Bloomberg Línea — A Novonor assinou um contrato de venda das ações da Braskem (BRKM5) detidas pela empresa (antiga Odebrecht) ao Shine I Fundo de Investimento em Participações (FIP), gerido pela Vórtx Capital e assessorado pela IG4 Capital, marcando o avanço mais concreto da gestora brasileira de assumir o controle da maior petroquímica da América Latina.
O acordo, firmado em 17 de abril e comunicado ao mercado nesta segunda-feira (20), prevê a transferência de 226,3 milhões de ações ordinárias e 47,3 milhões de ações preferenciais classe A da Braskem ao fundo comprador — representando aproximadamente 50,1% do capital votante e 34,3% do capital social total da companhia.
Em contrapartida, a NSP Investimentos, subsidiária da Novonor, receberá debêntures da própria NSP em vez de pagamento em dinheiro.
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A estrutura da operação estabelece que, em vez de pagamento em dinheiro, o Shine I entregará à NSP debêntures que o próprio fundo adquiriu previamente do FIDC Shine — veículo criado para comprar a dívida da Novonor junto aos bancos credores.
Para cada ação adquirida, serão entregues duas debêntures de primeira série e uma de segunda série da 2ª emissão da NSP Investimentos.
“O comprador pretende conduzir, em conjunto com a Petrobras, a reestruturação financeira e operacional da Companhia, com a intenção de que a Braskem volte a gerar valor para seus acionistas e para o Brasil”, disse a Braskem no comunicado ao mercado.
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Segundo o documento, com o fechamento da operação, entrará em vigor um novo acordo de acionistas entre o fundo e a Petrobras prevendo controle compartilhado, com consenso obrigatório nas deliberações do conselho de administração e número igual de indicados de cada parte tanto no conselho quanto na diretoria estatutária.
A Petrobras (PETR3; PETR4), que não exerceu formalmente seu direito de preferência até o momento, é uma das condições suspensivas da operação: o contrato só se concretiza se a estatal confirmar que não acionará essa cláusula nem o direito de tag along.
Além da anuência da Petrobras, a transação depende de autorizações judiciais no âmbito da recuperação judicial da Novonor e da aprovação pendente da Comissão Europeia sob o Foreign Subsidies Regulation (FSR).
As aprovações antitruste do Brasil, México, Estados Unidos e da própria União Europeia sob o rito tradicional já foram obtidas.
A Novonor divulgou comunicado reconhecendo que o acordo marca o encerramento de “um ciclo de décadas de investimento” dedicado à construção da Braskem.
O conglomerado, que enfrentou uma recuperação judicial após seu envolvimento no escândalo Lava-Jato, destacou que a nova estrutura de controle — com a Petrobras como co-controladora — “assegurará a continuidade necessária para que a Braskem siga avançando com solidez”.
“(…) A atuação da Novonor, enquanto acionista, seguirá sendo pautada pela observância e promoção do interesse social da Braskem até a consumação da transação”, disse a empresa em nota.
OPA
O contrato também prevê a obrigatoriedade de protocolar junto à CVM um pedido de OPA para aquisição de até a totalidade das ações em circulação da Braskem, nas mesmas condições da transação.
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A assinatura do contrato encerra uma longa fase de incerteza que pairava sobre a empresa e sobre o próprio negócio.
No início de abril, fontes ouvidas pela Bloomberg News relataram que a administração da companhia chegou a avaliar a possibilidade de buscar proteção judicial contra credores — uma espécie de tutela cautelar —, ou até mesmo um processo de recuperação judicial.
A situação financeira da Braskem se agravou nos últimos meses. Ao divulgar os resultados do quarto trimestre de 2025, em março, a empresa reportou prejuízo de R$ 10,3 bilhões — quase o dobro do registrado no ano anterior —, emitiu alerta formal de “incerteza material” sobre sua capacidade de continuar operando.
A empresa encerrou dezembro com dívida líquida ajustada de US$ 7,5 bilhões e alavancagem de cerca de 15 vezes o EBITDA. A companhia tinha US$ 2,1 bilhões em caixa e obrigações de US$ 1,5 bilhão vencendo ao longo de 2026.
A crise é o resultado de anos de dificuldades que se acumularam: a empresa foi arrastada pelo escândalo Lava-Jato, que levou à queda da Novonor; sofreu as consequências de um desastre ambiental em Maceió, que forçou o reassentamento de cerca de 50 mil pessoas e custou à companhia o grau de investimento; e enfrentou um mercado global de petroquímicos deprimido por excesso de oferta.
Ao longo dos últimos anos, uma série de candidatos a compradores da participação da Novonor — incluindo a Abu Dhabi National Oil (Adnoc), a Apollo Global Management e o investidor Nelson Tanure — desistiram das negociações.
A IG4, gestora cofundada e liderada por Paulo Mattos, já recrutou profissionais experientes em processos de reestruturação para assumir cargos de gestão na Braskem, segundo o fato relevante divulgado nesta segunda-feira.
O fundo afirmou que não pretende cancelar o registro de companhia aberta da empresa.
— Reportagem atualizada para incluir o posicionamento da Novonor.
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