Crônica por Ramon Barbosa Franco
Eu não entendia naquela época, pois ainda estava na minha infância. No entanto, amava ouvir músicas antigas e, confesso, ser um menino anacrônico me custou um certo preço. Paguei de várias formas por este meu apreço pelo antigo, contudo, não é isso o que me moveu a escrever sobre o choro da tia Marina. Ela era uma das irmãs da minha avó materna, a Luiza. Vinha de ônibus, mas antes, embarcava mesmo era no trem. Pousava na casa da vó e me pedia para gravar em fitas cassete os discos de tango que meu pai tinha. Eram LPs de vários intérpretes, mas ela gostava mesmo era do Albertinho Fortuna.
Albertinho cantava as versões em português dos tangos argentinos de Carlos Gardel. E sempre, mas era sempre que a tia Marina ouvia os vinis dele, ela chorava. A gente não entendia, mas a nossa vó dizia que era coisa de pessoa mais velha, que não conseguia segurar a emoção trazida pela música. A tia chorava em qualquer lugar em que estivesse, bastava que alguém colocasse na vitrola um disco de tango. A vó Luiza também chorou muito uma vez em que notei que ela ouvia uma música do Roberto Carlos; lembro-me certinho do verso que a fazia desabar: ‘Se o amor se vai…’.
A vida fluiu e não só o amor se foi em diversas situações, mas a própria vida da tia Marina chegou ao fim. A avó Luiza continua conosco, porém, aos 95 anos e acamada, já nem se lembra muito da família e precisa dos cuidados diários de uma enfermeira. Já não vê mais novela, nem a série Smallville, da qual era uma baita fã.
E aquele pré-adolescente dos anos 1990, hoje quase um homem de cinquenta anos — caminhando mais para o lado da maturidade do que para o da juventude —, de súbito, começa a ouvir um fado em uma postagem qualquer. Veio como se fosse um disparo de sniper à queima-roupa: comecei a chorar imediatamente a cada verso interpretado pela fadista Carminho — uma portuguesa de lírica e beleza artística impressionantes — na canção “Memória”.
O fado — que é como o destino, essa vida que nos mostra que a questão é mais sobre como cair e levantar a cada percalço do que permanecer em pé o tempo todo — começa com uma explosão de verdade: ‘Ainda te lembras de mim…’. Naquele instante, eu só sentia as lágrimas caindo pelo rosto, da mesma forma que a tia Marina sentia, lá atrás, na minha infância. Parecia que tinha vivido a infância segundos antes.
Agora, sim, entendo o que a minha avó Luiza nos disse: não conseguir segurar o choro ao ouvir uma canção que toca na profundeza do nosso ser, chacoalhando o que mantemos como alma e revirando sentimentos já dormidos, é, literalmente, coisa de gente vivida. ‘Ainda sabes de onde vim, cá sou esta que aqui estou. Dize-me no meu olhar triste, que alguma memória existe e ainda sabes quem sou’.
Cá comigo, acho que hoje sou um pouco mais a tia Marina, porque não consigo mais segurar o choro ao ouvir fado. Com ela era com o tango. Ah, e o Albertinho Fortuna — embora cantasse sem sotaque — era português. Carminho, portuguesa como ele, canta charmosamente com o sotaque da terra de Portugal. ‘Diz-me com sinceridade, se tu te lembras de mim. Onde cresci e amei. Ou se, a algo, eu pus fim. Será que tu me conheces? Que o tempo passa e não esqueces. Quem eu fui e sou, enfim?’.
Ramon Barbosa Franco é jornalisa, formado em Comunicação Social [Jornalismo] pela Universidade de Marília [Unimar], e escritor, @ramonbarbosafranco [Instagram]





