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Abril Azul não é suficiente

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Marília e São Paulo Abril é conhecido como o mês de conscientização sobre o autismo. No entanto, na prática, ainda estamos longe de compreender o que isso realmente significa na vida das famílias que vivem essa realidade diariamente. Para muitas delas, o mês que deveria representar visibilidade ainda é marcado por sobrecarga, exaustão e silêncio.

Na última segunda-feira, dia 06 de abril de 2026, Marília perdeu João Raspante, 13 anos, autista nível 3 de suporte, não verbal. João saiu de casa no fim da tarde e, horas depois, foi encontrado sem vida dentro de uma das lagoas/represas do sistema de tratamento de esgoto, no bairro Nova Marília IV.

Um pequeno intervalo de segundos e uma consequência irreversível.

Antes de qualquer julgamento, é necessário afirmar com clareza: essa mãe não falhou. Mães atípicas vivem em estado constante de alerta.

Não existe descanso pleno, não existe desligamento. Existe cansaço acumulado, sobrecarga emocional, noites mal dormidas e uma sucessão contínua de decisões difíceis. E, ainda assim, elas seguem tentando dar conta de tudo, todos os dias.

O que aconteceu não define uma mãe, revela o quanto essa realidade exaustiva ainda é invisível para quem observa de fora.

Também é preciso corrigir outra interpretação equivocada: João não desobedeceu. No autismo, existe um comportamento conhecido como fuga ou evasão (tecnicamente chamado de elopement).

Não se trata de escolha, desafio ou falta de limite, mas de uma resposta neurológica. Pode ocorrer diante de sobrecarga sensorial, desconforto emocional, necessidade de movimento, tentativa de autorregulação, interesse por algo específico (entre outros).

Em crianças com nível 3 de suporte, esse quadro se intensifica: não há compreensão de perigo, medo, leitura de risco ou antecipação de consequências. Sendo assim, muitas vezes não há possibilidade de pedido de ajuda.

O autismo não avisa quando o perigo está por perto. O risco é constante e silencioso.

Há, porém, um ponto que precisa ser mencionado com honestidade: João foi visto caminhando sozinho, e ninguém interrompeu esse percurso. Não é sobre culpar, é sobre despertar.

Sempre digo que inclusão não se sustenta em discurso; ela se manifesta em comportamento. Uma criança sozinha na rua deveria ser percebida como um sinal de alerta coletivo.

Aproximar-se com cuidado, observar, perguntar (mesmo na ausência de resposta), acionar ajuda da polícia, são atitudes simples, mas que exigem consciência ativa. E essa ainda é uma construção que nos falta enquanto sociedade.

Existe ainda uma realidade pouco compreendida: muitas crianças autistas não aceitam o uso de identificação. Retiram, rejeitam, entram em crise. Isso significa que nem sempre haverá um indicativo visível de vulnerabilidade. Por isso, a responsabilidade não pode depender de um detalhe externo; ela precisa partir das pessoas.

O que esse caso evidencia, de forma dolorosa, é o quanto ainda estamos despreparados não apenas como indivíduos, mas como estrutura. Mudar essa realidade envolve comunidade, preparo coletivo e, sobretudo, compromisso efetivo das políticas públicas.

Não há explicação que alivie uma perda como essa. Não há palavra que organize essa dor. Mas há um compromisso que precisa surgir a partir dela: o de fazer diferente.

João não é apenas uma notícia, ele é um alerta. Um chamado para que a conscientização se transforme em prática. Para que deixemos de olhar sem perceber e, principalmente, de saber sem agir.

À família, à mãe, ficam o respeito, nossos sinceros sentimentos e o reconhecimento de que nenhuma dor se compara à de quem perde um filho.

Abril está apenas começando, e algumas conversas não podem mais ser adiadas.



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