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A hipocrisia dos EUA contra a carne brasileira, que continua isenta

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No relatório em que acusa dezenas de países de falhar no combate ao trabalho forçado, o USTR (Departamento de Comércio dos EUA) cita a pecuária do Brasil como um exemplo dos potenciais efeitos que a suposta concorrência desleal pode causar à economia americana. Mas curiosamente — ou numa clara demonstração da retórica política do governo Trump — a carne bovina foi, mais uma vez, poupada do tarifaço.

No material divulgado nesta quarta-feira, o USTR compara os dados de exportação de carne bovina do Brasil e EUA entre 2015 e 2025. Nesse intervalo, os embarques de carne congelada do Brasil para as economias investigadas praticamente dobraram, enquanto as exportações dos EUA para as mesmas nações subiram 21%.

Ao analisar os dados de exportações de carne para a China, a discrepância é ainda maior: os embarques brasileiros cresceram em mais de 17 vezes entre 2015 e 2025, enquanto os envios dos EUA para o país asiático despencaram nos últimos cinco anos.

A consequência foi um aumento da participação do Brasil nas importações chinesas de carne bovina de 38%, em 2021, para 53% no ano passado. No mesmo intervalo, o share dos EUA caiu de 6% para 2%.

Em sua análise, o USTR não faz nenhuma menção aos ganhos de produtividade ou aumento da disponibilidade de gado no Brasil nos anos recentes. Pelo contrário, apresenta o trabalho forçado como praticamente a única justificativa para a perda de mercado dos EUA no comércio global de carne bovina. Mas a argumentação é fraca.

“Embora nem todas as importações chinesas de carne do Brasil sejam necessariamente produzidas com trabalho forçado, a prevalência deste na produção de carne bovina brasileira sugere fortemente que pelo menos algumas das importações chinesas tiveram origem total ou parcial no trabalho forçado”, diz o USTR sem embasar a tese em nenhum dado oficial de trabalho escravo.

Em uma nota de rodapé, o governo americano diz apenas que “há muitas dificuldades em rastrear o trabalho forçado na cadeia de suprimento de carne bovina brasileira devido à chamada lavagem de gado”. Mas acrescenta: “essas dificuldades não invalidam a conclusão de que as exportações de carne dos EUA para a China foram afetadas negativamente pela concorrência da carne bovina com risco de trabalho forçado no Brasil”.

“Embora outros fatores, como o tamanho do rebanho bovino dos EUA, também possam ter influenciado a concorrência entre EUA e Brasil, com a proibição ao trabalho forçado os EUA provavelmente teriam experimentado maiores vendas, receitas e exportações de carne para a China”, acrescenta o USTR.

O USTR também culpa a China por não ter aplicado nenhuma punição ou proibição ao Brasil, o que acabou tornando a carne brasileira mais barata do que a americana, prejudicando a concorrência.

O curioso é que nem o próprio governo Trump, mesmo após ao que chamou de investigação, adotou alguma ação para conter o suposto trabalho forçado na pecuária brasileira. Na lista de exceções às novas tarifas, a carne bovina está presente mais uma vez, assim como outros produtos agrícolas que os EUA precisam importar, entre eles o café e o suco de laranja.

Entenda a nova tarifa

Um dia depois de propor uma tarifa de 25% sobre as importações do Brasil, o governo dos Estados Unidos está recomendando uma outra taxa de 12,5% sobre as mercadorias brasileiras. Mas a novidade do dia, baseada em uma investigação contra trabalho infantil ou forçado, não é uma exclusividade do Brasil: a medida atinge 60 parceiros comerciais dos EUA.

“Nenhuma das 60 economias cujos atos, políticas e práticas são objeto dessas investigações aplica efetivamente uma proibição à importação de trabalho forçado”, afirma o relatório do USTR.

Em comunicado, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que as falhas no combate forçado criam uma dinâmica em que os trabalhadores americanos são obrigados a competir globalmente em condições desiguais. “Não vamos mais tolerar isso”, disse.

A investigação, que foi conduzida na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, tem sido apontada como uma forma de a Casa Branca contornar as limitações impostas pela Suprema Corte às tarifas impostas no primeiro ano do mandato de Donald Trump — que foram consideradas inconstitucionais.

O Brasil está no grupo dos países a receber a maior tarifa, justificada porque essas nações falharam no combate ao trabalho escravo, segundo a investigação do USTR (Escritório de Comércio dos EUA). Nesse mesmo grupo estão China, Índia, Coreia do Sul, Japão e até a Suíça.

No grupo das nações que deverão ser penalizados com uma tarifa mais baixa, de 10%, estão os países da União Europeia, Reino Unido, México, Argentina e Canadá, entre outros. Segundo o USTR, essas nações proibiram o trabalho escravo ou se comprometeram a fazê-lo.

As novas tarifas não entram em vigor imediatamente. Elas ainda precisarão passar por uma consulta pública, prevista para começar em 7 de julho.



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