|Mobile Time Latinoamérica| O Governo da Colômbia deu um passo decisivo rumo à transformação do seu sistema financeiro ao tornar obrigatório o modelo de finanças abertas (Open Finance), uma medida que promete impulsionar a concorrência, a inovação e a inclusão financeira no país.
Por meio do Decreto 0368, de 7 de abril de 2026, o Ministério da Fazenda formalizou um marco regulatório que obriga todas as entidades supervisionadas pela Superintendência Financeira da Colômbia a compartilhar, mediante autorização dos usuários, os dados financeiros de seus clientes. Com isso, o país passa a integrar o grupo restrito de nações da América Latina que adotam um modelo obrigatório.
O novo decreto altera o Decreto 2555 de 2010 e substitui o modelo voluntário criado em 2022, estabelecendo um sistema em que bancos, seguradoras, fundos de pensão, fiduciárias e outras entidades deverão disponibilizar acesso às informações financeiras.
Os dados pertencem ao usuário
O conceito central é que os dados financeiros pertencem ao usuário. Nesse modelo, as pessoas poderão autorizar que informações como histórico de transações, produtos financeiros e dados cadastrais sejam compartilhadas com terceiros para acessar melhores serviços.
“A chave aqui é o consentimento informado e revogável. A ideia fundamental é proporcionar melhores experiências: crédito mais competitivo, assessoria financeira personalizada, agregadores de contas e pagamentos mais eficientes”, afirma Roberto Gaudelli, diretor comercial da Prometeo.
Do ponto de vista estratégico, o decreto marca uma mudança de paradigma. Para Karol Benavides, diretora regional de alianças e estratégia para a América Latina na Fiskil, o Open Finance deixa de ser uma iniciativa opcional e passa a ser infraestrutura do sistema financeiro.
“Para as instituições financeiras, implica deixar de ver os dados como um ativo a proteger e passar a utilizá-los para gerar valor e crescer; para os usuários, significa ter controle real sobre suas informações e acessar serviços financeiros desenhados com base no seu comportamento, e não em um histórico limitado.”
Mais concorrência e menos fricção
A Colômbia vem há anos estruturando um modelo de dados abertos no setor financeiro. Desde 2022, o país promove ajustes regulatórios, estabelece como prioridade de política pública e cria mesas de trabalho entre bancos, fintechs, associações e o regulador, com o objetivo de desenvolver padrões comuns e testes de interoperabilidade.
Nesse processo, em 2025 surgiu a necessidade de tornar obrigatório o compartilhamento de dados. “O Open Finance obrigatório muda os incentivos e transforma em obrigação que as instituições financeiras abram seus sistemas e devolvam o poder aos usuários”, afirmou Gabriel Santos, presidente da Colombia Fintech.
A transição de um modelo voluntário para um obrigatório é considerada altamente disruptiva pelo setor. Segundo Santos, isso permite avançar para um sistema mais competitivo, no qual os usuários terão maior liberdade para escolher produtos financeiros e trocar de instituição com menos barreiras.
Na prática, isso pode se traduzir em crédito mais acessível, melhores taxas e serviços personalizados, especialmente para populações que hoje enfrentam dificuldades de acesso ao sistema financeiro.
“A maioria dos dados dos consumidores na Colômbia não trabalha para eles, está presa nas instituições financeiras. O Open Finance obrigatório muda isso, devolve o controle dos dados aos usuários e aumenta a concorrência, a inclusão e a inovação”, destaca Santos.
Do lado da indústria, também se ressalta que o compartilhamento de dados permitirá construir perfis de risco mais precisos, abrindo caminho para ampliar o acesso ao crédito.
“Novamente, os maiores beneficiados são os consumidores: com melhores produtos, maior liberdade de escolha e menos fricção na experiência digital”, acrescenta.
Desafios para as fintechs
Apesar dos avanços, o ecossistema fintech aponta desafios na implementação. Um dos principais pontos de atenção é a participação das fintechs não supervisionadas pela Superintendência, que dependerão de esquemas voluntários para se integrar ao sistema.
“Perdemos a oportunidade de colocar o sistema financeiro tradicional e a indústria fintech em condições iguais”, afirma Santos, destacando que o setor acompanhará de perto como esses mecanismos funcionarão na prática.
Outro ponto crítico será evitar que os custos de implementação sejam repassados aos usuários ou se tornem barreiras à entrada de novos participantes.
Segurança
O decreto estabelece uma arquitetura de “duplo consentimento”, na qual o usuário autoriza o uso de seus dados e a instituição financeira precisa confirmar essa autorização antes de compartilhá-los.
Segundo Gaudelli, esse modelo fortalece a confiança no sistema: “O usuário deve saber quem acessa seus dados, para quê e por quanto tempo, e ter controle total sobre essa autorização”.
Além disso, o modelo proíbe a cobrança pelos dados em si (permitindo apenas custos de infraestrutura) e elimina práticas como o screen scraping, substituindo-as por APIs seguras e padronizadas.
Para Karol Benavides, essa abertura cria oportunidades para repensar modelos de negócio: “O avanço não está apenas em abrir dados, mas em ativar novos modelos. As instituições podem migrar para receitas baseadas em serviços, enquanto os usuários acessam experiências mais simples e novas formas de financiamento baseadas em dados antes invisíveis”.
Implementação
Agora, a responsabilidade recai sobre a Superintendência Financeira da Colômbia, que terá seis meses para definir o cronograma de padronização e até 12 meses para implementar elementos-chave, como o diretório de participantes.
As instituições, por sua vez, terão até 12 meses (prorrogáveis) para se adequar aos padrões técnicos.
O governo considera essa iniciativa um primeiro passo para um sistema mais aberto, que estimule a inclusão financeira e a entrada de novos concorrentes.
A experiência internacional reforça essa estratégia. Países como o Brasil demonstram que, com implementação adequada, o Open Finance pode ampliar o acesso ao crédito e dinamizar o mercado.
Segundo Gaudelli, “o Brasil, com quatro anos de Open Finance obrigatório, já tem mais de 62 milhões de consentimentos ativos, mais de 800 instituições conectadas e um aumento de 25% na aprovação de crédito para segmentos antes desatendidos”.
No caso colombiano, o sucesso dependerá não apenas da regulação, mas também da execução e da adoção pelos usuários.
“O decreto foi publicado; agora precisamos acompanhar de perto sua implementação e desenvolvimento”, conclui Santos.
A ilustração no alto foi produzida por Mobile Time com IA





