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‘Na cirurgia plástica, o médico consegue enxergar o que faz’, diz cirurgião João Evaristo • Marília Notícia

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João Evaristo Puzzi Bono tem carreira de 40 anos na Medicina (Foto: Marília Notícia)

Da medicina praticada quase exclusivamente com o olhar clínico e o contato direto com o paciente à era da inteligência artificial, o cirurgião plástico João Evaristo Puzzi Bono acompanhou algumas das maiores transformações da área da saúde nas últimas quatro décadas.

Formado pela Faculdade de Medicina de Marília (Famema), ele construiu sua trajetória profissional na cidade e testemunhou a revolução tecnológica que mudou a rotina dos consultórios e hospitais.

Ao longo da entrevista para o Marília Notícia, o médico relembra a formação em uma época com poucos recursos diagnósticos, defende a importância do exame clínico e demonstra preocupação com o crescimento acelerado dos cursos de medicina no país. Para ele, o avanço tecnológico trouxe benefícios inegáveis, mas não pode substituir a relação entre médico e paciente.

João Evaristo também fala sobre a escolha pela cirurgia plástica, a atuação na área de queimados e os desafios da cirurgia reparadora, além de refletir sobre a crescente pressão estética impulsionada pelas redes sociais. Com a experiência de quem acompanhou diferentes gerações da medicina, ele compartilha uma visão crítica sobre os rumos da profissão e da assistência à saúde no Brasil.

***

MN – Como foi vivenciar as profundas mudanças na medicina ao longo dos seus 40 anos de carreira?

João Evaristo – Eu estou com 40 anos de formado e 36 anos de consultório montado. A minha geração passou por muitas mudanças e pegou de tudo: quando eu era estudante, não existia nem bip e o celular só apareceu quando eu já tinha o consultório montado. Nós fomos desde o uso da máquina de escrever e cursos de fotografia, até o aparecimento dos computadores, a digitalização dos consultórios e, agora, a chegada da inteligência artificial.

MN – Como foi aprender medicina com médicos de outra época?

João Evaristo – Aprendi com médicos antigos numa época em que quase não se faziam exames. A medicina era totalmente clínica, baseada em pôr a mão, ouvir e sentir o paciente. Até os anos 80, havia uma humanização muito grande na área da saúde, mas, a partir dos anos 90, entrou uma onda de judicialização muito forte, o que fez com que os profissionais se fechassem por medo, já que a medicina e o corpo humano não são ciências exatas.

Profissional tem formação pela Faculdade de Medicina de Marília (Foto: Marília Notícia)

MN – Em que momento fez sua escolha pela cirurgia plástica e o que o levou para essa área?

João Evaristo – Eu faria qualquer coisa dentro da área médica, mas sinto que tenho uma natureza e aptidão muito maiores para operar do que para a parte clínica. O que mais me chamou a atenção e me encantou na cirurgia plástica é que a gente consegue enxergar o que faz. Um gastroenterologista, por exemplo, opera um estômago que está lá escondido; já na plástica, ao operar uma mama, o resultado é visível na mesma hora. Acredito que o corpo humano é fantástico e inesgotável em seu estudo.

MN – Com a evolução da medicina, hoje em dia a chance de acertar o diagnóstico é maior com todos esses exames e tecnologias?

João Evaristo – É maior, desde que o médico não substitua o exame clínico por esses exames. Exames como a tomografia e a ressonância magnética são fantásticos e indiscutíveis, mas eles são exames auxiliares ao diagnóstico e tratamento. Não se pode deixar de lado a avaliação clínica, porque cada ser humano é individualizado e tem reações diferentes.

MN – Sente falta de um bom exame clínico nos dias atuais?

João Evaristo – O que a gente nota, principalmente com os médicos mais jovens, é uma tendência de não fazer um bom exame clínico, de não palpar e não ouvir o paciente, que hoje em dia está todo mundo com pressa. A medicina é perigosa se o paciente for tratado apenas por exames. Entre 70% e 80%, ou até 95%, dos problemas de saúde são simples e resolvidos com atenção e uma boa conversa; apenas uma pequena parcela envolve coisas realmente graves.

MN – Falando sobre a formação de médicos, hoje a gente vê um número muito grande entrando no mercado todos os anos. Isso preocupa?

João Evaristo – Preocupa muito, é uma preocupação enorme. Se voltarmos 20 anos, o Brasil tinha pouco mais de 10 mil vagas para os cursos de medicina, mas hoje, esse número já passou de 40 mil. O Brasil tem cerca de 500 escolas médicas, perdendo apenas para a Índia, enquanto potências maiores como a China e os EUA possuem muito menos.

MN – Existem mais médicos se formando do que vagas nas residências?

João Evaristo – O governo liberou todas essas vagas, mas não contemplou vagas equivalentes para a residência médica. O resultado é que muitos se formam e não conseguem se especializar, mas legalmente eles têm registro no Conselho Regional de Medicina e poderiam até fazer uma cirurgia complexa, o que derruba drasticamente o nível técnico.

Brasil tem cerca de 500 escolas médicas, atrás apenas da Índia, diz cirurgião (Foto: Marília Notícia)

MN – Existe uma ilusão de glamour na profissão?

João Evaristo – Virou moda entrar na medicina pelo status e glamour, e vemos pessoas sem vocação ou talento que não querem se privar de um churrasco de domingo por causa da profissão. A medicina lida com o ser humano, então o profissional precisa de muito treinamento e vigília. Existe também um imediatismo muito grande, com médicos comprando perigosos cursos de fim de semana na área de estética, o que é um risco enorme.

MN – O senhor veio de Itápolis. Como foi a sua vinda para cá em Marília?

João Evaristo – Eu vim para Marília em 1981 para fazer medicina na Famema e acabei ficando. Fiz cirurgia geral no Hospital das Clínicas (HC) aqui e depois fui fazer cirurgia plástica em São José do Rio Preto, porque na época não havia residência de plástica no HC de Marília. Para se ter uma ideia de como as coisas mudaram, quando eu fiz minha residência, existiam apenas 23 serviços de cirurgia plástica no Brasil todo. Hoje deve ter 70 ou 80 só no estado de São Paulo.

MN – Na cirurgia plástica, o que é mais procurado no setor público e no setor particular?

João Evaristo – Tanto no sistema público quanto no particular, a cirurgia estética que mais se faz é a lipoaspiração, seguida pelas cirurgias de mamas e depois as de abdômen. Porém, a cirurgia plástica não é só estética, ela engloba a cirurgia reparadora. Essa área atende tumores, reconstruções e tratamentos de queimaduras, sempre tentando buscar o melhor embelezamento possível. Infelizmente, alguns serviços de formação contemporânea dão cada vez menos atenção à parte reparadora.

MN – Recentemente tivemos uma explosão em Paulópolis com vítimas, e o senhor trabalhou muito tempo na área de queimados da Santa Casa. É um desafio muito grande?

João Evaristo – Trabalhei com queimados de 1988 até 2021 ou 2022, e digo que não há lugar para um sofrimento maior do que uma unidade de queimados, sendo ainda pior do que o tratamento de tumores e câncer. O queimado vive um drama a vida inteira. A dor física aguda vira ‘dor da alma’ por causa das cicatrizes e do preconceito que enfrentam na rua. É um desafio e um desgaste violento para toda a equipe multidisciplinar, e as funcionárias e enfermeiras dessa área são verdadeiras heroínas.

Médico comenta da realidade dramática do atendimento em UTQs (Foto: Marília Notícia)

MN – O Brasil está preparado para atender uma grande tragédia?

João Evaristo – O queimado é a maior tragédia social que existe, muitas vezes envolvendo vítimas de violência doméstica e maus-tratos. Infelizmente, o Brasil não está preparado para uma grande tragédia com muitas vítimas de queimaduras, pois faltam leitos próprios e equipes preparadas para lidar com situações de grande complexidade, como já vimos no incêndio do circo nos anos 60 ou na boate Kiss. Marília, infelizmente, acabou perdendo o serviço que tinha na Santa Casa desde 1957, e agora a referência ficou com Bauru.

MN – E como a cirurgia plástica atua para quem sofre uma queimadura ou precisa de reparações por acidentes ou mesmo tumores?

João Evaristo – O corpo humano tem uma falha. A nossa pele não se regenera perfeitamente, ela apenas se repara formando cicatrizes. A ideia da cirurgia plástica reparadora não é apagar tudo, mas fazer com que essas cicatrizes de grandes queimaduras ou perdas de membros em acidentes não impeçam a pessoa de ter funções motoras básicas, usando retalhos e enxertos. Isso também vale para pacientes com tumores, como mulheres que precisam amputar mamas devido a câncer, onde a reconstrução busca devolver um pouco da dignidade da paciente.

MN – Existe uma pressão pela beleza atualmente e qual é o principal perigo disso?

João Evaristo – Existe uma grande pressão das redes sociais, do Instagram e da inteligência artificial. Vemos hoje uma busca desenfreada pela beleza e estética, onde as pessoas buscam uma perfeição que não existe e não aceitam envelhecer. Muitos profissionais acabam vendendo essa falsa perfeição e cometendo exageros. Além disso, profissionais não médicos que atuam injetando coisas sem conhecimento técnico exaustivo representam um grande perigo, pois não sabem tratar as possíveis complicações, colocando vidas em risco.





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