Tempestade perfeita à vista no suco de laranja: oferta global menor, estoques altos e uma persistente queda no consumo sinalizam para uma safra “desafiadora” em 2026/27. A visão é do RaboResearch, o braço de análises do Rabobank.
Não que cenários desafiadores sejam novidade para o suco de laranja; o setor vem sangrando há anos, e, apesar da recuperação de safra no Brasil em 2024/25, o clima de aperto virou regra nos últimos anos.
Mas dá para piorar em 2026, diz o Rabobank. O banco vê um cenário agravado pela alta de custos causada pela guerra no Irã e pela incerteza tarifária nos Estados Unidos, que penalizou o suco de laranja com sobretaxa em importações durante sete meses no ano passado até o produto entrar na lista de isenções, em novembro.
No lado da oferta, o Rabobank estima uma diminuição global de 13%, puxada pela esperada queda de produção no Brasil.
O número vai ao encontro da conta mais recente do Fundecitrus, que representa os citricultores e as indústrias produtoras de suco, apontando para uma safra 12,9% menor no cinturão citrícola formado por São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro.
A estimativa, de 255,2 milhões de caixas, representa um recuo de 14,7% frente à média da última década, de acordo com a entidade.
Segundo o banco, os motivos são a incidência elevada do greening, doença que vem afetando os laranjais brasileiros com mais impacto desde o final dos anos 2010, e problemas climáticos na última safra.
“A projeção decorre da redução no número de frutos por árvore e do aumento da taxa de queda prematura, fatores que superam os efeitos positivos do maior peso dos frutos e da ampliação do número de árvores produtivas”, disse o Fundecitrus.
De acordo com o estudo do Rabobank, a situação já foi precificada e é agravada pela estagnação ou queda de produção em outros exportadores, como México, a Flórida, nos Estados Unidos, e a União Europeia.
“O clima mais seco e quente e as preocupações com o greening já haviam sido levados em consideração. Por isso, a reação do mercado ao Fundecitrus foi indiferente, e os preços do FCOJ seguiram na faixa dos últimos quatro meses (entre US$ 1,55 e US$ 1,99 a libra-peso)”, afirma o relatório assinado por Andrés Padilla.
Vale notar que esse patamar de preços é mais ou menos o mesmo observado entre 2017 e 2023, quando quebras de safra no Brasil e em outros produtores estimularam um forte movimento de alta que arrefeceu a partir do início de 2025.
Mesmo no cenário negativo, o Rabobank destacou a “adaptabilidade, resiliência e inovação” do cinturão brasileiro. E pontuou que persiste um movimento de expansão da lavoura em “fuga do greening” para estados vizinhos, como Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás — como antecipado pelo The AgriBiz em maio passado.
Consumo em queda, estoques em alta
Já no lado do consumo, o Rabobank alerta que “a demanda não apresenta sinais de recuperação” e “isso segue obscurecendo as perspectivas de mercado”.
Segundo o relatório, “preços no varejo e cotações futuras estão em direções opostas”.
Ou seja: embora os preços do suco de laranja concentrado e congelado (FCOJ, nas iniciais em inglês) e do suco de laranja não-concentrado estejam em queda desde o começo de 2025, “os preços nos mercados-chave continuam próximos do recorde”.
Nas contas do Rabobank, os preços de varejo nos EUA subiram em média 24% entre 2023/24 e 2025/26, de US$ 2,50 por litro para R$ 3,10 por litro. Enquanto isso, os contratos futuros em Nova York caíram 52,5% no mesmo período.
O banco ressalva que em abril o preço nos EUA caiu 1,8%, na primeira redução desde 2021, “o que pode sinalizar o varejo começando a reagir aos volumes em queda”.
Mesmo assim, os preços “devem continuar a pesar no consumo, em particular em meio à crescente inflação de alimentos e energia, levando os consumidores a optarem por produtos mais baratos ou mesmo a abandonarem a categoria”.
O cenário é piorado, diz o relatório, pelo aumento de estoques nas safras 2025/26, que termina em junho, e 2026/27, que acaba em junho de 2027 — mesmo em um cenário de queda na oferta, o que sinaliza a gravidade da redução na demanda.
Isso gera dois efeitos: de um lado, uma pressão baixista sobre as cotações que tende a penalizar produtores e indústrias. E, de outro, um acúmulo de estoques adquiridos a preços mais altos, penalizando os consumidores.
“A persistência de preços elevados sugere que os varejistas e, potencialmente, os engarrafadores estão priorizando a margem por litro em detrimento do volume, principalmente em mercados-chave, como EUA e Europa”, conclui o Rabobank.





