito mais sujeita à disponibilidade de recursos naturais abundantes e, por isso, muito mais difícil de se ter um crescimento linear.”
Detentora de quase 20% da população mundial, a China tem apenas 9% das terras aráveis e 6% da água doce do planeta. “Foi por isso que o país precisou recorrer ao mercado internacional para sustentar cinco décadas de urbanização acelerada, industrialização e expansão do consumo e da renda per capita. Agora, busca, deliberada e sistematicamente, reduzir essas vulnerabilidades”, diz Jank.
As diretrizes
O plano 2026-2030 traz metas concretas: elevar a produção doméstica de grãos de 700 milhões para 715 milhões de toneladas (com a possibilidade de chegar a 750 milhões), atingir 85% de autossuficiência em sementes, elevar a taxa de mecanização do plantio e colheita a mais de 80%, e explorar mais as terras agrícolas de alto padrão.
Em grãos, o foco está em aumentar a produção de soja e de milho, mantendo estáveis os volumes de arroz e de trigo. Para aumentar a produtividade, o governo vai promover irrigação e fertirrigação, o uso de agricultura de precisão e de biotecnologia.
Entre as diretrizes do novo plano, o governo destaca os esforços no desenvolvimento de variedades específicas para as características locais de solo, clima e disponibilidade de água. Além de criar sementes mais propícias à agricultura local, o governo pretende revitalizar essa indústria para assegurar a oferta de sementes.
Ainda nos investimentos em inovação, as proteínas alternativas entram na agenda. “Tecnologia de biologia sintética será desenvolvida ativamente para explorar novas fontes de proteína”, diz o texto do governo chinês.
Para a Systemiq, a disposição da China em desenvolver proteínas alternativas deve transformar a produção de alimentos no futuro. No relatório China’s Food Future, publicado recentemente, a consultoria estima que as proteínas alternativas devem atender entre 35% e 55% da demanda chinesa por proteína animal até 2050.
Soja — a maior vulnerabilidade
Sem dúvida, as importações de soja são a principal vulnerabilidade da China no setor de alimentos. O país compra 85% da soja que consome no exterior, tendo o Brasil como principal fornecedor. Os esforços para reduzir essa dependência externa não são novos e, para o Goldman Sachs, já surtiram efeitos significativos nos últimos anos.
Ações visando a substituição do farelo de soja por outras fontes de proteína na ração animal e melhorias na conversão alimentar na produção de carnes restringiram o consumo em 15 milhões de toneladas entre 2021 e 2024, o equivalente a 14% das importações atuais, segundo o Goldman.
Nos próximos anos, a gestão na demanda de soja deve se intensificar, com maior uso de aminoácidos sintéticos na ração e ganhos adicionais em conversão alimentar por meio de melhoramento genético dos animais e otimização da alimentação.


De acordo com o Goldman Sachs, que cita uma meta do Ministério da Agricultura chinês, esses esforços podem resultar em uma economia de 42 milhões de toneladas na demanda por soja entre 2030 e 2035.
Mas os analistas fazem uma ressalva: existem limitações na substituição do farelo de soja por aminoácidos sintéticos. A partir de um certo nível, essa troca pode alterar o sabor da carne e a produtividade do rebanho, sem falar no debate sobre possíveis impactos à saúde humana.
O papel da biotecnologia
Em outra frente, os chineses vão buscar aumentar a produtividade, com investimentos em mecanização, agricultura de precisão, irrigação e biotecnologia.
A China autorizou a comercialização da primeira geração de sementes geneticamente modificadas em 2022, focadas em resistência a pesticidas e tolerância a herbicidas, e melhoria de 10% na produtividade do milho. A aderência, no entanto, ainda é baixa. A taxa de penetração dessa primeira geração de sementes foi estimada em 5% na safra 2025/26 pelo Goldman Sachs.
Nos próximos dez anos, contudo, o banco vê um aumento exponencial na adoção de sementes geneticamente modificadas, com a taxa de penetração atingindo 90% até 2035 — o que poderia impulsionar a produção nacional de milho em 9%, ou 26 milhões de toneladas.
Os chineses também têm se dedicado ao desenvolvimento de sementes para solos salino-alcalinos, com o objetivo de viabilizar o uso de terras com essa característica. Dados do governo chinês indicam que o país possui cerca de 37 milhões de hectares de terras salino-alcalinas. Deste total, 20% têm potencial para conversão em áreas agrícolas, o equivalente a 6% das terras aráveis da China.
O custo do processo de dessalinização, no entanto, é muito alto, o que acabou levando a China a concentrar os seus esforços no desenvolvimento de sementes adaptadas a esses solos.
Segundo o Goldman Sachs, 25 variedades de arroz e de trigo tolerantes à salinidade já foram aprovadas para cultivo comercial na China. Para o banco, a maior adoção de sementes desse tipo pode impulsionar a produção de soja, mesmo que ainda não exista uma semente específica para a oleaginosa em solos salinizados. Com aumento na produtividade do trigo e do arroz, por exemplo, áreas em outras regiões podem ser liberadas para a soja.
“Como resultado tanto da gestão da demanda como da melhoria na eficiência da produção, esperamos que a necessidade de importação de soja caia dos atuais 90% para menos de 30% até 2035, quando o consumo de alimentos na China deve atingir o seu pico”, dizem os analistas do banco.
Mais difícil do que parece
No Brasil, os especialistas são mais céticos. Como entraves às diferentes ações planejadas em busca de maior produtividade, Marcos Jank destaca o perfil das pessoas no campo. “Os agricultores na China ainda são muito pequenos e estão muito envelhecidos. É difícil que essa revolução aconteça rapidamente na China”, afirmou.
Não por acaso, o bem-estar da população rural está contemplado no plano quinquenal. Como incentivo para manter os chineses no campo, o governo quer construir sistemas mais completos de infraestrutura e tornar os serviços públicos mais acessíveis nas áreas rurais.
Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, lembra que as metas da China de autossuficiência em soja não têm sido cumpridas nos últimos anos, ao contrário das metas em outros setores agrícolas como arroz e trigo. “Quando eles dominam a tecnologia, é mais fácil. Em soja, foi um fracasso”, disse.
Mesmo com o histórico jogando contra, Marcos Rubin, CEO e fundador da Veeries, acredita que eles terão “algum sucesso” em implementar as medidas. “Eles estão cada vez mais vocais e mostrando as ferramentas que eles pretendem usar para atingir os resultados. É um sinal de alerta para o Brasil. O nosso principal cliente está nos avisando que não pretende continuar comprando toda essa soja”, afirmou.
O que fazer?
Os brasileiros são unânimes ao apontar a lição de casa do Brasil: abrir novas frentes de demanda. Para Rubin, os biocombustíveis são o principal candidato a ocupar o papel que a China teve na última década como motor de crescimento do agronegócio brasileiro.
“Em algum momento vão surgir outros países demandando mais produtos, como a Índia ou a África, mas a fruta mais fácil de alcançar e pegar, hoje, é o mercado de biocombustíveis, tanto o etanol de milho como o biodiesel”, disse Rubin. “É uma oportunidade escancarada na nossa cara”.
Carlos Cogo também aponta os biocombustíveis como saída. “Em dez anos, de forma segura, vamos precisar de 11 milhões de hectares de soja para os biocombustíveis, considerando que as exportações vão seguir crescendo de forma mais moderada”, disse. “A soja vai estar mais focada na demanda interna do que na externa. Isso traz um alívio, mas é uma mudança de paradigma.”
Além da diversificação de mercados, Jank diz que o Brasil deve avaliar quais serão as complementariedades econômicas entre as cadeias produtivas das duas nações, que devem manter uma relação próxima em meio à fragilidade das relações de ambos com os Estados Unidos.
Para ele, a principal implicação do plano quinquenal não parece ser uma redução abrupta das importações chinesas de produtos brasileiros, mas uma transformação gradual da forma como a China administra as suas dependências externas.
“Tivemos um casamento mandatório com a China, que teve uma prosperidade enorme nos últimos anos. Mas, como toda relação depois de 25 anos de muita intensidade, ela vai mudar, precisa repaginar. E essa repaginação parte da necessidade de cooperação institucional e de um diálogo bilateral mais intenso”, disse Jank. “A agenda com a China deveria deixar de ser apenas comercial e passar a incluir as transformações em curso.”





