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crise financeira afeta canaviais e safras futuras

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Sufocado pela combinação de preços baixos e custos em disparada, o produtor de cana viu sua situação financeira piorar de forma aguda nos últimos meses, o que começa a se refletir no canavial.

Com as margens apertadas, os agricultores estão reduzindo a aplicação de fertilizantes, movimento visto por especialistas como um segundo passo na deterioração dos canaviais, que costuma começar pelo não replantio. O resultado deve ser visto na colheita das próximas safras.

A situação já era ruim antes da guerra no Irã. A cadeia vinha sendo penalizada pela cotação baixa do açúcar no último ano e pela produtividade estagnada dos canaviais.

No caso do etanol, além do preço ruim, pesa a conjuntura política: a aproximação da eleição motiva incentivos à gasolina que afetam a competitividade do biocombustível.

Nesse contexto, o conflito no Oriente Médio piorou a situação, e formou-se uma “tempestade perfeita”, como define José Guilherme Nogueira, CEO da Orplana, associação que representa os fornecedores de cana às usinas.

Nas contas da entidade, a margem do produtor de cana estava negativa em R$ 18 por hectare no início do ano. No pós-guerra, essa perda saltou para R$ 40 por hectare.

“A alta nos custos começou no reajuste dos fretes em 2025. Em paralelo, a cotação do açúcar não reage, pelos altos estoques. Como em qualquer negócio, o produtor não investe diante de um preço futuro que não será bom”, afirmou Nogueira ao The AgriBiz.

Como consequência, boa parte dos produtores reduziu a aplicação de fertilizantes, em alguns casos em até 60%, de acordo com o presidente da Orplana.

Segundo ele, a fragilidade é tamanha que, em certas regiões, o produtor está “tirando o pé” até na aplicação de calcário para reduzir a acidez — recurso frequente nos solos brasileiros e uma das práticas de manejo mais acessíveis.

“O produtor começa a buscar alternativas. Retirar fertilizantes e insumos é a forma mais rápida, embora não recomendada, para aliviar o caixa estressado”, disse Nogueira.

Embora o problema afete mais os produtores de cana do que as usinas — geralmente mais capitalizadas e com acesso a crédito —, a baixa produtividade dos canaviais já entrou na conta das indústrias.

“Este é um ano complexo. O produtor não está conseguindo comprar e tratar a cana. Mantidos os preços baixos e os custos altos, podem ter certeza, ano que vem a maioria vai ter muito menos cana”, disse o CFO da São Martinho, Felipe Vicchiato, durante teleconferência de resultados da empresa na semana passada.

Um pedido de recuperação judicial feito recentemente pelo Grupo LL Agro, que produz cana, grãos, hortifrúti e pecuária, ilustra a situação de aperto.

Fornecedora de cana da Coruripe, LL Agro menciona a produtividade menor na cana graças a secas e queimadas em 2024, em paralelo com o preço 8,3% menor do ATR no último ano, além de um “expressivo aumento” dos custos com fertilizantes após a guerra. “A pressão financeira deixou de ser episódica e assumiu contornos estruturais”, concluem os advogados.

José Guilherme Nogueira, CEO da Orplana

Renovação é outro problema

A queda na aplicação de fertilizantes aumenta as preocupações com a produtividade dos canaviais, que já vinham apresentando baixos índices de renovação.

Em condições normais, de 20% a 25% da lavoura deve ser restaurada a cada ano, com custo entre R$ 17 mil e R$ 18 mil por hectare, segundo a Orplana. Soma-se a isso os custos de manutenção, estimados em R$ 5 mil por mês pela entidade em fevereiro — e que deve ter aumentado após a guerra.

Diante de uma produtividade média no Centro-Sul estimada pela Orplana em R$ 9,5 mil por hectare, muitos já vinham deixando de fazer restaurações antes da guerra, como The AgriBiz mostrou em uma reportagem em janeiro.

Wiliam Hernandes, sócio da consultoria FG/A, também espera uma redução no uso de fertilizante. “A aplicação deve ficar de 5% a 10% menor que em 2025, que foi recorde negativo”. Já a estimativa de perda na produção de cana, afirmou, é mais difícil de mensurar.

Para Nogueira, o retrato atual deve reduzir os volumes colhidos nas safras 2027/28 e 2028/29. Embora afirme que ainda “é cedo para cravar” o tamanho do impacto, ele assegura que o canavial vai sentir.

Entre os possíveis efeitos negativos da queda de adubação, o presidente da Orplana cita redução de perfilamento, perda de TCH (tonelada de cana por hectare) e ATR (açúcar total recuperável), além de uma menor brotação das soqueiras. “Tudo isso deverá impactar a produção.”

Relação de troca ruim

No aumento dos custos de produção, o principal vetor da piora são os preços dos fertilizantes — principalmente fosfatados e nitrogenados, os mais usados na cana — e do diesel, que dispararam após os fechamentos de passagens no Oriente Médio.

“A cana usa muito nitrogenado, especialmente nitrato de amônio. Além de o preço ter subido, a Rússia, que era o principal fornecedor, restringiu as exportações até o início de maio”, disse Renata Cardarelli, especialista em Grãos e Fertilizantes da Argus.

Na ureia, o preço saltou de US$ 480 a tonelada antes da guerra para US$ 850 em abril. Depois, recuou ao nível atual, entre US$ 535 e US$ 565.

“Diante da relação de troca ruim, os importadores têm optado por postergar ou reduzir as compras. A disponibilidade de matérias-primas segue muito volátil”, diz Cardarelli.



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