Mas existem alternativas menos exóticas, mais baratas. Uma delas é instalar data centers em um país específico.
Um país que é o terceiro maior produtor global de energia renovável, atrás apenas da China e dos EUA. Um país que neste momento não sofre com falta de eletricidade mas com excesso: o Brasil.
Por essas razões e outras, o Brasil ganha cada vez mais espaço nessa área. O país já tem 206 data centers em operação, o maior número da América do Sul. Nos últimos dois anos, empresas do setor anunciaram mais de R$ 80 bilhões em novos projetos no país.
Um data center é, na essência, uma fábrica de processamento de informação. Um galpão com servidores que armazenam, digerem e distribuem os dados por trás de tudo o que acontece na internet – uma transação via Pix, um vídeo no Youtube e, claro, a aplicação que mais exige eletricidade: inteligência artificial.
E quanto a nossa vida depende do mundo digital, maior a demanda por processamento e energia no mundo real. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo de eletricidade dos data centers deve mais que dobrar até 2030 em relação aos níveis de 2024, chegando a 945 terawatt-hora – o equivalente a dois Brasis.
Esta é a primeira reportagem de uma nova série do InvestNews. Vamos analisar aqui os trunfos do Brasil na corrida global por data centers – e os obstáculos.
Sobrecarga em hub globais
Por muito, os Estados Unidos concentram o maior número de data centers no planeta. São 4,3 mil – 38% da oferta mundial. A Virgínia lidera, com 603 unidades. Sozinho, o Estado que abriga o Pentágono supera o segundo país no ranking: o Reino Unido, com 530 – porque foi ali, no Pentágono, que a internet nasceu; e a coluna vertebral da rede desenvolveu-se justamente nos arredores do quartel-general das Forças Armadas americanas.
Capacidade de investir é o que não falta nos EUA, claro. Só entre 2025 e 2026, Amazon, Microsoft, Google e Meta anunciaram mais de US$ 1 trilhão em investimentos em data centers, chips e infraestrutura de IA.
O dinheiro das big techs americanas tende ao infinito, mas a oferta de energia, não. O uso de eletricidade pelo setor de tecnologia triplicou na última década. E pode triplicar de novo até 2028. Nesse cenário, os data centers passariam a consumir até 12% de toda a eletricidade do país.
Na Virgínia, a fila de data centers que tentam se conectar à rede elétrica cresceu tanto que a concessionária local passou a agrupar novos projetos em lotes, em vez de analisar cada um individualmente. A previsão, agora, é que grandes plantas levem até sete anos para se conectarem.
Enquanto isso, os projetos também enfrentam oposição de moradores, que reclamam do barulho das máquinas – que operam 24h por dia – e da substituição de bairros residenciais por fileiras de galpões industriais.

O problema se repete em polos na Europa. Dublin, a capital irlandesa, passou a restringir novas conexões à rede em partes da cidade. Em 2024, os data centers por lá já consumiam mais eletricidade do que todas as casas da Irlanda somadas.
A Ember, organização britânica de pesquisa em energia, estima que conectar um novo data center à rede nos principais polos europeus – Frankfurt, Londres, Amsterdã, Paris e Dublin – pode levar de 7 a 13 anos.
Essa demora para conectar novos projetos à rede tende a deslocar investimentos para mercados menos congestionados.
“Estados Unidos e China são os grandes polos, não tem como fugir disso, até por motivos geopolíticos. Mas surgem outros para atendê-los: o norte da Europa, o Sudeste Asiático, o Canadá, a América Latina”, afirma Victor Arnaud, presidente da Equinix no Brasil, empresa americana que opera mais de 280 data centers no mundo – nove deles por aqui.
Para Arnaud, a lógica do deslocamento vem respondendo a dois estímulos: “Essas operações, principalmente as de treinamento de modelos de IA, estão indo cada vez mais para os lugares onde você tem energia disponível e segurança regulatória”.
O caso brasileiro
Sobra energia renovável no Brasil. Nas horas em que o sol está mais forte, os painéis solares geram mais eletricidade do que a rede elétrica consegue absorver. Para não sobrecarregar o sistema, o Operador Nacional do Sistema Elétrico manda reduzir parte da geração.
Conhecido como curtailment, o processo fez com que usinas deixassem de gerar 20,6% da energia que poderiam produzir em 2025. Com isso, companhias do setor elétrico deixaram de faturar algo perto de R$ 6,5 bilhões no ano.
Isso torna empresas geradoras particularmente interessadas no avanço de data centers no país: mais galpões de servidores ajudariam a absorver parte da energia hoje desperdiçada.
Neste ano, a Casa dos Ventos assinou dois grandes contratos para abastecer projetos de data centers. O primeiro, com a operadora Ascenty, prevê um investimento R$ 2,5 bilhões em projetos eólicos e solares dedicados aos chips. O segundo, com investimento próprio de R$ 4 bilhões, vai abastecer por 20 anos o data center que está sendo construído no Ceará para atender a ByteDance, dona do TikTok.
“Hoje, poucos países conseguem competir com o Brasil em custo de energia renovável”, diz Rodrigo Abreu, CEO da Omnia, responsável pelo projeto cearense.
Outra vantagem mencionada com frequência pelos executivos do setor é o desenho do sistema elétrico brasileiro. Diferentemente dos Estados Unidos e de parte da Europa, o Brasil opera majoritariamente em um grid nacional interligado.
Energia gerada no Rio Grande do Sul pode ser consumida no Amapá, por exemplo. “Os Estados Unidos não têm um sistema único que faça a distribuição da carga, como acontece no Brasil”, diz Victor Arnaud, da Equinix. “Você pode ter geração excedente na costa leste [americana], mas não consegue levar isso para a costa oeste”.
Há, no entanto, um limite: ter energia sobrando não significa, necessariamente, conseguir levá-la até o data center. A disputa agora passa pela infraestrutura de distribuição de energia – subestações, linhas, transformadores.
“Nosso principal desafio hoje são os gargalos da linha de distribuição”, afirma Marcos Siqueira, head de estratégia da Ascenty.
Questões regulatórias
Se no pilar “energia disponível” temos arestas a aparar, vale o mesmo para a parte de segurança regulatória. Não somos exatamente uma Noruega nesse quesito.
Nos últimos meses, poucos temas mobilizaram mais o setor do que o Redata, regime especial de tributação criado por medida provisória em setembro de 2025. O texto suspende a cobrança de PIS, Cofins, IPI e Imposto de Importação na compra de GPUs, servidores, sistemas de memória – e qualquer outro componente essencial para data centers que não seja fabricado no Brasil.
A MP perdeu validade em fevereiro de 2026 sem ser convertida em lei. Um projeto substitutivo foi aprovado pela Câmara e seguiu para o Senado. Ele ainda aguarda votação.
Por ora, então, o setor ainda opera em um limbo regulatório. Empresas já passaram a estruturar projetos considerando o benefício tributário, mas o programa segue sem garantia de que será efetivamente mantido.
Na próxima reportagem desta série, vamos mostrar o fator que mais determina a corrida dos data centers no Brasil: a localização – e entender por que o maior projeto nessa área está fora do eixo Rio-São Paulo.





