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OPINIÃO. Por que os empresários e investidores precisam engajar com a AI. Antes que seja tarde

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Há algumas semanas, tive uma reunião que cristalizou algo que eu já sentia há meses. Do outro lado da mesa estava um dos nossos investidores – um empresário à frente de uma marca de consumo presente em cada gôndola do Brasil – que há um ano considerava vender a operação como alívio. A Selic de dois dígitos, a incerteza fiscal e a sensação de que estávamos num ciclo de mediocridade estrutural drenaram sua energia. O Brasil parecia um poço sem fundo.

Mas desta vez, o semblante era outro: iluminado. Mesmo sem formação em ciência da computação, ele havia mergulhado em AI generativa. Em pouco tempo, o Claude se tornou o “membro da equipe” com quem ele mais interage no dia-a-dia. O passo seguinte foi determinar que seus liderados diretos também adotassem as ferramentas, atrelando parte da remuneração ao uso intensivo dos tokens (quanto mais usam, melhor).

Os resultados apareceram em semanas: a empresa reduziu o G&A em 15%, elevou vendas e expandiu margem bruta ao encontrar eficiências de pricing na ponta. As palavras dele sintetizam como virou o jogo: “Hoje, o AI generativo me permite tomar decisões granulares como se eu tivesse uma consultoria estratégica de alto calibre pilotando o dia-a-dia; mas no fundo, é o mesmo time, amplificado pela tecnologia.

O mais revelador, no entanto, foi além das métricas financeiras: este mesmo empresário agora está ultrabullish em ficar no Brasil. Percebeu que pode operar aqui com uma eficiência que seus concorrentes ainda não enxergaram. O olho nos Estados Unidos mostra a direção; o silêncio ao redor no Brasil revela a dimensão do gap competitivo. O país do poço sem fundo se tornou o país do mato alto.

Mas obviamente, este empresário não chegou a esse ponto só lendo meia dúzia de artigos sobre AI. Chegou porque se aproximou do ecossistema de tecnologia: investiu em venture capital, conheceu fundadores, testou produtos ainda embrionários antes dos seus pares. Esta é a primeira lição: quem observa de longe entende tarde.

O superciclo que não pode ser ignorado

Cada superciclo de plataforma tecnológica produziu os negócios que definiram a sua geração. Foi assim no PC (com a ascensão da Microsoft e da Intel); na internet (Amazon e Google); no mobile (Apple e Meta); no cloud (AWS e Salesforce). Não por acaso, 8 das 10 empresas mais valiosas do mundo hoje são de tecnologia, e todas foram construídas sobre essas ondas.

Essas plataformas transformaram estruturalmente a dinâmica de mercados inteiros, catalisando ganhos de produtividade que tornaram a adoção mandatória para se manter competitivo.

Por isso, negócios construídos sobre elas cresceram num ritmo dificilmente alcançável pela economia tradicional: partiram de penetração zero e independeram do PIB para crescer. A alavanca foi a própria disseminação: quanto maior o ganho de eficiência entregue, mais veloz a adoção, num ciclo que se retroalimenta.

Essa dinâmica hoje explica a exuberância dos mercados americanos, com o superciclo da AI generativa: as bolsas acumulam recordes históricos a despeito de um cenário macroeconômico restritivo — juros elevados, tensões comerciais, risco geopolítico. O motor por trás da resiliência é um só: a AI, a próxima dessas plataformas, e possivelmente, a maior.

A disseminação é real e sem precedentes. A Nvidia ,cujos semicondutores sustentam o superciclo, já vale quase US$ 6 trilhões. A OpenAI é hoje a segunda empresa privada mais valiosa do mundo, avaliada em US$ 852 bilhões, e a Anthropic, sua maior rival, saltou de US$ 9 bilhões para cerca de US$ 44 bilhões em receita anualizada em menos de cinco meses — possivelmente o crescimento mais veloz da história do software.

Nos EUA, o mercado já fez a conta: o upside do superciclo é estruturalmente superior ao risco macro.

O abismo entre Palo Alto e o Brasil

O volume de investimento em venture capital é um termômetro direto do quanto cada país está posicionado para capturar o superciclo – e a discrepância entre EUA e Brasil hoje é abismal.

O VC americano alocou US$ 339 bilhões em 2025, retornando ao pico eufórico de 2021. Na América Latina inteira, o volume foi de US$ 4 bilhões – 0,25x do que se investiu em 2021. Os EUA se recuperaram plenamente da ressaca pós-pandêmica; nós permanecemos comprimidos.

Esta desproporção restringe drasticamente o universo de empresas capitalizadas para liderar a implementação da AI por aqui: existem mais de 1.000 empresas nativas em AI generativa nos EUA que captaram mais de US$ 35 milhões nos últimos 18 meses. No Brasil, 4. Menos de 0,5% do volume americano, apesar de o PIB brasileiro representar 8% do americano. A escassez de negócios capitalizados para o superciclo não é proporcional; é um abismo.

O abismo não se justifica pela demanda. Apenas um ano após o lançamento do aplicativo mobile do ChatGPT, o Brasil já registrava 54 milhões de usuários ativos mensais, com penetração de 25% — superior aos 53 milhões de usuários e 16% de penetração nos EUA.

O apetite é real. Mas um chatbot no celular não transforma a produtividade de empresas em escala: isso exige produtos verticais, moldados para regulações, fluxos e mercados locais. É justamente a criação de tais soluções que o capital de risco deveria estar financiando.

A ironia é cruel: o empresário que lê sobre AI no noticiário e se vê perdido em como iniciar a transformação da sua empresa (seja por não ter o conhecimento e as conexões necessárias, seja porque as soluções adequadas à sua realidade ainda não existem) é o mesmo que não aloca capital na classe de ativo que fornece esse conhecimento, abre essas conexões e financia a criação dessas soluções.

A frustração é, em parte, consequência da própria inação como investidor.

Nosso investidor da marca de consumo quebrou esse ciclo. Investiu na classe de ativo, implementou a tecnologia na operação, e hoje colhe os frutos das duas decisões simultaneamente. Ele é a exceção, mas deveria ser a regra.

A tempestade perfeita (e a inquietação que vem junto)

Como investidor de venture capital, confesso: o cenário competitivo arrefecido me entusiasma.

O Brasil está produzindo uma nova safra de empresas fundadas nativas em AI generativa, como Jota, Segura, Brendi, Enter e Comp. Negócios que nascem com times significativamente menores, ciclos de produto mais rápidos e potencial de crescimento alinhado aos benchmarks globais.

No mundo pré-AI, sair de zero a US$ 100 milhões de receita em sete anos era um feito excepcional. Agora já é possível observar empresas mirando esse patamar em menos da metade do tempo.

Para quem está capitalizado e ativo, o momento é raro. Apesar dos fundamentos sólidos, empresas dessa geração captam com frequência a valuations 2-3x inferiores aos praticados em 2021 na região, em função da escassez de capital de risco. A combinação é difícil de ignorar: negócios AI-native com tração recorde a descontos históricos. Oferecem exposição ao mesmo superciclo de Palo Alto, mas a preços que o ciclo americano não permite mais.

Mas esta é somente uma face da moeda. A outra é mais incômoda, e deveria preocupar qualquer empresário ou investidor que pensa no longo prazo: o custo da inação.

Quando a produtividade do seu concorrente cresce exponencialmente e a sua permanece linear, a distância não aumenta aos poucos: ela explode. Empresas que hoje parecem comparáveis podem, em poucos anos, operar com estruturas de custo, velocidade de decisão e capacidade de execução completamente diferentes.

A diferença entre usar IA como mera ferramenta e redesenhar profundamente a empresa ao seu redor determinará a diferença entre ganhar o jogo ou se tornar irrelevante.

Apesar do cenário divisor de águas, ainda não vemos no Brasil empresas priorizando AI de forma absoluta em suas agendas na frequência que se vê nos EUA. Ainda não vemos investidores precificando seus ativos à luz do superciclo: quais são os AI plays da B3? E no universo dos ilíquidos? O silêncio é ensurdecedor.

Despertar antes que seja tarde

Essa provocação não se trata de otimismo ingênuo. Nossos desafios são reais: a Selic, a incerteza fiscal, o cenário eleitoral. A própria disseminação de AI também traz seus próprios riscos: muitos produtos vão se comoditizar; big techs vão capturar parte relevante do valor; muitas empresas que se autointitulam AI native não sobreviverão.

Mas superciclos tecnológicos não aguardam cenários macro confortáveis. A inação e o gargalo de capital em AI que vivemos hoje acumulam, a cada dia, um débito na corrida para manter o Brasil competitivo numa redistribuição global de produtividade que acontece uma vez por geração.

Para os empresários e investidores próximos do ecossistema e dispostos a agir, isso cria uma janela extraordinária. Para quem está parado, cria uma vulnerabilidade silenciosa.

A provocação é simples: não basta acompanhar de longe. É preciso se expor ao ecossistema de startups de IA. Conversar com fundadores. Testar produtos. Implementar soluções ainda imperfeitas. Alocar capital. Mudar processos. Forçar o time a usar. Medir produtividade. Reprecificar ativos. Revisitar teses.

A compreensão não vem antes da experimentação. Vem depois dela. O empresário da marca de consumo percebeu isso a tempo. Hoje, enquanto seus concorrentes estão aguardando o resultado das eleições, ele está redesenhando completamente a sua empresa.

A janela da tempestade perfeita está aberta. Mas não ficará para sempre.

 

Alexandre Mello é co-fundador e managing partner do big_bets, um fundo de venture capital early-stage focado em startups intensivas em software.




Alexandre Mello






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