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Disparada do boi espreme margens dos frigoríficos no Brasil

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A forte alta do boi gordo levou as margens das vendas de carne bovina no mercado interno para o terreno negativo. Mais do que isso: elas estão em um dos menores níveis já registrados.

Segundo dados da consultoria Athenagro, o spread entre o preço de venda dos cortes desossados de carne e o preço do boi gordo em São Paulo ficou em negativo em 7,5% em março, ante uma média histórica de 6,5% positivos.

Desde janeiro, o preço do boi gordo subiu 15% em São Paulo, mercado de referência no País, atingindo o recorde de R$ 366,20 por arroba na segunda-feira, segundo o indicador do Cepea. Em Mato Grosso, o gado pronto para o abate está ainda mais alto, perto de R$ 370 por arroba.

A forte alta da matéria-prima provocou reações na indústria. A Friboi, que pertence à JBS, colocou os funcionários das unidades de Água Boa e Pedra Preta, ambas em Mato Grosso, em férias coletivas, enquanto a MBRF paralisou temporariamente um turno da unidade de Várzea Grande, no mesmo estado.

A alta do boi reflete principalmente uma corrida dos frigoríficos brasileiros para preencher a cota de importação de carne bovina da China, de 1,1 milhão de toneladas em 2026. Os embarques que excedem a cota enfrentam tarifa de 55%, ante 12% para os volumes dentro do limite estabelecido.

Para Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto, os exportadores brasileiros devem esgotar a cota chinesa até o fim de junho. “Mantidas as condições atuais, veremos um gargalo de embarques em julho, agosto, setembro e outubro”, disse. “Essa é a nossa estimativa conservadora, porque o ritmo dos embarques começou a ficar mais cadenciado.”

Fontes da indústria e o próprio presidente da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), Roberto Perosa, dizem que a cota pode ser totalmente atingida já na segunda quinzena de maio.

Depois disso, o Brasil deve interromper as exportações para a China, já que a sobretaxa de 55% tornaria os embarques economicamente inviáveis. Como a China responde por cerca de metade das exportações brasileiras de carne bovina, uma forte queda no fluxo comercial será difícil de evitar.

Carne competitiva

Apesar da alta do gado, a carne bovina brasileira segue altamente competitiva, o que pode ajudar a sustentar os embarques mesmo na ausência da China. Mercados consumidores relevantes, como os Estados Unidos, também devem aumentar as importações para atender à demanda doméstica. “Ainda assim, nenhum outro mercado consegue substituir a China em termos de volume”, disse Pimentel.

Além disso, vale lembrar que nem todos os frigoríficos têm acesso ao mercado americano, mais exigente. “Parte da produção que não irá para a China será redirecionada. Outra parte não será absorvida. É aí que os preços do gado passam a sofrer pressão por conta da compressão de margens”, comentou uma fonte da indústria.

A China segue como o mercado mais rentável para os frigoríficos brasileiros, seguida por Estados Unidos e Europa. Enquanto os cortes dianteiros são vendidos à China por cerca de US$ 7.000 por tonelada, o mesmo produto é negociado a aproximadamente US$ 6.000 por tonelada nos EUA. Para outros países, o valor médio de exportação do mesmo corte estaria próximo de US$ 5.600.

Não por acaso, as plantas da JBS que adotaram férias coletivas não são habilitadas a exportar para a China, enquanto o turno da MBRF que foi temporariamente paralisado faz basicamente desossa para mercados menos nobres de exportação e para o Brasil.

Claramente, as empresas estão priorizando o mercado chinês em um momento de custos elevados da matéria-prima.

Confinamentos em Alerta

O risco de uma queda relevante no preço do boi gordo, depois que a cota chinesa for totalmente preenchida, é mais alarmante para os confinamentos, que devem aumentar a oferta de bois para o abate entre julho e novembro — justamente quando a China deve se afastar do mercado.

“Há um risco significativo para os confinamentos. Estamos aconselhando nossos clientes a fazer hedge”, disse Pimentel.

A orientação dos especialistas é travar as margens enquanto o mercado passa por uma barrigada causada pela falta de cotas chinesas. A partir de novembro, a demanda da China deve se recuperar, já que os embarques realizados nesse mês chegarão em janeiro ao país asiático, compondo a cota de 2027. Nesse momento, os preços do gado tendem a retomar a trajetória de alta.

Outro fator de sustentação dos preços é o momento do ciclo pecuário no Brasil. A fase de liquidação de fêmeas está próxima do fim, segundo Pimentel, já reduzindo a oferta de bezerros, cujos preços também estão em níveis recordes.

Ela espera que essa tendência persista ao longo deste ano e do próximo, com os preços do gado atingindo um pico em 2028.



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